Coletivo Colunistas Regina Machado

Tempos estranhos…

Escrito por Regina Machado

O que deu em nós que demos de achar que podemos emitir opinião sobre tudo?

Qualquer coisa que lemos, mesmo que seja só um parágrafo escrito por um desconhecido, já nos dá o direito de sair dando opinião. Pior que isso! Expressamos nossa opinião na base do a favor ou contra. A favor ou contra algo que não sabemos, não dominamos, não refletimos, algo que desconhecemos, algo que não experimentamos.

Fui buscar algum entendimento em Jorge Larrosa, espanhol, doutor em filosofia da educação, no seu ensaio “Notas sobre a experiência e o saber da experiência”.

Ele fala da avalanche de informação, distingue informação de experiência e diz que a informação não deixa lugar para a experiência, sendo quase o contrário da experiência, quase uma anti-experiência. Somos uma humanidade obcecada pela informação, sabemos muitas coisas, mas um saber no sentido de estar informado e não no sentido de sabedoria.

E no rastro do excesso de informação, o sujeito tem sempre uma opinião supostamente pessoal e supostamente própria e, às vezes, supostamente crítica sobre tudo o que se passa, sobre tudo aquilo de que tem informação. Assim, a opinião, como a informação, converteu-se em um imperativo. E Larrosa continua dizendo que, em nossa arrogância, passamos a vida opinando sobre qualquer coisa porque nos sentimos informados. No entanto, a obsessão pela informação consome nosso tempo e acaba também por anular nossas possibilidades de experiência.

A experiência, a possibilidade de que algo nos aconteça ou nos toque, requer um gesto de interrupção, um gesto que é quase impossível hoje: requer parar para pensar, parar para olhar, parar para escutar, pensar mais devagar, olhar mais devagar e escutar mais devagar; parar para sentir, sentir mais devagar, demorar-se nos detalhes, suspender a opinião, suspender o juízo, suspender a vontade, suspender o automatismo da ação, cultivar a atenção e a delicadeza, abrir os olhos e os ouvidos, falar sobre o que nos acontece, aprender a lentidão, escutar aos outros, cultivar a arte do encontro, calar muito, ter paciência e dar-se tempo e espaço.

E por que colocar a experiência no sentido oposto da informação? Por que a informação é algo que chega de fora, produzida por uns e consumida por outros; já a experiência é, em primeiro lugar, um encontro ou uma relação com algo que se experimenta, que se prova. A experiência tem a capacidade de formação ou de transformação. É experiência aquilo que nos passa, ou que nos toca, ou que nos acontece e, ao nos passar, nos forma e nos transforma. Somente o sujeito da experiência está, portanto, aberto à sua própria transformação.

Tempos muito estranhos.

Sobre o autor

Regina Machado

Mineira de Juiz de Fora. Mãe de dois adolescentes. Arquiteta e Urbanista. Trabalhou com movimentos sociais de urbanização de favelas no Rio e em São Paulo. Trabalha com comunidades na organização de seus espaços físicos, sociais e políticos.
Fundadora do Projeto Âncora junto com Walter Steurer.

Projeto Âncora: http://projetoancora.org.br

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