Colunistas Sílvia Rocha

O Namoro nos Tempos de Agora

Escrito por Sílvia Rocha

Como será que anda o bom e velho namoro?

E como será que anda o bom e novo namoro?

O namoro nos tempos do agora?

Para responder a esses questionamentos, achei que o caminho era procurar uma pessoa jovem, moradora da Granja Viana, e fazer com ela uma entrevista presencial, um bate-papo descontraído para a minha matéria em homenagem ao Dia dos Namorados, que é comemorado no dia 12 de junho.

Lembrei-me de uma jovem simpática e descontraída que conheci há alguns meses, graças ao grupo “Caronetas”. Nós duas íamos pegar carona com a mesma pessoa, e o ponto de encontro era no metrô Butantã.

Foi para ela que liguei para fazer o convite da entrevista. Iniciei a conversa mais ou menos assim:

S: Oi, Mika, tudo bem? Nos conhecemos naquela noite, pegando uma carona com a Sandra, lembra?

M: Lembro, lembro sim.

S: Tudo bem? Pois é, Mika. Eu gostaria de entrevistar uma pessoa jovem sobre o tema do namoro. Por acaso você está namorando?

M: Então… não sei direito se estou namorando…

Naquela hora, pensei “Esta é a pessoa que eu estou procurando. Exatamente por isto. Para falar sobre namoro, não namoro, quase namoro, e tantas outras formas de se relacionar hoje!”

Em pleno feriado de Corpus Christi, fui me encontrar com a Mika pertinho da Igreja de Santo Antônio e fomos para a minha casa. Ela estava meio esbaforida e com fome. No caminho, parara para comprar pão de queijo e um suco. Pudera, tinha acordado cedo para uma sessão de ensinamentos no Templo Odsal Ling, que segue a linha do Budismo tibetano, e fica nas imediações do km 26 da Rodovia Raposo Tavares. Sendo que a Mika também usa o grupo de caronas do templo, para ir e para voltar.

Era meio-dia de um sábado ensolarado quando começamos a conversar no jardim da minha casa.

E, mesmo conhecendo-a tão pouco, já sabia que ela, além de não saber se estava namorando, era iniciada no Budismo tibetano, estudava Artes Visuais na Faculdade de Belas Artes e era autora dos “grafites de menininha” que tinha visto pela Granja afora.

Mikaela Masetti Asvestas, granjeira de 18 anos, me concedeu uma entrevista de uma hora, onde fomos além das questões de relacionamento. Também falamos sobre “street art” (arte de rua), grafite, pichação, vegetarianismo, interesses, sonhos e planos como, em breve, tirar sua carta de motorista e dar aulas de inglês, para ter mais autonomia financeira. No entanto, nesta matéria, aprofundei-me em questões ligadas aos relacionamentos hoje. Talvez você se depare com novas expressões, noções, atitudes. Novas formas de encarar os relacionamentos, o amor e o namoro. A conferir!

– E por falar em namoro…

– Essa questão de ver o namoro, mesmo pessoas da minha idade têm visões diferentes. Eu tive coisas parecidas, já, tipo uma espécie de amizade colorida que não se sabe o que é. Isto é bem comum. Mas, ao mesmo tempo, entre os grupos de amigos, há pessoas que namoram sério, ou reclamam que têm muito ciúme na relação… Eu acho que não sabia dizer para você se estava namorando ou não porque é uma coisa que eu senti que estava fluindo. Não foi: “ah! estamos namorando!” Chegou numa coisa que, com a rotina, a gente se via tanto, compartilhava tantas coisas que isso já era um “estar namorando”. A gente não tinha falado nada exatamente… acho que é o principal motivo de eu não saber (se estava namorando ou não, quando perguntei a ela na ocasião de agendar nossa entrevista).

… A gente conversou um pouco sobre isto. Até comentei com ele que ia fazer uma entrevista (risos)… É que, no início, quando a gente começou a sair, eu falei que eu não gostava de rótulos e tal. Acho que isto acabava me confundindo mais. Não sei, parece que a partir do momento em que se fala “estou namorando”, parece que quebra o encanto, sabe?

