Colunistas Educação Regina Pundek

Tempos Incríveis

Escrito por Regina Pundek

Depois que me tornei avó penso muito nas coisas que quero dar para meus netos. O que desejo que eles tenham? E, cada vez mais chego à conclusão que não devo comprar-lhes nada que eles não tenham desejado ardentemente. Nada.

Quero que sejam pessoas que batalhem pra conquistar seus sonhos, seus planos e desejos. Por isso, o que pretendo dar e com muito gosto, nestas idades da infância, são tempos. Um tempo contando histórias, outro fazendo biscoitos, e mais adiante outro catando insetos pelo quintal… Bons tempos!

Muitas vezes os adultos esperam que ao receber o presente, tão dedicadamente escolhido por eles, a criança se enterneça e demonstre amá-los ainda mais.

Qual nada! Depois de desfeito o pacote, passado o impacto da novidade, o brinquedo rola pela casa. Mais um entre tantos. E, todos estes brinquedos geram na criança um comportamento distorcido de rei e ao mesmo tempo de incapaz.

Alguns se tornam tiranos exigindo mimos para comportarem-se, outros se tornam reservados e tímidos, pois não acreditam na própria capacidade de realizar, de lutar.

Manifesto minha indignação com este mundo em que tudo é tão consumível. Tudo está à venda. Quase mais nada é simples, singelo, orgânico, natural… ético. Tudo é consumido rapidamente, tem vida útil, valor agregado, lucro. Tudo se torna descartável…

Até os partos nas maternidades são alvo da mídia. Antes mesmo de saber que nome darão ao filho que está chegando para mudar-lhes a vida para sempre, os pais vêem-se na obrigação de escolher em qual maternidade, sob que luzes e efeitos, chegará seu pimpolho a nossa sociedade capitalista.

Decidem-se lembrancinhas, enfeites de porta, decoração de quartos, etc. e tal. Mas como fazer o ninho ou se nascerá de parto cesárea ou normal tornou-se questão banal, sem precisão de pensamento. Afinal ninguém tem tempo para esperar… melhor marcar o dia e a hora, assim todos continuam com suas agendas organizadas. O normal é agendar!

Ironia acontece quando um menino quebra as pernas dos adultos, e sem aviso prévio decide dar um nó no destino e chega pelas vias normais antes da data marcada. Que roubada!?

A velha cena de um pai consertando um móvel, um eletrodoméstico ou até mesmo um brinquedo tornou-se tão rara…. coisa de propaganda melancólica no Natal na tentativa de vender mais e mais panetones. Hoje tudo é substituível, não vale a pena consertar.

Assim sendo nosso planeta vai se enchendo de lixo. Dizem as estatísticas que somos o país que mais recicla. Questiono-me qual a relação entre produção e reciclagem. E, que outros lixos estamos produzindo? Será que refletimos nossos hábitos quanto ao consumo exagerado? Quanto do que compramos é realmente necessário? O que precisamos para garantir nosso bem estar e nossa saúde? Lemos e nos informamos em boas fontes? Praticamos o que acreditamos ser melhor?

Atualmente as pessoas que procuram fugir destes padrões consumistas são vistas muitas vezes como chatas e desagradáveis, porque preferem consumir produtos orgânicos, não querem o CD de fotos que a maternidade impõe e não caem nos ditames da moda.

Respirar, relaxar, contemplar e conviver são verbos que significam tanto e são tão pouco usados!

Proponho que os pratiquemos e talvez, quem sabe, consigamos oferecer modelos melhores para as crianças que aí estão.

Sobre o autor

Regina Pundek

Escritora, Professora da Educação Infantil, Diretora Pedagógica,Psicopedagoga, Engenheira Civil, Educadora apaixonada pelo respeito ao Ser Humano.

Esposa, mãe, avó. Nascida em Santa Catarina e moradora da Granja Viana há 15 anos.

Deixe um comentário