Redação Território

Uma Venezuelana entre Nós

Escrito por Redação

As 17h30, em frente à Faculdade Mario Schenberg, você pode encontrar uma Fiorino toda caracterizada e equipada para venda de hot dogs. No primeiro momento o que chama a atenção é a grande quantidade de pessoas em frente e o logotipo Chiquita’s. “Melhor lanche, melhor conversa! Brinde cursinho básico de espanhol com a Carol!”, diz uma cliente e aluna da faculdade. Logo se aproxima uma mulher de estatura baixa, bonita, com sorriso estampado no rosto. “Hola! Tudo bom?”. Trata-se de Yurainy Carolina, 33 anos, casada, mãe de três filhos, nascida em Maracaibo, uma importante cidade da Venezuela. “O Y no inicio tem som de J em espanhol, pode me chamar de Carolina!”, explica em meio a uma gargalhada.

Entre um hot dog e outro, conhecemos um pouco da história dessa venezuelana que hoje trabalha e reside em nosso município.

Jornal d’aqui – Quando e por qual motivo você veio morar em Cotia?

Carolina – Cheguei ao Brasil no dia 30 de novembro de 2007. Acho que era uma quinta-feira. Lembro que estava muito assustada com tudo. Era a primeira vez que saía do meu país e, encontrar uma cidade do tamanho de São Paulo… Foi tudo muito rápido, eu me casei e 45 dias depois estava desembarcando no Brasil. Meu esposo é brasileiro e trabalhava para uma empresa que queria montar uma fábrica na Venezuela, a empresa decidiu não seguir com o projeto e ele acabou ficando desempregado. Como ele morava antes em Cotia, decidimos vir pra cá.

– Você já trabalhava com hot dogs antes?

Não (risos), eu comecei a trabalhar com hot dogs em 2016! Antes eu cuidava dos meus filhos e da minha casa (mais risos). Meu esposo era sócio de uma empresa e estava sem receber salário há alguns meses. Como ele não tinha outra fonte de renda, praticamente foi obrigado a sair da sociedade! Estávamos decepcionados, com muitas contas atrasadas e com três filhos pequenos para criar. Esta Fiorino foi parte do pagamento que ele recebeu para sair da sociedade (risos). Pensamos muito no que fazer para ganhar a vida e decidimos adaptar o carro para vender hot dogs. O inicio foi difícil… Além de ter que superar o próprio orgulho, tivemos que vencer a hostilidade da concorrência. A vida tem dessas coisas, no es verdad? Você tem que se virar com o que ela te dá e superar os desafios que aparecem pelo caminho! Poco a Poco! Despacito (risos)!

– E como era viver na Venezuela?

 – Quando eu vim para o Brasil, a Venezuela já estava dividida entre chavistas e esquálidos (opositores). Existia certo radicalismo entre eles e isso se espalhou pela população. Eu tinha comida, medicamentos e fazia faculdade de Direito em Maracaibo. Nunca imaginei que a Venezuela ia chegar aonde está! Eu já tinha sofrido com a falta de alimentos provocada pelo “Paro Petroleiro em 2002” (greve geral) que durou três meses, mas nem se compara ao que meus familiares estão vivendo agora. Eles ficaram magros, literalmente! Mesmo assim, muitos deles continuam sendo chavistas e tem Hugo Chávez como um herói! Para muitos, a culpa do caos da Venezuela é do atual presidente, Nicolás Maduro. Também é, mas não é só dele! Entender a Venezuela não é fácil. Essa crise começou há muito tempo, antes mesmo de Hugo Chávez! Aqui no Brasil pouca gente escutou falar do “Caracaço” de 1989. O Caracaço foi da passagem de ônibus e da gasolina. No final de uma semana, havia um saldo estimado em mais de 4.000 mortes, provocadas pela ação do exército, autorizadas por Carlos Andrés Peréz (presidente da Venezuela na época). Pouco tempo depois, Hugo Chávez tentou um golpe de estado sem êxito. Em 1999 ele se tornava presidente pelo voto. Décadas de corrupção e desigualdade social levaram a Venezuela para esta calamidade. O que estamos vendo hoje na televisão é o final de um caminho percorrido. Uma novela que tem vários capítulos!

– E qual a sua opinião sobre a crise que estamos vivendo no Brasil?

–  Fico muito triste com o que está acontecendo com o Brasil. Sempre achei que o Brasil ia continuar crescendo. Fico vendo na televisão a quantidade de desempregados, as empresas fechando… Tenho muito medo! Às vezes acho que o país esta dividido com o radicalismo político. Tenho medo que aconteça o mesmo que aconteceu com a Venezuela. As pessoas ficam cegas e acham que existiu ou vai existir um salvador da pátria. Não existem salvadores! A única maneira de mudar um país é combater a corrupção e realmente investir em educação. Em minha opinião, Brasil e Venezuela são parecidos em muitos aspectos!

– Para finalizar, o que você espera para o seu futuro?

– Eu espero que meus filhos estudem, cresçam e sejam pessoas felizes. As dificuldades sempre poderão existir, mas que eles consigam superá-las honestamente. Que a Venezuela e o Brasil consigam resolver seus problemas e que as pessoas venham provar o delicioso hot dog do Chiquita’s! (risos).

 

Sobre o autor

Redação

O Jornal d'aqui digital é uma prestadora de serviços que atua com comunicação na região da Granja Viana, Cotia (SP). Nasceu originalmente em 1979 como mídia impressa e assim atuou durante 35 anos. O formato atual surgiu a partir de um movimento de amigos/leitores inconformados com o encerramento de suas publicações.

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