… No fim, é um rótulo oculto (risos). Oficialmente, eu falo que estou namorando.” Ah! Mãe! Meu namorado (risos)!” Ele já foi em casa, uma vez só, e conheceu a minha mãe. Normalmente, eu já vou para São Paulo e ele mora lá. E aí, falei para a gente comer no Serafim¹ , aqui da Granja, porque ele é vegetariano também, e aí ele veio e eu falei: “o café é depois em casa!” (risos) E aí eu o apresentei para a minha mãe. Eu não queria ser invasiva… desde fevereiro, a gente sai toda semana, e a minha mãe não sabia quem ele era… e eu entendo a preocupação dela, para saber se ele é uma pessoa legal.

– Mika, fale um pouco dos seus amigos, quem namora… como são os acordos…

-Vai muito do acordo que as pessoas têm. Conheço amigos que já começaram com relacionamento aberto, de: “ah! A gente tem isto, mas nós somos livres para ficar com outras pessoas, mas não pode isto, pode aquilo”. Ao mesmo tempo, conheço pessoas em que o acordo é: “a gente tá junto, então ninguém fica com ninguém” e, às vezes, chega até o extremo da pessoa ter ciúme com algum amigo ou amiga da pessoa… amigo mesmo, acho que isso pode existir agora que está tudo mais livre. Acho que tem que ter esta liberdade de você ser você mesmo. Mas os ciúmes existem, é um medo de perder. É bonito! Por um jeito! (risos)

– Então hoje você tem um relacionamento mais fixo, mais firme, e se você fosse dar um rótulo, você daria: um bom e velho namoro?

– O namoro é uma definição quando você está certo do que você quer… uma relação entre duas pessoas que procuram a mesma coisa uma na outra. É saber o que você realmente quer para você. É ter mais certeza do que eu estou querendo.

… É que antes as estruturas eram muito mais rígidas. A gente pode utilizar estes nomes (namoro, noivado, casamento), mas não que eles vêm seguido de casamento ou disso ou daquilo. Mais como uma experiência mesmo. Lidar com uma outra pessoa de forma mais íntima. Você mostrar seu mundo… às vezes tenho umas crises… às vezes eu estou mal… e eu não consigo esconder que eu estou mal. Então eu falo: estou péssima. Então, eu fico pensando como esta pessoa vai ver que eu não estou bem. Porque se ele está gostando de mim, vai ficar chato, vai ficar uma energia ruim. Mas tem que lidar, sabe? Todo mundo tem períodos bons, ruins… Acho que é uma escolha de uma parceria.

… Antes era muito assim. Ou você tinha namoros por interesse, juntar as famílias, aí depois, mais recentemente, ainda existia essa coisa de namoro cedo, como a minha avó: ela escolheu mais ou menos quem ela queria, por quem ela se apaixonou, mas até casar ela não podia beijar, não podia fazer nada, literalmente. Ela tinha que ser “a boa moça”.

… Esse âmbito de como a sociedade enxerga o homem e a mulher está se alterando, ainda mais com a questão da homossexualidade. 

… Tem uma coisa que eu achei que se chama demissexualidade²É basicamente uma pessoa que precisa de uma relação afetiva ou intelectual, ou psicológica ou emocional antes de ter uma relação sexual. É algo que surgiu mais atualmente, diante da futilidade das relações… em festas… As pessoas vão pra festa, ficam loucas… beijam todo mundo… é um extremo oposto daquela estrutura rígida.

… Enfim, o demissexual é uma pessoa mais sensível, talvez, que para ele não faz sentido essa coisa de algo só físico e com qualquer pessoa. Eu sou meio assim… (risos). Eu sou bem assim! (mais risos).

– Eu não conhecia a expressão demissexual.

– É nova. Recente. Eu achei uns textos bem legais (sobre isto). Quando eu li, falei: That’s me! (sou eu!) (risos.) Postei no Instagram, ali no stories e aí um monte de pessoas falou: “Nossa, não conhecia! Que legal! Achei algo com que me identifico!”

– E a questão do relacionamento aberto, Mika?

