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AMAMAZÔNIA

Escrito por Sílvia Rocha

AMAMAZÔNIA é um poema concreto que eu criei depois de uma viagem que fiz para a Amazônia, em 2015. Amamazônia também dará nome a um novo livro de haikais que escrevi inspirada na região brasileira para a qual todos os olhos estão voltados neste momento em que ela arde em chamas.

respirar
respirar
amazônia

respirar
suspirar
ah!mazônia

nuvens no céu
os verdes das matas
e o rio negro

verdes se inclinam
majestosas
e beijam o rio negro

barco sobre o aiaru
o tucano rasga o céu
voo no seu voo

céu negro
sobre a água negra
negro sobre negro

amazônia em chamas
me chama
me chama

Diante dos incêndios, ameaças, mortes, etnocídios, abandono e cobiça que nossa Amazônia vem vivenciando, compartilho esta oração, escrita por um jornalista e missionário amazonense.

Uma oração pela Amazônia
Por Phelipe Reis (¹)

Ó, grande Deus, Criador
Tu, que com maestria estabeleceste céus e terra
e com perfeição arquitetaste nossa casa comum.
Tu, que fizeste da Amazônia varanda e quintal,
onde plantaste uma floresta a perder de vista,
e por debaixo escondeste riquezas que despertam a cobiça do homem.
Tu, que distribuíste as águas em lagos, igarapés e paranás,
e escavaste para teu próprio gozo o caudaloso Amazonas,
cujas águas barrentas refrescam e matam a sede de curumins e cunhantãs,
ouve o nosso grito de socorro.
Ó, grande Deus, Criador
Levanta-te em nosso favor.
Tu, cujos olhos do céu apreciam este imenso tapete verde,
não suportarás contemplar o verdume maculado pelas cinzas das queimadas.
Disfarçada de progresso, a destruição nos espreita
esperando a hora de ceifar-nos o suprimento e a vida.
Não permita que o teu e nosso quintal seja invadido e saqueado,
não permita que os perversos firam nossa terra sem piedade,
derrubem nossas Samaúmas, Jacarandás e Andirobeiras
fazendo teu chão e teus filhos chorar e secar.
Ó, grande Deus, Criador,
Tu, que ama a justiça e a gente simples
Não nos deixe temer,
o inimigo que com rabiscos de caneta quer decretar a morte da nossa floresta.
Tu, que vomita corrupção e quem as pratica.
Não nos deixe temer,
os inimigos de colarinho branco,
que arquitetam planos maquiavélicos na calada da noite
para baratear e surrupiar a riqueza da tua criação.
Ó, grande Deus, Criador
Nós, amazônidas, indígenas, caboclos e ribeirinhos
filhos teus, das florestas e dos rios,
invocamos a tua proteção e clamamos:
Não demores em derrubar o perverso.
Faz-nos valentes e bravos para defender nossos quintais.
E, pacientemente, ensina-nos a boa mordomia da tua criação,
para cuidar, lutar e resistir.
Ó, grande Deus, Criador
que na obra do teu Filho reconcilia tua criação
Por ti profetizamos:
Diante do teu braço forte
e da fibra dos filhos e filhas da Amazônia
a corrupção, a maldade e a ambição,
assim como os que dela se servem
Sem demora, não prevalecerão!

(¹) Amazonense, missionário e jornalista

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Eu e minha filha, Júlia Rocha, na Manifestação 30M em prol da Educação, no Largo da Batata, São Paulo, dia 30 de maio de 2019

Manifestação 30M em prol da Educação, no Largo da Batata, São Paulo, dia 30 de maio de 2019

 

 

 

 

 

 

 

Encontro com a Monja Waho, na Manifestação pela Amazônia no MASP, São Paulo, em 23 de agosto de 2019. Ela e seu grupo costumam fazer meditação em lugares públicos. Meditaram no MASP naquela sexta-feira

Manifestação pela Amazônia no MASP, São Paulo, em 23 de agosto de 2019

 

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Foto em destaque: O Ser do Amazonas – Machado, Cândido de Alencar – Ecoline sobre papel – 0,83 cm x 0,60. Este trabalho artístico fez parte do vídeo Os Guardiões dos Sete Rios do Brasil (Rios Amazonas; Xingu; Araguaia; Tocantins; São Francisco; Paraíba do Sul e Paraná (e as Cataratas do Iguaçu), a partir de ecolines do artista visual Cândido de Alencar Machado. O vídeo foi criado pelo Grupo ArteJunto, do Movimento Transition Granja Viana e foi passado e debatido no Festival Internacional de Artes de Edimburgo, na Escócia, em agosto de 2019.  

Sobre o autor

Sílvia Rocha

Sílvia Rocha mora na Granja Viana desde 1994.
É graduada e mestre em Comunicação Social – Jornalismo – pela Escola de Comunicações e Artes da USP.

Pratica o haikai – micropoemas de origem japonesa, inspirados na natureza – desde 1984. Publicou a segunda edição de Estação Haikai e Gestação Haikai, pela editora É selo de língua, 2015. Ganhou o Concurso de Poesia Falada do Café das Flores e da Revista Escrita com As Quatro Estações do Ano, em 1987.

Escreve matérias, artigos e crônicas para veículos impressos e virtuais e conduz a oficina Haikai: universo em três versos em grupos, individualmente, presencialmente e à distância.

Site: www.silviarocha.com.br

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