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Silêncio necessário – Entrevista com Yolanda S. Meana

Escrito por Deborah Brum

É entre uma expiração e uma inspiração, num instante não percebido, que a vida pulsa e ganha ritmo. No silêncio, adentramos uma força estranha, que nos leva para algo que ainda não existe. Assim, um bom escritor é aquele que sabe guardar o silêncio, trazendo para o seu texto o mesmo pulsar e o ritmo natural do processo respiratório.

Yolanda Serrano Meana é uma autora que possui o domínio de seu interior na relação com as coisas do mundo e que projeta essa característica em seus textos, por meio de um silêncio proposital, que faz com que falem por si.

Se o silêncio é algo em si mesmo, em Yolanda ele é o motor da escrita.

Nascida na Espanha, em La Felguera, chega ao Brasil na década de 80, onde se casa. Anos depois, vai morar na Argentina com a filha e o marido, lugar do qual guarda boas lembranças.

De volta ao Brasil, e acreditando que o tempo não passa de uma invenção da humanidade para organizar a existência, Yolanda se reinventa mais uma vez, num novo tempo, o da realidade.

E talvez por se reinventarem sempre em novos contextos, os textos de Yolanda nos conduzem ao seu próprio íntimo, a um estranhamento causado pela quietude que, de certa forma, é sempre inesperado. O silêncio também pode ser incômodo. Contudo, os devaneios, as lembranças e os sentimentos florescem a partir das lacunas deixadas pela autora, das coisas que são ditas sem estarem expostas numa palavra, do velado manifesto na leitura: um diálogo íntimo entre leitor e texto.

A autora atribui aos seus textos uma característica na qual o vazio é, muitas vezes, a palavra não escrita, o que abre espaço para as reflexões dos leitores. E como o silêncio é ambivalente – pois é a ausência do som, da palavra, uma pausa – mas, ao mesmo tempo, é registro e presença de sentido, seus textos ganham potência.

Entretanto, Yolanda fala e se expressa com o corpo, em gestos e frases persuasivas. Uma mulher forte e eloquente, que articula as palavras com convicção porque, acredito eu, tudo o que fala, nela, já foi antes calmaria. Formada em Jornalismo, trabalhou em revistas, rádio e como correspondente, além de ter traduzido muitas obras, inclusive livros de Ziraldo para o espanhol.

Sua vida é marcada pela escrita. Aos 9 anos, escreve o primeiro texto, iniciando assim um trajeto feito de palavras. Desde menina, seus textos são revelados em imagens, antes de se tornarem escritos, pois aquilo que vê, quando escrito, torna-se uma verdade inventada.

Os textos de Yolanda, sejam prosa ou poesia, dialogam com diversas possibilidades de se atingir o saber e a verdade por meio das coisas miúdas e corriqueiras da vida. Ela consegue capturar o que nos escapa e coloca singularidade diante dos acontecimentos. O instante, dessa forma eternizado no texto, torna-se um instante que não pode ser pensado dentro de uma perspectiva cronológica tradicional. Nenhum de seus escritos se explica, o que deixa ao leitor a responsabilidade de preencher, ou não, os vazios de seus relatos. Disso, provém a estranheza arrebatadora de suas obras. Um final que nunca se define, mas que completa o leitor, porque nele não há nenhuma afirmação acerca da realidade, ou da percepção comum.

É justamente nesta ambivalência entre incompletude e imensidão que o leitor concretiza suas obras e experimenta o silêncio, vivenciando assim o tempo do texto, um tempo diferente do tempo da realidade.

Por isso, um texto que não dialoga com o silêncio perde a potência e transmite uma previsibilidade promíscua nas palavras, rebaixado a obra a um tempo fugaz, sem sentido.

É preciso inspirar e expirar, achar o ritmo. E quando o tempo se fizer suspenso no silêncio das palavras, deixar a obra se revelar por si.

Obrigada, Yolanda, por entender que o tempo da escrita, em mim, se faz em silêncio.

” A porta salvadora”

Tropeçou com ela. Estava jogada na rua. Era a imagem da tristeza. Parecia ter desistido de si, se abandonado à crueldade do destino. Sentiu-a tão desesperadamente só, quanto ela própria o estava. Foi num amanhecer frio e cinzento do mês de fevereiro. Olharam-se, uma com receio, a outra com piedade. Não emitiram som algum, apenas caminharam juntas, lado a lado. A velha senhora abriu a porta e a convidou a entrar. A jovem imigrante, tremendo de medo, mas principalmente de fome, olhou ao redor e, com passos cambaleantes, cruzou a soleira.

Yolanda e Deborah

Yolanda e Deborah

Para conhecer mais da autora e de suas obras acesse o blog
ou acompanhe sua coluna no Hiperbreves.

Sobre o autor

Deborah Brum

Artista Plástica com pós graduação em Arte Integrativa.
Atuou na área de Arte Educação Bienal. Hoje dedica-se às suas grandes paixões: filhos e a literatura. Ministra oficinas infantis e juvenis e é mediadora do Clube do Livro da Granja Viana.

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