Colunistas Põe Poesia Sílvia Rocha

A PRIMAVERA E AS QUEIMADAS NOS SANTUÁRIOS DO BRASIL

mm
Escrito por Sílvia Rocha

No início de setembro de 1975, fiz uma viagem pela região do Pantanal Matogrossense. E tive a grande sorte de avistar a paisagem fantástica do ipê em flor. A floração do ipê estendia-se por quilômetros quadrados.
Masuda Goga

Foto: izaquebarbosa.blogspot.com

As nuvens douradas
flutuam no Pantanal:
– florada de ipê.

Quarenta e cinco anos depois da criação deste haikai – poema de três versos, de origem japonesa, inspirado na natureza – nosso pantanal está em chamas. Assim como a Amazônia. E outros santuários do Brasil.

Segundo matéria no site G1¹ , o fogo já destruiu 85% do Parque Estadual Encontro das Águas, refúgio das onças pintadas. Com relação à área perdida para os incêndios, o instituto apresenta os dados mensalmente: a última estimativa, contabilizada até 31 de agosto, apontava uma perda de 12% do bioma neste ano – foram 18,6 km². O recorde para o mês era de 2007, com 5.498 focos de calor detectados; neste ano, número foi ultrapassado com 5.603 registros até 16 dia de setembro. Antes de terminar o ano, 2020 já superou o recorde anual anterior de queimadas em 26%.

A Amazônia também já registrou mais focos de incêndio até o 16º dia deste mês do que em todo o mês de setembro do ano passado. Em setembro de 2019, foram 19.925 focos de calor; neste ano, até quarta-feira (16), houve 23.277 focos, uma alta de 16,8%.

Somando Amazônia e Pantanal, o Brasil perdeu 53.019 km² de mata nativa devido às queimadas até 31 de agosto. O número é equivalente a 34 cidades de São Paulo, ou quase a soma dos estados de Sergipe e Alagoas.

No domingo, 20 de setembro, o fogo avançou também no Vale do Matutu, relevo ao sul de Minas Gerais, um santuário ecológico. Uma brigada de voluntários, juntamente com a chuva, conseguiu interromper as queimadas.

Que consigamos conter as queimadas.
Que consigamos erradicar a devastação de nossos santuários.
Que consigamos interromper a destruição de nossos povos indígenas, ribeirinhos e quilombolas.

Que a primavera, com todo seu esplendor, traga-nos a esperança, a renovação e a mudança, como um ipê em flor.

—-

Haikais de MATUTU DO ², livro de poemas de Sílvia Rocha, escritos ao longo de quase trinta anos de idas e vindas no Vale do Matutu, a ser lançado em breve, pela editora É selo de língua.

Foto: Sílvia Rocha

salta um ipê amarelo
no verde do vale
e nos meus olhos

Foto: Sílvia Rocha

um aqui outro ali
ipês amarelos
anunciam a primavera

 

Contudo, quando a primavera chega, ela colore e comove. Perfuma e performa. A dança da vida.

compasso de espera
onde serão plantadas?
pergunta a primavera

namora com as azaleias
flerta com o céu
flor de são miguel

no tronco morto
a vida se revela
vida amarela

no tronco morto
a vida se revela
orquídea amarela

no tronco morto
anuncia a primavera
vida amarela

morto, o tronco
inesperado encontro
orquídea amarela

Haikais e fotos de Sílvia Rocha

———

(¹) Reportagem de Carolina Dantas e Lara Pinheiro, G1, no dia 17/09/2020
(²) Obra contemplada pelo ProAC, Programa de Ação Cultural do Estado de São Paulo.

Foto em destaque: “Ipê / Quando isto existe, aquilo existe”, arte de Fábio Rodrigues para apoiar o estudo do livro A lógica da fé, de Elizabeth Mattis-Namgyel, em www.olugar.org.

Sobre o autor

mm

Sílvia Rocha

Sílvia Rocha mora na Granja Viana desde 1994.
É graduada e mestre em Comunicação Social – Jornalismo – pela Escola de Comunicações e Artes da USP.

Pratica o haikai – micropoemas de origem japonesa, inspirados na natureza – desde 1984. Publicou a segunda edição de Estação Haikai e Gestação Haikai, pela editora É selo de língua, 2015. Ganhou o Concurso de Poesia Falada do Café das Flores e da Revista Escrita com As Quatro Estações do Ano, em 1987.

Escreve matérias, artigos e crônicas para veículos impressos e virtuais. Foi selecionada pelo Edital do ProAC 18/2019 - Programa de Ação Cultural da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Estado de São Paulo - voltado à publicação de livros de poesia, com a obra “matutu do - por onde caminho”, um livro de haikais sobre o Vale do Matutu, que fica no sul de Minas Gerais. O livro será lançado este ano. Também trabalha no desenvolvimento de seus quadros poéticos, integrantes de seu projeto Põe Poesia.

Site: www.silviarocha.com.br

Deixe um comentário