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Qual é a Granja que queremos?

Escrito por Redação

Feche os olhos. Você está caminhando por largas e bonitas calçadas. Com acessibilidade para cegos e cadeirantes. Há imensos vasos nas esquinas com plantas nativas da região. Bancos para sentar. Os carrinhos de bebê não trepidam e os filhos menores podem andar com segurança. Sem estresse de trânsito. No final da tarde, a comunidade se reúne no parquinho público.

Mais adiante, uma exposição a céu aberto de um fotógrafo local, fala do bairro com fotos antigas, seu histórico, depoimentos de moradores mais antigos e seu desenvolvimento. Pequenos e charmosos comércios atraem pessoas de fora.

Um cenário digno de Palos Verdes, LA, bairro jardim que planejou seu crescimento. Ou Stratford, ex-bairro industrial decadente que foi revitalizado para as Olimpíadas de Londres. Dumbo, no Brooklyn, com seus grafites imensos, muitos ciclistas e cafés. Puerto Madero, em Buenos Aires, suas lindas calçadas e restaurantes estrelados.

Abra os olhos: a Granja poderá ser assim: revitalizada. Já foi um bairro glorioso nos anos 70/80, bucólico, com moradores com uma pegada comunitária e preocupação com meio ambiente. Mas tem mudado.

Há 20 anos, vacas e veículos dividiam o espaço na Avenida São Camilo (foto arquivo JDA)

Para o arquiteto Roberto Somlo, que chegou no bairro aos oito anos de idade e andou com vacas pelas ruas, “infelizmente a região cresceu de forma descontrolada e sem planejamento e hoje vivemos as consequências. Todos os problemas são tratados com soluções a curto prazo, na maioria das vezes sem qualquer eficácia”.

Morador da Granja há 21 anos, o secretário de Desenvolvimento Urbano de Cotia, José Roberto Baraúna Filho, lembra que nos anos 70, eram os gringos executivos que vinham para a granja atrás de qualidade de vida. “Esse público envelheceu, se aposentou e começou um processo de loteamento de seus terrenos e começaram os bolsões de condomínios”.

O secretário de Desenvolvimento Urbanos de Cotia, José Roberto Baraúna, morador da Granja há 21 anos (foto arquivo pessoal)

Com o crescimento desordenado, sem infraestrutura adequada, a Granja é hoje um bairro de avenidas estreitas, trânsito crônico nos horários de rush, sem espaço para pedestres. Com a crise dos últimos quatro anos, está com dezenas de imóveis comerciais desocupados. Ainda assim, muitos empresários da região resistem, com novos empreendimentos, centros comerciais, restaurantes, torcendo pela volta por cima da região.

Com o anúncio do Secretário de Desenvolvimento Urbano em setembro de 2017 sobre a necessidade de um novo acesso no KM 23, para a Padaria Dona Deôla, e transformar a suas avenidas principais, José Felix e São Camilo em mão única, o futuro da Granja está em pauta. Mas que Granja querem seus moradores? Qual sua vocação?

Mais do que um acesso, a obra, em negociação com o DER faz parte de um projeto maior, o Revitaliza Cotia, que tem três localidades como prioridade: o centro do município, Caucaia do Alto e a Granja. Para esta última, além do viaduto, em negociação com o DER, também estão previstos calçadões ecológicos entre outras propostas de modificações. Mas segundo Baraúna, a parceria entre comunidade, empresários locais e poder público será imprescindível para o sucesso das ações.

VERTICALIZAR?  “A verticalização é outra questão que deve ser debatida. Atualmente, o plano de uso e ocupação do solo prevê prédios com no máximo 16 metros de altura. Se a preservação do meio ambiente é a questão, você terá muito mais área verde com um prédio e 44 apartamentos do que 44 casas térreas em um condomínio. É preciso estudar contrapartidas para esses empreendimentos”, analisa o secretário.

Alguns empresários da área de construção civil também acham que a verticalização trará ouros benefícios, tais como a geração de mais moradores e consequentemente, mais consumo para o comércio local. Mas o secretário destaca a importância de se ter a infraestrutura necessária antes dos empreendimentos serem realizados. “Essa é uma discussão que passa pela revisão do Plano Diretor, dos gabaritos, sem mexer com o zoneamento”.

Angela Serrano nasceu na Granja, é advogada e empreende na região. (foto arquivo JDA)

Para Ângela Serrano, advogada e empresária, nascida na Granja, o progresso será inevitável. E com ele, a verticalização. Vê com bons olhos calçadas largas que estimulem o passeio pelas lojas e restaurantes da região. “Mas é preciso infraestrutura. Queremos o espírito da granja de antigamente, mais florida, bonita, com as ‘mordomias’ de hoje”, pontua.

