Mundo Regina Machado

Páscoa e ressurreição, política e religião, Madalena e o feminismo. Páscoa é passagem

Escrito por Regina Machado

Passagem da escravidão para a libertação, como a dos judeus fugindo do Egito rumo à Terra Prometida. Jesus era judeu, morreu judeu. Foi numa festa de celebração da Páscoa que Jesus é condenado e morto depois de ameaçar destruir o Templo de Jerusalém, lugar sagrado para os judeus.

Jesus se revolta com o uso que estavam fazendo do templo, lugar religioso e místico que tinha se tornado espaço para exploração dos pobres com um comércio imoral que se aproveitava da fé e da fragilidade dos fiéis.

Tudo se mistura nessa história de mais de dois mil anos, religião, fé, negócios ilícitos, exploração dos pobres. Alguma semelhança com os dias atuais é apenas ilusão. Tal equação se potencializou planetariamente. Não só templos têm servido de lugar de exploração, como outros lugares, ditos profanos, se sacralizaram com gente que se julga deus. Vide casas legislativas e judiciárias.

Mas Jesus promete destruir aquele templo e reconstruí-lo em três dias sob outra ordem, a ordem do amor e da paz, que é fruto da justiça. Com sua passagem da morte à vida pela ressurreição, os seguidores de Jesus, segundo o filme Maria Madalena do jovem diretor australiano Garth Davis, não teriam entendido muito bem a mensagem. Jesus usava de parábolas para tentar contar o que vislumbrava como um futuro possível para a humanidade.

Mesmo hoje, nessa passagem de mudança de era em que vivemos, alguns de nós já enxergam a potencialidade do mundo novo e da mulher e homem novos, e não encontram palavras para contar o que veem. São consideradas loucas e loucos.

Na época de Jesus eram considerados possuídos pelo demônio quem ousasse sair da caixa. Maria Madalena sai da caixa e eu não vou dar spoiler, ser estraga prazeres. Assim como meninas que não querem usar soutien são hoje loucamente perseguidas por diretoras em escolas. Maria Madalena hoje seria chamada de feminista, naquela época ela queria ser livre e seguir sua intuição. Não é isso que as meninas de hoje querem? Querem liberdade de não prender seus peitos com ferros que os apertam, não querem entrar na faca para aumentar bundas e puxar caras, não querem ser magérrimas para agradar sabe-se lá quem ou o quê.

Louca e diabólica é essa sociedade onde os mesmos que criticam a burca incentivam o preenchimento do corpo com plástico para fazê-lo de acordo com os desejos de um mundo machista e autoritário. E as corajosas meninas madalenas estão novamente fazendo a passagem da escravidão para a liberdade.

Que seja também santa essa passagem contemporânea. Feliz Páscoa!

Sobre o autor

Regina Machado

Mineira de Juiz de Fora. Mãe de dois adolescentes. Arquiteta e Urbanista. Trabalhou com movimentos sociais de urbanização de favelas no Rio e em São Paulo. Trabalha com comunidades na organização de seus espaços físicos, sociais e políticos.
Fundadora do Projeto Âncora junto com Walter Steurer.

Projeto Âncora: http://projetoancora.org.br

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