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Por uma maternidade para o mundo

Escrito por Redação

Perfumes, flores, raios de sol que iluminam a amamentação, bebês lindos e sorridentes. Essas são as imagens bombardeadas sobre a maternidade nesta semana do dia das mães. É preciso presentear aquela “rainha do lar”, aquela que “padece no paraíso” ou vive “feliz no inferno” como brinca uma amiga minha. Pouco se fala sobre a dificuldade de ser mãe. Mãe, mulher, profissional, tudo ao mesmo tempo, agora.

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A publicidade e a maioria dos meios de comunicação criam uma imagem idealizada sobre a maternidade. Nesse embalo, muitas mulheres compram o “produto mãe de revista”, acreditam que os filhos devem ser sua prioridade máxima, agradá-los incondicionalmente para ser uma boa mãe. Por incrível que pareça, ainda hoje, há quem engravide para segurar uma relação afetiva. As novelas dão o exemplo.

publicidade dia das mães3Ser mãe, desde seu nascimento, e do bebê, é uma ebulição emocional infinita, que não acaba, apenas se acomoda. Muito se fala do amor entre mães e filhos, e sim, é uma experiência maravilhosa. Pouco se fala de tudo o que envolve a maternidade na vida de uma mulher. Um mercado de trabalho nada amistoso, que vê com desconfiança aquela que inevitavelmente faltará por conta de uma virose, sairá correndo no horário porque tem que pegar os filhos na escola, pouca flexibilidade para viagens.

As empresas olham com desconfiança para as profissionais mães. Essas, por sua vez, trabalham o triplo para mostrar serviço e provar que estão em condições de igualdade com jovens ainda sem família. Há que se pagar babá ou empregada, creches caríssimas, porque públicas, não há. Ou pedir ajuda à avó para que a carreira se mantenha em pé.

Mãe e filha da tribo Guarani- Kaiowá

Mãe e filha da tribo Guarani- Kaiowá

Pouco se fala que além dos beijos, abraços, risadas, educar será uma tarefa incansável, de dizer “não” milhares de vezes, à exaustão. Para o biscoito açucarado, o brinquedo desnecessário, para a hora de dormir. Frustrar, aguentar o choro desmesurado e manipulador de uma criança, manter com firmeza uma decisão que será melhor para o rebento, é, acredito, o maior desafio da maternidade (da paternidade também), mas quase nada se fala sobre isso.

Para dirigir um carro, é preciso carteira de habilitação. Para ter um filho, nada. Tirando cursos preparatórios para grávidas, de um final de semana, para dar banho, trocar fraldas e amamentar, não há nenhuma formação sobre o que significa educar um filho, que estrutura emocional será enfrentada, como criar futuros adultos equilibrados e maduros.

Entre mães das duas últimas décadas, é comum ouvir relatos de depressão pós-parto (outro tabu), mulheres que até então nunca tinham segurado um recém-nascido nos braços. Que não sabiam que ficariam sem dormir meses adentro, que existe uma coisa misteriosa chamada “virose” e que a fatura do cartão dali em diante teria um item permanente: farmácia. Escolher escola, levar para escola, acompanhar a lição, proporcionar passeios ao ar livre, ao teatro, livros e a lista de tarefas não termina.

A nutricionista Gabriela Kapim, do programa "Meu filho come mal (GNT)

A nutricionista Gabriela Kapim, do programa “Meu filho come mal (GNT)

Só muito recentemente, reconheçamos, programas de TV e blogs começam a dar a real da responsabilidade de se cuidar de um filho e suas consequências. Tem que saber colocar para dormir, alimentar corretamente, dar atenção, brincar e muito especialmente, ter um momento para si. Justiça seja feita, muitos pais têm compartilhado de forma mais justa todas essas responsabilidades. Mas são poucos.

Segundo dados do IPEA, atualmente existem 28 milhões de mulheres chefes de família. A cada hora, uma adolescente engravida no Piauí, é o que mostra o relatório da Pesquisa Saúde Brasil, divulgado pelo Ministério da Saúde. No geral, houve uma redução de 17% de adolescentes grávidas no país. Que boa notícia. Uma escola pública no RJ fez um trabalho junto aos estudantes por conta do alto número de adolescentes grávidas. No primeiro ano, haviam 37, no seguinte, sete e a expectativa para 2018 é zero. Isso tudo só com informação.

filme comeco da vida

Cenas do filme “O começo da vida”, de Estela Renner

A maternidade é uma experiência maravilhosa, intensa, exige uma dedicação que nos desafia diariamente. Quando nos tornamos mães, nunca mais olhamos para outras crianças da mesma forma. Nos tornamos um pouco mães do mundo. E isso é lindo. Então ainda temos muito o que caminhar para exercer a maternidade em sua plenitude, em todas as classes sociais, para que formemos novos adultos, mais amados, mais seguros, mais solidários.

Precisamos de amor, um amor que se traduza em mais creches, escolas adequadas, espaços para brincar e proporcionar uma convivência familiar harmônica. Em todos os lugares. Menores jornadas de trabalho (para mães e pais) e um olhar fora do umbigo.

Precisamos de uma maternidade para o mundo.

Por Fabíola Lago, Jornalista, colaboradora do Jornal d’aqui.

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