Colunistas Regina Pundek

Para as Mulheres que Sabem Viver

Escrito por Regina Pundek

Me entendo como uma pessoa que busca entender e se posicionar perante as injustiças sociais. Seria redundante mencionar aqui a discriminação social e mesmo cultural ainda vivida pelas mulheres nesta aldeia global. Como mulher nascida num tempo e lugar abraçados pelo feminismo, meu olhar e interesse costumam pairar sobre as que sofrem e lutam. Porém hoje renderei minha homenagem a uma mulher que admiro por outros dotes, não por seus feitos ou lutas, mas por sua energia vital, sua força, feminilidade e carisma. De toda forma uma linda mulher!

Yvette nasceu na Bélgica, em 1926, foi filha única de uma mãe que viveu 106 Yvetteanos e de um pai que tentou o suicídio e ressuscitou. Em Bruges, segundo ela, seu pai ficou conhecido como “O outro além de Cristo”. Recém-casada com um italiano, vieram morar no Brasil. Logo ao descer do navio se encantou com a caipirinha feita de cachaça, bebida que rega seus sábados na casa de amigos. Não teve filhos. É viúva há 12 anos. Mora sozinha numa chácara.

Quando a conheci ela já tinha os cabelos brancos que a enfeitam lindamente. Minha sogra ao partir para morar na Itália deixou-a pra mim como herança. Foi bem-vinda! Tornou-se minha amiga, pseudo avó dos meus filhos, pseudo bisa do meu neto.

No início éramos companheiras de caminhadas. Andávamos a passo rápido por algumas colinas, ela seguia na frente a conversar sem perder o fôlego. Contava fatos interessantes e engraçados de sua vida. Ali comecei a nutrir minha admiração. Quando seu marido era vivo eu costumava visitá-los e juntos víamos seus álbuns de fotografias enquanto eles contavam histórias de sua juventude, com muito humor e amor. Depois, nós duas passamos anos visitando uma Casa de Repouso sextas feiras à tarde. Íamos sem grandes pretensões além de fazer rir, coisa que ela tem domínio. Eu voltava para casa plena, alimentada.

Há três anos decidiu conectar-se com os amigos de além mar. Embora não apoiada por alguns que a consideravam velha para aprender, ela saiu com a caseira, foi até o Ponto Frio e comprou um computador. Um vizinho de boa vontade instalou. Não há dia em que essa menina de idade deixe de entrar na net, ou para conversar ou para fazer pesquisas no Google.

Atualmente, se quero encontrá-la, preciso ligar com ao menos duas semanas de antecedência porque sua agenda é tomada de compromissos com os tantos amigos que ela tão magistralmente sabe cultivar. Ela tem o gene da alegria, que aproxima e encanta as pessoas.

Há cinco anos, quando diagnosticou um câncer de mama e precisou fazer uma mastectomia, eu não conseguia compreender e confesso, me indignei com o Cosmos. Essa parte de sua história me parecia completamente sem sentido, até que tomei conhecimento do que ela causa no hospital cada vez que vai tratar-se. São mulheres ao seu redor absorvendo e sugando a sua alegria vital. Lá ela é mãe daquelas mulheres que precisam de um colo naquele momento. A doença mostrou a que veio. Minha amiga é a pessoa mais de bem com a vida que eu já conheci.

Em minha visita de janeiro encontrei-a bem magrinha, sem apetite, mas lendo na sala toda arrumadinha, unhas pintadas, batom. De certa forma fiquei contente, estava preocupada em encontrá-la debilitada e abatida. Qual! Levei cinco livros para lhe emprestar, meio receosa, sem saber se ainda lia. Ela, que devora o que lhe cai nas mãos, olhou um por um e disse:

Que bom. O único que já li é O Carteiro e o Poeta, do Neruda. Mas vou reler porque é muito bonito.

Conversamos agradavelmente por duas horas. Ela me mostrou a pele coberta de bolinhas … Metástase. Mostrou sem autopiedade como quem mostra qualquer novidade. Embora já com o fôlego falhando, rimos de velhas piadas. Ela também me contou que decidiu que não vai mais fazer o tratamento de quimioterapia, porque judia demais. E, muito consciente afirmou:

Daqui pra frente o que vier é Lucro.

Tomamos um cafezinho e comemos chocolate belga. Delícia! Na hora em que eu me levantei pra vir embora, ela me abraçou como quem se despede para sempre. Não chorou, mas estava cheia de emoção. Olhinhos brilhando.

Então elogiou minha bolsa. Tirei tudo de dentro e dei pra ela. Ela lindamente aceitou e disse sorrindo :

Vou aproveitar muito! Vou para o céu de bolsa nova! Mas antes, vamos ao cinema?

Então combinamos para o sábado seguinte. Ela queria assistir: E Se Vivêssemos Todos Juntos ou Amor. Dois filmes bonitos, que retratam os anos derradeiros de nossas vidas.
No sábado marcado, às 14hs, estávamos na fila do cinema. Mas, novamente por alguma armação do Cosmos, embora tivéssemos conferido na internet, os filmes que ela queria não estavam em cartaz. De muito bom grado ela aceitou mudar e, ironicamente, assistimos O Lado Bom da Vida.

Ofereço a vocês leitores um pouquinho dessa mulher forte, inteira e alegre no intuito de que consigamos olhar nossas vidas e usufruir o que é simples e bom.

Informações posteriores:

Era noite quando a Yvette partiu, me contaram que minutos antes ela dizia:

 Sai da frente, sai da frente que a festa é minha!

Ela morreu dia 7 de abril de 2013

Estive no hospital visitando-a. Ela estava tão fraquinha, mas bem humorada. Me contou que tinha ali um enfermeiro negro “muito boniton!!”

Sentia dores abdominais – eu colocava minhas mãos sobre sua barriga para aquecer e rezava, ela fechava os olhos. Num momento ela abriu e me perguntou:

e o Pedro?
Minha filha estava grávida do Pedro, que nasceu dia 16, nove dias depois que ela foi pro céu. Não duvido nada deles terem se encontrado lá em cima

Sobre o autor

Regina Pundek

Escritora, Professora da Educação Infantil, Diretora Pedagógica,Psicopedagoga, Engenheira Civil, Educadora apaixonada pelo respeito ao Ser Humano.

Esposa, mãe, avó. Nascida em Santa Catarina e moradora da Granja Viana há 15 anos.

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