Música Redação

A Amazônia que Felipe e Regis criaram

Escrito por Redação
Reproduzimos abaixo entrevista que Felipe Ávila deu para  Wilson Garzon do Clube de Jazz, para falar sobre o recém lançado CD Amazônia 202o

Felipe é desses amigos generosos que fiz durante a minha trajetória como crítico musical. Acompanho a sua carreira que ele vai construindo com muita qualidade, como um verdadeiro mestre de artes que é. Agora ele me apresenta ‘Amazônia’, projeto gravado há dez anos, que ele e seu companheiro de armas, Regis Gontijo, acabam de lançar. Essa entrevista está de um certa maneira cinematográfica, já que Felipe conta de uma forma saborosa, seus causos amazônicos…

Wilson Garzon – Em 2010, você gravou junto com o guitarrista amazonense Regis Gontijo o projeto ‘Amazônia’. Como você conheceu Regis e como surgiu esse projeto?
Felipe Avila – Em 1986, Regis, então com 15 anos à época, decidiu ‘fugir‘ de casa onde morava com a família em Manaus, para vir estudar música aqui em São Paulo comigo. Foram seis anos ininterruptos de muitas aulas, conversas e bons momentos. Lembro que a mãe, Dona Diolinda,  me telefonava sempre pra saber do Regis. Em 1992 ele foi morar na Austrália e perdemos contato. Muitos anos depois, morando na Amazônia, com a internet disponível, em 2010  ele me procura e diz que gostaria de gravar um CD e que passaria o ano dedicado a este projeto.
Aí eu disse pra ele: “Pô, que legal, quero dar uma canja!”. E, ele diz: “Não. Você fará tudo, as músicas, os arranjos e, também quero tocar com os músicos que tocam com você.” Meus amigos-músicos, também eram ídolos para o Regis. E, sugeriu que eu fosse para a Amazônia para ter as inspirações da floresta, dos rios, dos bichos e tudo o que tinha a ver com a vida dele e que ele queria ver presente nos sons. Foram 3 viagens, muitos passeios e aventuras por lá e muito som tocando junto com o Regis.
 WG – ‘Amazônia’ foi gravado entre ‘Quase Tudo’ (2008) e ‘Xaxim’ (2013). Ele respira o clima desta sua fase criativa? Porque que o CD só foi lançado agora?
FA – Penso que foi um momento de muitos relacionamentos profissionais novos e de novas oportunidades de trabalhos também, o que talvez tenha me mantido motivado e estimulado a criar e a compor. Estava no embalo e, feliz. O CD Amazônia nos proporcionou, durante as sessões de gravação, muitos momentos mágicos de muita alegria, risadas, histórias contadas e, muita música. Às vezes outras prioridades da vida nos obrigam a adiar projetos mesmo que tão desejados e importantes para nós. E, felizmente, em tempo e contratempo, e aqui estamos Regis e eu com o CD sendo lançado.

Em pé: Nenê, Vinicão, Andreotti, Lelo e Felipe. Agachados: Zezé e Regis

WG – O repertório do CD por nove músicas de sua autoria. Elas foram compostas em São Paulo e/ou Amazonas? Conte-nos um pouco sobre o processo de criação de cada uma delas.
FA – As músicas seguem na ordem do disco:

Amazônia
A ideia desta música veio a partir de uma viagem que fizemos de carro para Roraima, indo para a fazenda da família do Regis. Quando ele me disse que íamos pra lá, me pediu pra avisar minha mulher que eu ficaria uma semana sem sinal de celular, incomunicável e completamente fora do ar. Praticamente em outro planeta rsrs. Foi uma viagem cheia de aventuras, paisagens únicas, muitas araras e pântanos. Estradas com pouco de asfalto e trechos de só areia. Cruzávamos um carro ou caminhão e passávamos horas sem ver nada e ninguém. Tínhamos que chegar num determinado ponto da estrada até as 18h00 daquele dia, pois os índios da reserva Waimiri Atroari, fecham a estrada, para evitar o atropelamento dos animais durante a noite, que são a fonte de caça e alimento deles. Se você não passar até as 18h00, só passará às seis horas da manhã do dia seguinte. E, dormir ali, dentro do carro, no meio do nada, não seria uma boa idéia rsrs.