Com relação às mãos únicas das duas grandes avenidas, Ângela acha que é uma questão de tempo para os moradores se acostumarem. “Mas acho que o viaduto deveria ser por baixo e interligando ao comércio da granja, o shopping não atrapalha o trânsito e na região da Dona Deôla já é de difícil acesso”, opina a empresária.

Arquiteto e urbanista, Roberto Somlo cresceu na Granja e acredita somente em crescimento planejado  (foto: Luiz Carlos Vago)

Mas Somlo alerta para uma questão imprescindível antes de se pensar em novos bolsões de habitação: saneamento básico. “Devemos repetir mil vezes: não pode jogar esgoto na natureza. É algo muito simples, mas que não está ainda compreendido pela nossa sociedade. Em segundo: priorizar transporte público de qualidade e grande capacidade, tais como metrô de superfície, monotrilho, etc.”

Segundo o secretário Baraúna, no final de fevereiro começam as reuniões com os donos de imóveis das Avenida José Felix e São Camilo. A ideia é criar um espaço de comunicação com os empreendedores locais para ouvi-los para buscar soluções conjuntas. O secretário levante, inclusive, a possibilidade de fiação subterrânea e ciclovias.

É consenso entre os entrevistados que o perfil do “granjeiro” mudou, principalmente com o adensamento das duas últimas décadas com condomínio de casas menores. Também é consenso que não houve planejamento urbano proporcional para atender essa nova população da granja, a exemplo do saneamento, como fez questão de enfatizar o urbanista Roberto Somlo.

REVITALIZAR É POSSÍVEL – “As qualidades da Granja eram o fato de ser um local bucólico, com vida em comunidade, onde as pessoas se conheciam, viviam em chácaras com muito verde e ar puro, e ainda assim estavam a uma curta distância de são Paulo. Eram famílias alternativas que valorizavam sobretudo a qualidade de vida. Essas qualidades eu creio que ainda persistem no imaginário coletivo”, avalia o urbanista.

Para o sucesso de uma revitalização no bairro é imprescindível que não só empresários e poder público se envolvam nas futuras obras da Granja, mas também moradores, entidades civis diversas para encontrar as melhores soluções, respeitando a diversidade, o desenvolvimento econômico e a qualidade de vida para todos.

 

Em tempoO Secretário de Desenvolvimento Urbano atualizou que dois projetos de melhoria para a rodovia Raposo Tavares passaram pela análise técnica do DER e já estão inclusos no orçamento do estado para 2018, com uma verba prevista de R$ 30 milhões.

Por Fabíola Lago para Jornal d’aqui

Foto em destaque: Renato Paes

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O Jornal d'aqui digital é uma prestadora de serviços que atua com comunicação na região da Granja Viana, Cotia (SP). Nasceu originalmente em 1979 como mídia impressa e assim atuou durante 35 anos. O formato atual surgiu a partir de um movimento de amigos/leitores inconformados com o encerramento de suas publicações.

2 Comentários

  • Foi com muita surpresa que a equipe do Jornal d’aqui recebeu a notícia no Jornal Granja News que o Secretário de Desenvolvimento Urbano, José Carlos Baraúna, realizou uma reunião para apresentar as propostas para a Granja, no último dia 22 de fevereiro, com cerca de 30 pessoas da região. O jornal diz ainda que cobriu “com exclusividade”.

    O Jornal d’aqui solicitou no momento da entrevista e depois por whatsapp, a data da reunião, dada sua importância e o forte engajamento da comunidade com a nossa reportagem. Não fomos avisados e acreditamos que tal pauta não deve ser exclusividade desse ou daquela veículo, mas uma obrigação dos órgãos públicos de divulgar para todos os meios de comunicação da cidade, sem privilegiar nenhum segmento.

    Acreditamos que a transparência das ações públicas, assim como a máxima participação de moradores, empresários e entidades diversas da Granja, e de todo o município, é o único caminho para o desenvolvimento da região. Os meios de comunicação tem um papel imprescindível como ferramenta de divulgação e fomento do debate sobre alterações urbanas que afetam diretamente a vida de todos na região da Granja.

    Esperamos que as próximas reuniões sejam amplamente divulgadas e tenham uma participação de fato maciça e representativa de toda a comunidade granjeira.

  • Queremos manter o verde e os animais aqui na Granja, um cenário de paz e tranquilidade!
    Não queremos prédios por aqui! Não queremos janelas e paredões em nosso quintal, já bastam os existentes que estão praticamente vazios e enfeiam a paisagem. O trânsito já é caótico! Agora, invasão de ônibus, caminhões nas ruas estritamente residenciais no centrinho da Granja, pra que trazerem mais e mais empreendimentos pra cá? Não temos infraestrutura pra isso!
    Precisamos SIM é de SEGURANÇA, monitoramento das ruas, mais praças, mais parques, mais áreas de lazer ao ar livre, calçadas mais largas, menos barulho, menos trânsito, mais respeito com os moradores daqui!
    Att.
    Rosane

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