Angela Miranda Colunistas Crônica

Tamborim

Escrito por Angela Miranda

Naquele dia, levantei cedo e, como de costume, preparei os pratos de rações dos meus 24 gatos. Era um trabalho cuidadoso. Para cada um, nem mais, nem menos. Não queria fazer diferença, mesmo que um fosse mais guloso que o outro. Sentados ao meu lado e atentos, eles esperavam ansiosos pela refeição. Foi quando notei que faltava um, Jean Pierre Currinhaux Júnior, um gatão preto, descendente de uma fina linhagem persa.

Por ter sido um dos primeiros, era também o meu xodó. Eu que era mais chegada em cães do que em gatos, me apaixonei por felinos depois de ter criado Júnior, como o chamávamos. Belo, com enormes olhos verdes, carinhoso e ao mesmo tempo altivo, meus filhos e eu brincávamos que ele era o “Rei dos Gatos”. Criado dentro de casa, Júnior era um aristocrata. Curtia as almofadas da sala, uma cama macia, som ambiente, desde que fossem músicas clássicas. Vagabundear pelas ruas, nem pensar.

Estranhei o fato de não estar ali a postos para a sua primeira refeição do dia. Após procurá-lo pela casa toda, dentro dos armários e pelo jardim, nada. A essas alturas do campeonato, a família já estava mobilizada. Primeira coisa que pensamos foi em sequestro. Afinal, ele também era um artista. Já havia participado de filmes comerciais, levado por Gilberto Miranda, conhecido treinador de animais. Graças à sua fama, esteve nos programas do Gugu Liberato e do Serginho Groisman e ainda foi matéria do Estadão. Todos que frequentavam minha casa faziam questão de conhecê-lo, afagá-lo.

Saímos à rua a procura do felino. Pergunta daqui, pergunta dali, nenhuma pista.

gato4Até que um pedreiro de uma obra garantiu ter visto um rapaz passar pela rua com um saco que, estranhamente, se mexia. Entramos em pânico, quando o rapaz lembrou que algumas pessoas têm por hábito caçar gatos ou para fazer aqueles conhecidos churrasquinhos de porta de estádio ou até mesmo para comer. Enquanto ele discorria as semelhanças da carne com a de um coelho, fiquei imaginando meu fofo e querido filho de quatro patas numa panela.

Começamos a chorar. Um outro senhor que passava, parou para ver o que estava acontecendo. Após ouvir o relato do ocorrido acrescentou: “A senhora me desculpe a franqueza, mas devemos pensar em todas as possibilidades. Seu gato era grande e gordo?”, “Era”, respondi. “Tinha o pelo macio?”, “Tinha”. “Faltam 40 dias para o carnaval”. “E daí?”, “A senhora não sabe que o couro de gato é ótimo para fazer tamborim?”.

Apresentação1Entrei em pânico. Mais degradante que a panela, seria meu Júnior servindo de samba enredo de escola de samba! Logo ele que curtia Chopin, Mozart e a rádio Scala.

Corremos para a delegacia do bairro. Após ouvir nosso relato, o delegado disse: “Sinto muito, minha senhora, lamento pelo destino de seu gato, mas só podemos registrar um boletim de ocorrência depois de 48 horas do desaparecimento. Seu gato deve estar dando umas bandas por ai”. Ficamos furiosos. Como depois de 48 horas? Até lá, meu Júnior já estaria curtindo ao sol.

Resolvemos que faríamos as coisas do nosso jeito. Sob olhares desconfiados subimos o morro em busca de pistas. Com a desculpa que queríamos desfilar no carnaval, nos inscrevemos, compramos fantasias e pedimos para participar dos ensaios. Enquanto nos levaram para a quadra de ensaios, procurávamos alguma pista.

De repente, uma surpresa! No alto de um carro alegórico, uma passista vestida de mulher-gato sambava. Ao seu lado, deitado em uma almofada dourada e cheia de paetês, estava Jean Pierre Currinhaux. Não acreditamos no que víamos. Ao nosso lado, o mestre-sala da escola explicou: “Esse ano, nossa escola está prestando uma homenagem aos gatos. É uma forma de agradecimento porque, durante anos, eles, de certa forma, contribuíram para o sucesso de nossa bateria”.

Desmaiei ali mesmo.

Sobre o autor

Angela Miranda

Amante dos animais, jornalista e geógrafa com especialização em Perícia Ambiental. É diretora de Comunicação da ACM Editora. Mora há 31 anos na Granja Viana.

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