Colunistas Crônica Thomas Hahn

O lado bom de ser brasileiro

Escrito por Thomas Hahn

O Brasil e os brasileiros vivem uma fase negativa em sua autoestima. Também, pudera: Lava Jato, corrupção nos poderes públicos, economia debilitada por sucessivos desgovernos, violência, tudo conspirando para nos jogar na mais profunda depressão. Embora concorde que nosso mar não está para peixe, gostaria de oferecer alguns argumentos para nos vermos com um pouco mais de benevolência, principalmente se olharmos para o que acontece em outros países.

Vejamos, por exemplo, o que acontece na Europa – mais especificamente, na França. O francês já não sabe mais o que é ser francês. Até o fim da Segunda Guerra, não era difícil. Ser francês significava ser um tipo Astérix, de boina e com um cigarro no canto da boca, bom garfo e copo em qualidade e quantidade, rude para com os turistas, admirador de sua própria cultura e história (La Gloire) recheada de intelectuais e déspotas sanguinários, e, finalmente e sobre tudo, branco.

Logo em seguida, porém, a coisa degringolou. Perdeu a França suas colônias no Norte da África, na África Equatorial, e na Ásia. Acontece que seus ex-súditos tinham permissão para migrar para a França, e assim fizeram. O francês podia, de repente, ser branco, árabe, negro ou oriental. Podia ser cristão, muçulmano, budista ou ateu. A glória passada só interessava aos brancos originais, descendentes dos gauleses; o resto se lixava, e queria tão somente o aqui e agora. Pior: ao invés de Gitanes, queriam cigarro com filtro! E, é claro, a União Europeia, o Euro e as guerras no Oriente Médio e na África exacerbaram ainda mais o conflito em torno da identidade francesa.

E o Brasil? Temos um sólido sentido de identidade? Temos, sim. Brasileiro é quem tem um documento que diga que é brasileiro, e ponto. Não existe o brasileiro típico, tamanha a mistura de povos que, aqui chegando, uniram-se entre si sem dar bola para quem eram antes de aqui aportar. Conhecer alguém que descende de portugueses, judeus poloneses, africanos, índios e japoneses é a norma, não a exceção. Não temos como ser xenófobos: odiaríamos a nós mesmos. Não é lindo?

Quanto à nossa Gloire, em que pese nosso Hino Nacional quando se refere às nossas glórias no passado, temos mais orgulho (muito justo) de nossas fronteiras negociadas pacificamente pelo Barão do Rio Branco do que nossas eventuais guerras, como a do Paraguai ou do Uruguai. Somos um país do (eterno?) futuro por não ter muito do que nos vangloriar no passado. E, pelo andar de nossa carruagem política, não vejo nenhuma Gloire em nosso futuro previsível.

E isto é tudo de bom. Não seremos uma potência, não ocuparemos o noticiário com nosso poderio militar e capacidade bélica, viveremos – por falta de opção – em paz com nossos vizinhos, não seremos cobiçados por ninguém, nem a ninguém cobiçaremos. Simplesmente, tocaremos nossa vidinha e, espero, voltaremos, algum dia, a produzir lindas músicas.

Um abraço bem brasileiro,
Thomas Hahn

Sobre o autor

Thomas Hahn

Filósofo de botequim, autor consagrado (por ele mesmo) de um livro, colaborador, com muita honra, desde o primeiro número do Jornal d'aqui e morador da Granja Viana desde 1973.

Blog: www.avistadobanco.wordpress.com

Deixe um comentário