Coletivo Colunistas Regina Machado

Um banco de três pernas

Escrito por Regina Machado
O delicado equilíbrio social também depende de três pernas.

 

Um banco de três pernas nunca fica desnivelado, ele se adapta a qualquer terreno porque três pontos distintos podem determinar um plano no espaço. Quem já sentou em um banco de três pernas pôde experimentar o delicado equilíbrio que depende de como nos comportamos.

O delicado equilíbrio social também depende de três pernas. Da ética, da política e da economia. E do nosso comportamento nele.

Como o Projeto Âncora cuida desse equilíbrio e como as crianças aprendem desde cedo a cuidar dessa importante base social?

Toda criança no Projeto Âncora sabe de cor quais são os cinco valores da entidade: afetividade, respeito, responsabilidade, honestidade e solidariedade. Em qualquer conflito, qualquer dúvida, qualquer escolha que se tem que fazer, são os cinco valores da entidade que servem de base para definir caminhos e escolhas. A isso chamamos de ética.

A ética é o que nos protege e serve de base sólida para a política, que é a arte de governar, de organizar e administrar as instituições. No Projeto Âncora a criança participa desde muito cedo da sua própria organização e da organização do grupo. Em assembleias, os assuntos são discutidos, os problemas são tratados e todos podem dar sua opinião. As decisões dependem de consenso e os assuntos podem levar muito tempo para serem concluídos. Qualquer decisão precisa estar fundamentada nos valores, na ética, devem ser boas para o coletivo e nunca para uns poucos. E chega-se a conclusões do tipo: “Eu não concordo que não possamos usar o celular dentro da entidade, mas concordo que ainda não temos a responsabilidade necessária para isso, então eu aceito a decisão tomada pela assembleia porque entendi que é hoje a melhor para o coletivo”.

Isso é fazer política da melhor qualidade.

A outra perna do banco é a economia, ciência fundamental para nossa sobrevivência. É ela que estuda os fenômenos relacionados à obtenção e utilização dos recursos necessários à vida. Também a economia, como a política, precisa ser protegida pela ética. No Projeto Âncora a forma de obtenção de recursos e o uso dos recursos estão sujeitos aos valores da entidade. No dia a dia todas as crianças participam de grupos de responsabilidade que cuidam do desperdício de comida, do uso racional da água, da produção de hortaliças, do cuidado dos materiais, entre outros. Os grupos estudam os problemas e propõe ações para que toda a comunidade Âncora possa cuidar de sua economia.

Sabemos que quando tiramos a ética do cenário econômico e político, o banquinho não se sustenta e o equilíbrio social desaparece, isso vale para as famílias, o Projeto Âncora e um país.

O Projeto Âncora acredita que é na escola e na mais tenra idade que este caminho pode ser aprendido. E também acredita que este caminho se aprende caminhando.

Sobre o autor

Regina Machado

Mineira de Juiz de Fora. Mãe de dois adolescentes. Arquiteta e Urbanista. Trabalhou com movimentos sociais de urbanização de favelas no Rio e em São Paulo. Trabalha com comunidades na organização de seus espaços físicos, sociais e políticos.
Fundadora do Projeto Âncora junto com Walter Steurer.

Projeto Âncora: http://projetoancora.org.br

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