Foi esse clima todo de pressão, somado às paisagens deram o tom da música: pensei numa música sem harmonia, uma ‘ladainha‘ percussiva com melodias marcantes e muita improvisação. E, um detalhe que considero interessante nesta música: O Vínícius Dorin já tinha feito uma primeira gravação maravilhosa de um solo de flauta. Mas, pediu para gravar outro. Pedi para o técnico guardar aquele primeiro e, gravamos o segundo. Mais tarde, já no momento de conferir os sons na edição, sem querer, soltamos os dois solos, simultaneamente, e resolvi deixar assim, não dava pra cortar nada.
Pitoco
A música é um Baião, com um formato mais tradicional, com a improvisação aberta. E o nome da música ‘Pitoco‘ foi inspirado no cachorro do Regis da raça Pit Bull, muito companheiro e o segurança da casa; pegava muitos escorpiões na varanda e atacava as Mucuras de madrugada rsrs.  (Mucura, pra quem não sabe, é uma espécie de Ratão da floresta.)
 Por do Sol
Eu já tinha um desenho desta música e vinha trabalhando e curtindo um clima meio “Zen”. E, foi num passeio de barco onde pude observar o ‘Por do Sol‘ na Amazônia, que ela ficou pronta. 
Piranha
Um clima de suspense, acústico desde o início e vai num crescendo até chegar num solo de guitarra com drive, dá vazão ao motivo rítmico desta música que segue se deslocando de 4 para 7No Rio Negro, 40 graus na sombra, esperávamos pelo Tambaqui num restaurante flutuante, Regis e amigos, incluindo eu, mergulhamos no Rio – ninguém aguenta aquele calor sem entrar na água e fui observar de perto um pescador e, curioso, perguntei o que se pescava ali. “Piranhasssss e muitassss”, respondeu o pescador rindo. Eu fui correndo avisar o Régis “o Rio está cheio de piranhassss” ao que ele me respondeu: “Onde você pensa que está, na piscina do Pacaembu? Relaxa! Rs…
Encontro das Águas
Neste dia, saímos cedo, num barco grande e lento para o passeio. Fiquei muito impressionado com a grandeza de tudo aquilo. O rio Amazonas, é a junção do rio Solimões com o rio Negro. Tem lugares ali que você não consegue ver a outra margem do rio, parece que se está no meio do oceano. Silêncio absoluto… Quando chegamos ao Encontro das Águas, é de tirar o fôlego – muito lindo! As águas não se misturam: o rio Solimões de água barrenta, mais selvagem e fria, com o rio Negro que parece um chá preto e quente. Na volta, já no fim de tarde, fomos obrigados a ficar vendo um Por do Sol maravilhoso, brindando-nos com a chegada da noite.

Pensei numa introdução com um solo de Cello e pedi pra amiga Silvia de Lucca compor e escrever este solo especial com sabor meio Erudito/Contemporâneo. Tenho muita admiração pelo trabalho da Silvia como compositora. E, acrescente a isso, o Lelo Nazario que arrasou no arranjo e participação. Para fechar, o solo do Regis de guitarra foi a cereja do bolo, já estava na veia dele este clima todo.
Fazenda
Um lugar no meio do nada, uma viagem cansativa e um pouco tensa que nos levou pra outro planeta. Mas, ao chegar, desfrutamos de muita paz.  A intradução do poema feita pelo Augusto de Campos e, na voz da Zezé Freitas, com um timbre e afinação de voz muito especial.
Vou Vem Xoo
Esta música foi uma encomenda para uma meditação dinâmica que minha mulher aplica em trabalhos corporativos de imersão, ao amanhecer, em ambiente ao ar livre. E, eu achei que tinha tudo a ver, aproveitei o momento no estúdio e gravamos. Trata-se de um groove em 12 tempos com bastante liberdade de cores e sons.
Tambaqui
Acordei cantando esta música de madrugada e me levantei pra escrevê-la. Se eu não tivesse escrito naquele momento, certamente eu teria me esquecido da melodia no dia seguinte. Dá água na boca só de pensar naquele churrasco de tambaqui que fizemos no barco. Eu nunca tinha participado de churrasco dentro de um barco. Um samba sapeca que termina num solo maravilhoso de bateria do Nenê.
Manga
Uma música com o sabor e swing do Caribe e, com solos lindos do Regis e do Lelo Nazario. Esta música é uma homenagem ao Regis, que é um bicho doido rsrs. Imagine a cena, ele dirigindo, nos levando para algum lugar e, de repente, para o carro, sai correndo para pegar uma manga pendurada numa mangueira ou, que estava caída ao seu redor e que só ele viu. Come ali mesmo aquela fruta quente e melada rsrs

