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O tempo esquizofrênico no conto “O corredor”

Escrito por Deborah Brum

Análise do “O corredor” – O tempo esquizofrênico
Conto do livro “O Anjo Esmeralda” de Don DeLillo

Jacques Lacan, psicanalista francês, atribuiu à linguagem uma importância quando afirmou que “não há mais estrutura que a linguagem”, uma estrutura onde o sujeito se constitui como um fato da linguagem, ou seja, um “ser de linguagem”.

Para Lacan, a linguagem possui um passado e um futuro porque, quando a frase instala-se num tempo, nos propicia a impressão de uma experiência vivida e concreta. O esquizofrênico, ao contrário, não consegue manter essa relação com a linguagem, pois vive num “presente perpétuo”.

Nesta análise do conto O corredor, de Don DeLillo, o “presente perpétuo”, aquele instante que volta à mente da senhora, já no final do conto, quase como uma neurose, caracteriza-se como um tempo esquizofrênico, alienado. Entretanto, toda a história está permeada por esta qualidade de tempo.

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Don DeLillo, escritor, dramaturgo e ensaísta norte–americano.

Don DeLillo, escritor, dramaturgo e ensaísta norte–americano, retrata neste conto uma corrida cotidiana num parque qualquer. O corredor, personagem principal, simbolicamente representa aquele que corre para um nada, cujo corpo em exercício cria uma significação somente diante dos acontecimentos vividos através de seu olhar; porém, no vazio da ausência individual, o personagem tenta estabelecer uma relação histórica e causal entre os fatos a fim de construir uma individualidade. Don DeLillo, através de uma estrutura de tempo esquizofrênico, relacionando o tempo e os personagens, cria uma base estrutural narrativa preenchida de incertezas, vazios e sem respostas.

O narrador, em terceira pessoa, conta os fatos pela perspectiva de um corredor, colocando o leitor próximo aos acontecimentos como se ele estivesse dentro dos olhos do corredor, no centro de sua retina, observando. O suor, a respiração, o esforço do corredor são revelados por uma linguagem que nos permite adentrar a essas sensações, porque os fatos são narrados por um locutor próximo do personagem. Esta visão microscópica que o autor nos propicia, quase claustrofóbica, acontece porque, no texto, além das cenas serem fragmentadas, do tempo ser esquizofrênico e do autor não individualizar os personagens, existe um deslocamento e um distanciamento do presente. Não há nomes ou especificidades que possam nos fazer individualizar qualquer um dos personagens que aparecem, tornando-os anônimos. Seria um diálogo que DeLillo estabelece com Debord, uma vez que notamos no conto a dissolução do indivíduo, uma alienação e uma sociedade do espetáculo que acha que reúne o separado quando, na verdade, reúne como separado?  O vazio, o isolamento, são marcas da incapacidade contemporânea de reunir as partes num todo, numa sociedade que a especialização é venerada e a ela atribuída um caráter positivo. Todos, sem exceção, devem ter alguma especialização!

Desde o começo do conto, existe um suspense que alerta o leitor para algo que irá acontecer. Entretanto, o acontecimento principal, o sequestro de uma criança, mais uma vez é narrado sem nenhum alarde ou emoção narrativa que nos provoque uma sensação emocional que não seja a de ausência, de sermos apenas observadores dos acontecimentos da vida. Os diálogos são enxutos, e revelam somente que a senhora já se encontrou com o corredor no elevador do edifício que moram: anônimos. Este anonimato é ainda enfatizado quando, após o corredor falar com os policiais, tenta encontrar a senhora que lhe relatou o fato por ela imaginado: o sequestro do filho diante da impossibilidade de uma guarda compartilhada. Aqui, neste instante, temos uma proximidade com a mente da senhora; talvez esse seja o único momento do texto que algo ganha uma corporeidade, um sujeito. Entretanto, diante da realidade verídica do fato, novamente o leitor é conduzido à inexistência, porque o fato narrado pela senhora, a parte que poderia levar-nos a uma existência mais específica e concreta, se desfaz na constatação de que foi um desconhecido que sequestrou a criança.

O estranhamento do conto está na inquietação provocada por tudo que nos é desconhecido, afinal, o desconhecido não é vivenciado, explicado por nossas experiências, acessado por nossas memórias e, desta forma, nos coloca diante de nossa nulidade, dentro de uma existência sem controle.

anjo2O tempo “esquizofrênico” é o presente eterno que nos sucumbe como sujeitos na corrida pela existência.

  • Este e outros contos fazem parte do livro, “O Anjo Esmeralda”, de Don DeLillo – Companhia das Letras. Maiores informações sobre suas obras, no site da Companhia das Letras.

 

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Sobre o autor

Deborah Brum

Artista Plástica com pós graduação em Arte Integrativa.
Atuou na área de Arte Educação Bienal. Hoje dedica-se às suas grandes paixões: filhos e a literatura. Ministra oficinas infantis e juvenis e é mediadora do Clube do Livro da Granja Viana.

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