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Precisamos falar sobre o surfe brasileiro

Escrito por Gabriel Medeiros

A etapa de Jeffreys Bay na África do Sul acabou na madrugada do dia 20 e, sem dúvidas, entrou para a história do Circuito Mundial, além de provar mais uma vez que os nossos surfistas cada vez mais estão conquistando seu espaço no cenário mundial.

A final inédita entre Brasil e Portugal trouxe um panorama jamais visto na etapa onde os tubarões chamam tanta atenção. Foi a primeira vez que este confronto foi editado e dominado pelos atletas de língua portuguesa. Eles estavam “on fire” e chegaram em peso nas semifinais da etapa, com Filipe Toledo, Gabriel Medina e Frederico Moraes, deixando o aussie Julian Wilson como um mero figurante das baterias finais.

Desde o início do Circuito Mundial, a etapa de J-Bay sempre foi dominada por Mick Fanning, Kelly Slater e Jordy Smith, que conquistaram juntos 10 títulos, na praia que é considerada uma das melhores direitas do mundo, senão a melhor.20170720124536747308i_310x200

Mas a final inédita não foi a única que elevou o patamar dessa semana fora do comum nas águas africanas: destaque para o mar, que esteve entre 8 e 12 pés, colaborando e muito para o altíssimo nível de surfe apresentado pelos atletas da elite, que coroaram uma semana ilustre com presença de notas muito altas, sendo 6 notas 10 ao longo das baterias, algo fora do normal.

Os tubarões também marcaram presença na água, aparecendo justamente em uma bateria de Mick Fanning, atleta que foi surpreendido com um ataque de tubarão em 2015. Outro tubarão saltou feito um golfinho na bateria de Filipe Toledo. Em ambos os casos, o monitoramento realizado pelos jet skis da organização do evento evitou que algo de ruim acontecesse e os atletas voltaram para a água tranquilamente.

Mas o mais especial para os brasileiros, sem dúvida, foi a incrível e merecida vitória do brasileiro de 22 anos, Filipe Toledo. Pensa em um cara com sede de vitória. Este era Filipinho.

O atleta ficou fora do round nas Ilhas Fiji por questionar uma nota dos juízes na 4ª etapa, em pleno Rio de Janeiro, que lhe custou a eliminação.

Para se reabilitar no ranking geral, Filipinho estava “on fire” e detonou as ondas, contando com notas acima de 9 em todas as suas baterias. Ele abusou de suas manobras aéreas, com um surfe muito progressivo e veloz, realizando floaters e rasgadas muito agressivas. Isso lhe rendeu a vitória para cima do nativo Jordy Smith, um dos maiores surfistas de J-Bay, que inclusive conseguiu realizar a bateria perfeita ao tirar duas notas 10 no round 3 da etapa. Ele também passou por Kelly Slater, que se lesionou em uma session de treinamento antes da bateria. Sorte a de Kelly!

Filipinho também conseguiu surfar a onda dos sonhos ao realizar dois áreos na mesma onda, voando muito alto e ainda encaixando um floater após um dos aéreos. Um dos comentaristas do WCT considerou essa uma das maiores ondas já surfadas na história do Circuito. A WSL divulgou o vídeo da onda em suas redes sociais com a legenda “a escala vai para 11?”. O atleta ficou muito contente com o resultado e recebeu muitos abraços dos próprios atletas que estavam disputando com ele.

Com esta vitória, o brasileiro subiu para o oitavo lugar no ranking geral e se colocou de volta na briga pelo título mundial. Gabriel Medina acabou eliminado na semifinal por Fred Moraes, que surfou absurdos, mas o resultados é animador visto que a etapa de J-Bay não favorece os atletas Goofy’s (aqueles que pisam com o pé esquerdo atrás da prancha), pois eles surfariam de costas para a parede da onda. Medina assegurou a nona colocação e também segue na disputa pelo título.

Mas o que é importantíssimo de se apontar é que no atual cenário esportivo brasileiro, os atletas brasileiros vêm fazendo jus ao nome de brazilian storm, a tempestade de surfistas excelentes, não somente na elite, mas também no WQS.

Analisando friamente as modalidades esportivas em âmbito mundial, vejo o surfe como uma das maiores potências esportivas do país. Nos últimos anos, os resultados apresentados em olimpíadas e competições internacionais mostram que o surfe superou o futebol masculino e feminino, vôlei, natação e modalidades de atletismo, que sempre foram as principais forças brasileiras no cenário mundial.
Os títulos recentes de Gabriel Medina, Adriano de Souza e Lucas Silveira (pelo WJS) junto ao excelente desempenho de outros surfistas colocam, em termos de títulos e resultados efetivos, o surfe como um esporte com potencial para representar nosso país muito bem em futuros campeonatos.

É algo que deve ser olhado com cuidado, afinal em 2020 o surfe entra como modalidade nas Olimpíadas de Tokyo. Devemos analisar o quanto estamos dando de suporte para que esses atletas conquistem cada vez mais o que estão provando saber fazer com excelência.

Sobre o autor

Gabriel Medeiros

Granjeiro,18 anos, cheio de sonhos e planos para a Granja Viana. Sempre estudou em escolas da região e este ano presta vestibular para Educação Física. Foi voluntário na área de esportes do Projeto Âncora. Criador e é administrador e autor do blog “Tá Por Dentro?”

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