Crônica Jany Vargas

O eterno adultério!

Escrito por Jany Vargas

No táxi! Uber, na verdade, e a motorista, que aqui vou chamar de moça, contou sua história: Seu irmão comentou que sua mulher estava estranha, por isso quando a cunhada lhe deu seu celular para alguma coisa rápida a moça clonou o WhatsApp dela no computador.

Dias depois lembrou de dar uma olhada e descobriu que a viagem que a cunhada iria fazer naqueles dias, para a casa dos pais no interior, era para fazer um aborto. Quem era o pai da criança? O marido da moça. Soube assim que eles tinham um romance clandestino há seis anos.

Entendeu ali porque seu marido sempre tão amoroso e atencioso rastreava seu carro e sabia de todos seus horários. Lembrou das vezes que a cunhada, podóloga, fazia os pés dele no quintal enquanto a moça cozinhava refeições para os dois. Lembrou das muitas viagens que os dois casais fizeram juntos.

Arquitetou a vingança e dias depois ligou para o marido e disse que era para ele nunca mais voltar para casa e que ele não teria direito a nada que os dois têm em comum. Ligou para a cunhada, que era como uma irmã para ela, e marcaram de se ver. A cunhada, que já tinha sido avisada pelo amante, mesmo assim foi ao encontro e apanhou muito da moça, que me contou da surra dizendo que sua mão tinha ficado muito inchada de tanto bater.

A moça mandou os áudios e mensagens dos amantes para toda a família, disse para o pai da cunhada que fosse buscar a filha para levá-la para o interior e ele foi. Assim a cunhada saiu de casa sem ter conversado com o marido.

Faltou contar que o irmão dela e a cunhada têm três filhos – de 9 a 14 anos – que de repente se mudaram para o interior sem saber o que tinha acontecido. A moça e o marido têm um menino de quatro anos que foi informado da infidelidade e, segundo a moça, não se incomodou com a situação e nem fala no pai que era muito amoroso com ele.

Triste não? Triste tudo, mais triste ainda o tumulto no cotidiano e coração das crianças.

Tantos ângulos para olhar a situação. A quebra da confiança, o se sentir enganado, a vontade de fazer amor com outra pessoa, a decisão de esconder um relacionamento, a violência física, as separações, as crianças privadas da presença de um dos pais e dos primos.

De cada um desses pontos sai uma narrativa, um ponto de vista, uma dor.

Celular, WhatsApp, uber… todas essas novas palavras e realidades estão nessa história. Para me contar de quanto ela considerava sua cunhada uma irmã, a moça me disse que lembrou com dor da vez recente que ela e a cunhada tiraram uma selfie, naquele mesmo carro onde eu a ouvia.

Quando chegamos ao aeroporto de Congonhas e eu ia descer ela tirou seus óculos escuros para contatar meus olhos. Sem os óculos sua fragilidade ficou evidente. Eu vi o quanto ela estava perdida, apesar de parecer tão forte e decidida. Seu mundo tinha realmente desmoronado.

Esther Perel, psicoterapeuta, nesta palestra do TED que vou postar aqui, fala que “o adultério existe desde que o casamento foi inventado” e que é uma “desordem que leva a uma nova ordem” no casamento se marido e mulher resolvem encarar a situação. E que o adultério tem “menos a ver com sexo e bem mais com o desejo de atenção, de se sentir especial, de se sentir importante” e que todas as pessoas que têm um relacionamento extra conjugal relatam que se sentem vivas! O que levanta questões relacionadas com a mortalidade, com o passar do tempo.

Enfim, vale muito ouvir Esther falar. Que pena que não tenho o contato da moça para indicar esse TED para ela. Quem sabe esses dois casais poderiam se beneficiar, poderia haver cura para a traição que impactou tanto a vida deles.

Por isso que informação é tão importante! Abre grandes janelas por onde pode entrar a luz e vento fresco onde parece haver apenas escuridão ameaçadora!

 

Sobre o autor

Jany Vargas

Transita no universo das Danças Circulares e é escritora. Escreve para levar ideias daqui para ali. Para contar histórias, falar do seu tempo, participar do diálogo, contribuir.

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