Crônica Jany Vargas

Tá doendo?

Escrito por Jany Vargas

Ela estava chorando. A sua paquera tinha acabado de lhe dizer, ali no whatsapp, que não quer ser o companheiro que ela necessita. Ela soluçava pensando no que tinha feito de errado, em como estraga tudo com suas cobranças… Coloquei aquela moçona no colo e disse: “Ralou o joelho, né? Está doendo… o amigo não quer brincar de casinha com você? Puxa, como isto é chato!” E é! Bem chato!

Minha amiga tinha ido para a praia e lá teve o romance mais lindo da face da Terra. Voltaram e ele não responde às chamadas dela. Vácuo. Ela também chora e pensa e pensa tentando entender.

Marido e mulher estavam zangados um com o outro e aconteceu o acidente. Ele morreu. Seu coração foi bater no peito de um jovem. Ela pediu para ver o rapaz que fez o transplante, e pediu para tocar o coração que tinha sido do seu marido. O jovem abriu a camisa e ela colocou a mão sobre o coração e disse: “Está tudo supimpa!”. A mãe do rapaz que estava junto comentou: “Depois que ele voltou da cirurgia ele usa sempre essa palavra incomum”. Supimpa era o código que o casal tinha para dizer que já estava tudo bem depois de uma briga.

Li esse relato no livro Memórias das Células (Paul Pearsall). Ali fala que o coração guarda a informação de quem somos. Não só o coração, mas principalmente ele. Li também que a hipnose engana a mente e faz com que uma pessoa coloque o braço dentro de uma bacia com muito gelo. Se em seguida alguém perguntar como foi a experiência, a pessoa dirá que o corpo se ressentiu do contato com a água gelada. O coração sabia que não era certo fazer aquilo. O coração não se deixa enganar.

Quando uma pessoa ama outra ela quer juntar coração com coração. E às vezes o escolhido não está trazendo o coração para bater pertinho, e “não adianta vir com guaraná, eu só quero chocolate!”. Tem que ser aquela específica pessoa e nenhuma outra. E aí dói!

Por isso aqui vai a receita do bolo! Anota aí: quando algo doer, pode reparar: os pensamentos vão querer dar conta. Vão te pegar pela mão e vão te sequestrar. Vão te por numa sala embaixo de uma luz e te interrogar e acusar: “O que você fez de errado? Por que você aceita migalhas? Você está gorda! Você está magra!”

Os pensamentos vão por o dito cujo na sala ao lado e fazer a mesma coisa: perguntar, acusar, criar hipóteses.

Sugestão: não dê banana aos macacos. Apenas coloque a mão no coração e ouça o silêncio que mora ali. Sua mão quente no peito, bem encima dele, vai cuidar da ferida que acabou de acontecer, do ralado no joelho. Não tente entender, não há lógica, há seres humanos confusos, com cotovelos que não tem como não cutucar o outro, ao se moverem. Ninguém vai te salvar da solidão, da falta de um companheiro/a, para sempre.

Só seu coração pode te receber incondicionalmente. Ali tem um sofá maravilhoso pra você deitar. Uma maca, com – quem sabe? – seres de luz em volta de você cuidando desse teu corpo tão precioso que executa tarefas complexas, enquanto você chora porque a ralada doeu muito. Sim! Inegável! Dói também porque está amarrada em questões primitivas tipo: “Se não sou importante para alguém estou em perigo…” Coisas assim, muito reais internamente.

O joelho ralou porque você estava brincando com amiguinhos no jardim de Deus, no Planeta em que você vive, na Terra. Nesse lugar de permanente interação. Onde é muito difícil sentir o que o outro sente. Dar o remédio que o outro precisa. Terra de desencontro de mentes e encontro de corações. As mentes são complexas, nascem das interações com outras mentes. O coração bate, bate, bate… confia nele, cuida dele, ele te cuida, ele bate por você, ele é você, ele é a vida!

Foto: Ligia Vargas

Sobre o autor

Jany Vargas

Transita no universo das Danças Circulares e é escritora. Escreve para levar ideias daqui para ali. Para contar histórias, falar do seu tempo, participar do diálogo, contribuir.

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