– Olha que engraçado. Tenho duas pessoas amigas que estavam com um relacionamento super firme. Elas que propuseram relacionamento aberto. Eles eram “o casal”, sabe? Aí ela veio, falou para ele que queria abrir (o relacionamento) porque ela estava se descobrindo, queria experimentar coisas novas, mas que o amava. E ele veio desabafar comigo: “Eu a amo, não quero outras pessoas, pensar que ela quer ficar com outras pessoas me deixa triste, mas eu não quero perdê-la”. Então, ele tentou ficar com o relacionamento aberto, mas viu que isto o estava consumindo, estava fazendo super mal para ele, só de pensar nela com outras pessoas. Enfim… eles terminaram. É um exemplo de uma menina que quis abrir o relacionamento. Eu acho que ok, às vezes, as pessoas querem testar coisas novas com mais de uma pessoa, ok, isto existe desde sempre também. Mas depende, de novo, das suas intenções, do que você busca. Pode ser um momento de “não quero mais isto, já fiquei namorando tanto tempo, não é mais para mim”. Acho que foi o caso dela, dessa minha amiga. É triste. Triste porque eu os adorava juntos! (risos).

– Mika, e a questão do namoro e gênero?

– Vou dar um exemplo: a Karol Conka³, não sei se você sabe. Eu fui num show e acho que o público de algumas dessas mulheres empoderadas é todo homossexual. Nossa, está muito mais comum! Eu gosto disto. Acho legal, as pessoas não estão tendo medo e pudor de si mesmas de ser quem elas são. Você tem que seguir por si mesma… fazer o que o seu coração pede!

– E por falar em liberdade, em fazer o que o coração pede…

Ao mesmo tempo que o machismo tem uma coisa sobre nós, mulheres, tem também uma coisa sobre os próprios homens. Ter que ser o estereótipo do cara machão, ou o cavalheiro. E lógico que é legal o cara que, às vezes, paga uma conta, ou que é atencioso, mas eu também quero ser, sabe? Porque eu sou gentil. Também quero ser gentil!

Ficam questões para reflexão. O que é velho, o que é novo… o que é eterno. Os fenômenos geracionais, o que o futuro nos reserva… Mas o Dia dos Namorados está aí! Flores, mensagens, juras de amor, relacionamentos que se “oficializam”, trocas de presentes… e fica a mensagem da Mika em relação à gentileza: independente do tipo de relacionamento, dos gêneros e demais fatores envolvidos, dos formatos escolhidos… que eles sejam permeados pela voz do coração e pela gentileza!


¹ Serafim é um restaurante vegetariano e vegano, cuja matriz é na Granja Viana e há uma filial na região da Avenida Paulista, em São Paulo.
² Segundo o site demisexuality.org, este conceito tem como definição “um estado em que a pessoa só se sente sexualmente atraída depois de formar uma ligação emocional”. Ou seja, as pessoas demissexuais não se sentem sexualmente atraídas por alguém do mesmo sexo ou do sexo oposto sem primeiro criarem um forte laço emocional. Numa sociedade em que facilmente existe um envolvimento sexual logo nos primeiros encontros, viver neste estado pode ser um desafio, como explica Meryl Williams. Para ler o seu artigo no Washington Post, clique aqui.
³ É uma rapper, cantora e compositora brasileira, além de atriz, produtora, modelo e apresentadora. É conhecida por suas canções que exaltam a força da mulher na sociedade. 

Sobre o autor

Sílvia Rocha

Sílvia Rocha mora na Granja Viana desde 1994.
É graduada e mestre em Comunicação Social – Jornalismo – pela Escola de Comunicações e Artes da USP.

Pratica o haikai – micropoemas de origem japonesa, inspirados na natureza – desde 1984. Publicou a segunda edição de Estação Haikai e Gestação Haikai, pela editora É selo de língua, 2015. Ganhou o Concurso de Poesia Falada do Café das Flores e da Revista Escrita com As Quatro Estações do Ano, em 1987.

Escreve matérias, artigos e crônicas para veículos impressos e virtuais e conduz a oficina Haikai: universo em três versos em grupos, individualmente, presencialmente e à distância.

Site: www.silviarocha.com.br

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