Colunistas Crônica Jany Vargas

Pokémon na cozinha!

Escrito por Jany Vargas

Toda vez que chego na pia penso mal dos meus companheiros de morada. Basta abrir a torneira para encarar a louça e começam os pensamentos. Penso mal da performance deles na cozinha.

Quando saio da pia serelepe em direção às minhas outras vidas, esses pensamentos ficam no escorredor, esperando que eu volte.

Aí que estou influenciada por uma inglesa incrível: Tenzin Palmo. E ela, assim como o budismo tibetano que ela segue, trazem muita lucidez e consciência para a minha vida. Por isso, outro dia, percebi que estava pensando os tais pensamentos ali com a bucha numa mão e o prato na outra.

Ao ter consciência do que estava acontecendo, tive escolha e decidi pegar o pensamento que estava pairando a 10 cm acima da minha cabeça e disse: “vem!”. Enfiei na cachola de novo. E apareceu outro, catei, apareceu mais um, catei, infinitas vezes.

Estava uma delícia aquele joguinho de catar pensamento repetitivo quando tive um pensamento diferente: “Tomara que meus companheiros de jornada que usam essa pia continuem sendo o que são porque terei milhões de oportunidades de caçar Pokémon pensamento, de praticar controle sobre minha mente!”

Nesse momento tive uma sensação: já imaginou essa aceitação total do jeito do outro? Senti o alcance de uma aceitação nesse nível. Da carga de expectativa e energia que é retirada do outro.

Enfim… quando penso em controlar a mente sinto uma rebelião. Não gosto da palavra controle. Parece que ela anda de mãos dadas com a repressão. Ora direis que a repressão é necessária! Que um pai precisa se reprimir se sente atração pela sua filha. Prefiro a palavra cuidado, de cuidar… não de temer.

Que o pai tenha cuidado e não controle sobre si. Que ele cuide da sua filha guardando seu desejo onde ele não possa ferir sua filha, nem que seja minimamente.

Melhor do que controlar meus pensamentos que eu conheça minha mente e saiba o que fazer com meus pensamentos. Tanto eu, como todos os pais, todas as pessoas…

Caçá-los então também não seria uma boa palavra. Afinal, como li num livro budista: “os pensamentos são como crianças brincando na mente”. Não vou caçar criancinhas! Vou cuidar das criancinhas pensamentos. Colocá-las para dormir, se estão muito cansadas de brincar na minha pia.

São apenas palavras, mas sinto a força delas. “Controle” me sugere que vou por as criancinhas em fila sob minha vontade. “Cuidado” me parece que vou olhar para as criancinhas e perceber o que elas precisam… O foco está nelas e não em mim. Prefiro!

Bom, é isso, mas antes que eu me vá conto sobre Tenzin Palmo. Ela aos vinte e poucos anos se descobriu budista em Londres, onde nasceu. Foi para a Índia, reencontrou seu mestre e se tornou monja. Subiu as montanhas e passou doze anos numa caverna trabalhando a si própria, meditando, praticando. Ao voltar para a civilização resolveu fazer um Monastério que oferecesse para as monjas as mesmas oportunidades de estudo que os monges sempre tiveram. Para arrecadar o dinheiro necessário saiu pelo mundo ensinando. Tem vários vídeos dela no Youtube. Vale a pena ouvi-la. Eu a sinto como um rio cristalino de consciência. Um rio que tem passeado pela minha mente diária, prosaica, corriqueira tornando minha vida bem menos inconsciente e assim com muito mais possibilidade de escolha. Saravá!

Na foto: Tenzin Palmo  

Sobre o autor

Jany Vargas

Transita no universo das Danças Circulares e é escritora. Escreve para levar ideias daqui para ali. Para contar histórias, falar do seu tempo, participar do diálogo, contribuir.

Deixe um comentário