WG – Como você escolheu os músicos e decidiu pela formação de septeto? E quanto as participações especiais?
FA – Chamei o mesmo time de músicos que gravou no meu CD anterior, o “Quase Tudo”. Todos já entrosados e familiarizados com a minha concepção musical. E, outras participações, aconteceram pela ideia do arranjo, como a  T. Cris que gravou o solo de Cello na música “Encontro das Águas”. 
Felix Wagner, músico maravilhoso que também foi meu mestre, veio direto da Alemanha para o estúdio gravar. Uma alegria contar com a linda participação dele.
Zezé Freitas, dona de uma voz com um timbre e afinação diferenciada. Tinha que ser a voz dela. Fez voz e declamação do poema na Fazenda.
Nenê (bateria), músico e pessoa maravilhosa com uma história enorme na música do Brasil e do mundo.  Já vínhamos trabalhando juntos há alguns anos. Ele é para mim muito querido.
Nahame Casseb (percussão), amigo de muitos anos, recém chegado do Japão. Músico de muita criatividade e sensibilidade. Com muitos instrumentos interessantes que valorizaram as gravações.
Marinho Andreotti (baixo acústico e elétrico), grande músico, parceiro de muitos trabalhos, já entrosado com minhas ideias e executou os arranjos à perfeição.
Lelo Nazario (teclados, efeitos, mixagem e masterização), pra mim, um dos maiores músicos do mundo. Irmão, que gravou em todos os meus CD’s. Temos alto grau de afinidade musical. Lelo expande o meu trabalho e soma muito com sua atenção aos detalhes, ele abraça a ideia e a concepção e constrói de forma harmoniosa. 
Vinícius Dorin (sax/flauta), nós tocamos muito juntos, em paralelo ao trabalho dele no Grupo do Hermeto Pascoal onde esteve por mais de 20 anos. Músico maravilhoso que nos deixou muito jovem: uma enorme perda para a música instrumental brasileira. Vinicão foi pessoa muito linda e querida. Deixa muita saudade. Perfeccionista, gravou nos meus CD’s Janela e Quase Tudo também.
Augusto de Campos (Fez a Intradução do poema visual – O Som), poeta, mentor, amigo muito querido, lá se vai mais de 50 anos… foi ele quem me mostrou muitos sons quando eu ainda era menino que queria ser músico. 

Regis Gontijo (guitarra e violão), idealizador deste projeto incrível e sou grato que ele se lembrou de mim e me deu todo o espaço para eu fazer música. Músico de muita sensibilidade e um coração do tamanho da Amazônia.

Em pé: Nenê, Vinicão, Andreotti, Lelo e Felipe. Agachados: Zezé e Regis

WG – Quanto tempo vocês levaram para finalizar as gravações, já que foram utilizados três estúdios? E, quanto à Mixagem e à Masterização?
FA – As gravações exigiram uns 6 meses de trabalho. No momento que eu começava a escrever os arranjos, já iniciava as gravações das bases de violões e guitarras no meu Studio, em casa. No estúdio DoZe, fizemos as dobras sobre estas bases e, principalmente, as gravações ao vivo. Estas bases pré-gravadas facilitaram bastante o entendimento e compreensão dos músicos com relação ao formato e concepção do som. E, por último, o Lelo Nazário colocou os teclados no Utopia Studio, mixou e  masterizou o CD. Lelo é amigo de muitos anos, gravou em todos os meus CD’s e pela alta qualidade técnica e excepcional expressão musical, ele também se encarrega de coordenar a mixagem, que fazemos juntos e fecha o trabalho com masterização impecável.
 
WG –E quanto ao processo de divulgação de ‘Amazônia’, o que já foi feito e o que está sendo programado? O Regis irá participar dessa etapa?
FA – Passada a emoção de termos o CD físico em mãos e após colocar tudo em todas as melhores plataformas digitais, passamos ao trabalho de elaborar os contatos com jornalistas, profissionais que ainda trabalham com informação e divulgação para estimular o público a quererem conhecer este CD. Buscamos, pessoas como você, que tenham um espaço de conteúdo e qualidade para a música. É muito importante para os artistas. O Regis participa ativamente de todas as etapas deste projeto idealizado por ele. Recente, ele deu entrevista para um programa na Radio Diário de Manaus – um programa de jazz bastante conceituado e com boa audiência do Humberto Amorim.
WG –E quanto aos novos projetos, o que você está preparando?
FA – Estou desenvolvendo um projeto que espero lançar ainda este ano, um livro sobre “A MIB – Música Instrumental Brasileira”, a partir de uma pesquisa que estou realizando, através de entrevistas com músicos com história na nossa música, e abordando: diversidade rítmica, versatilidade dos instrumentistas brasileiros, grupos instrumentais que marcaram e deram grande contribuição à nossa música; sobre aspectos harmônicos e sua relevância para a música instrumental; evolução da MIB e uma investigação de espaços para desenvolver o estilo experimental da música, além do Hermeto Pascoal, por exemplo. 

E, junto estarei fazendo arranjos de músicas que representem bem este universo do livro. 
Também estou trabalhando num projeto em paralelo, que é um audiobook que nasceu de uma ideia de uma história,  a princípio infantil, mas que eu, como adulto estou curtindo muito rsss, então acho que será uma história para todos sem restrição.
Mais uma vez, muito obrigado pela oportunidade de fazer parte do Clube de Jazz. Grande abraço.
Felipe Avila

Vendas do CD
 
O CD Amazônia, já está disponível em todas as plataformas digitais. Nos sites, poderá encomendá-lo no formato físico :
submarino.com
americanas.com
sambastore.com 
 
Pop’s Discos
Rua Teodoro Sampaio, 763, Loja 04 – Jardim América
Fone: (111) 3083-25-64

Sobre o autor

Redação

O Jornal d'aqui digital é uma prestadora de serviços que atua com comunicação na região da Granja Viana, Cotia (SP). Nasceu originalmente em 1979 como mídia impressa e assim atuou durante 35 anos. O formato atual surgiu a partir de um movimento de amigos/leitores inconformados com o encerramento de suas publicações.

Deixe um comentário