Deborah Brum Literatura

Anunciação

Escrito por Deborah Brum

Diante da morte o espetáculo.

O Bobo da Corte torna-se rei quando incita o povo à homenagem, ele morreu, ele morreu, venham todos!

Escutei no rádio a notícia: cantora morre antes de lançar seu próximo álbum. O locutor, dando as informações, se emociona quando diz que a próxima música será em sua homenagem, morta hoje, vítima de um câncer.

Lembro-me de Fátima, amiga de infância, cuja morte não teve repercussão porque só deixou marido e filhos pequenos, e o Bobo da Corte não quer os espaços modestos e restritos daquilo que pensa ser mediocridade.

Foi bonito o enterro de Fátima. Não, não havia nenhum CD para lançar, tampouco levou multidão para velar o seu corpo.

Éramos os amigos, família, conhecidos do edifício onde ela morava, os garçons do restaurante que frequentava também vieram, e foi bonito quando falaram sobre o seu prato predileto: suflé. Ela achava parecido com um vulcão, disse-me um dos garçons.

Era verdade. Quantas não foram as vezes que ela me ligava, Liége, eu preciso comer um vulcãozinho hoje, vamos? Eu sempre ia porque era bom conversar com ela, relembrar nossas histórias, confidenciar aquilo que saía de nossas bocas quando tudo parecia preso. Desatávamos os nós com a ponta da língua. E, quando o suflê era servido, Fátima repetia, ah! Que beleza esta suavidade!

Eu me admirava com o seu encantamento pela vida e jamais supus que naquele dia, quando ela me convidou para um almoço, viria a notícia: Liége, tenho um câncer que cresce como um vulcãozinho, aqui, dentro de mim. O câncer de Fátima não foi suave e levou minha amiga em menos de um ano.

Quando ela morreu, eu estava no hospital. Sedada, para não sentir dor, ainda assim era bonita, ainda assim trazia uma leveza, uma tranquilidade, ainda assim, na hora da morte. Porque, em retrospecto, eu entendo que aquela sonolência era também Fátima murchando da vida. Aguardava. Eu segurava sua mão, falando, te amo, minha amiga, e, se ela escutou, ficou feliz.

Por onde andará você, minha amiga, que não está agora comigo, dentro deste ônibus? Estaríamos rindo ou chorando, quem sabe.

Não está cheio o ônibus, então não preciso suplicar o assento dos idosos, constatando que uma lei, quando criada, nasce pelas súplicas. E, como as súplicas são consequências de um sofrimento, posso afirmar que a velhice é sofrível mesmo recente, como no meu caso, uma mulher de 80 anos, cujas juntas se enrijecem a cada dia, dificultando a subida no ônibus depois que eu aceno e o motorista para no ponto.

Ele e o cobrador me reconhecem, mas não sabem quem eu sou pois, se me conhecessem, não se surpreenderiam quando digo que vou voltar para o início, no mesmo ponto, não, não desço jamais. Mas falam bom dia, e nunca perguntam como estou. Reparo daqui, sentada depois da catraca, que o cobrador confere o dinheiro do garoto com gorro. Desconfia. O garoto já passou e não percebe a suspeita. Foi o gorro.

A Lena sempre avisou aos filhos, meninos, não saiam de gorros. Polícia não gosta de preto com gorro. Deus me livre perder um filho por causa de um gorro!

Eu e Lena conversamos bastante. Da minha vida, ela sabe quase tudo, imagino, embora eu tente disfarçar aquilo que penso ser intimidade. Não sei se conheço in-ti-mi-da-de. Porque, se intimidade é um elo estabelecido com alguém que te conhece, não sou íntima de ninguém além de mim.

Nem de mim. Talvez esteja ficando ín-ti-ma de mim, talvez.

Um início, o início de um namoro. Nesta liberdade de estar sozinha, em trânsito, sem que ninguém saiba onde estou, eu familiarizo com o que sobrou de mim, ou com o que acho que é sobra mas sou eu inteira.

Em destaque: obra de James Ensor   

Sobre o autor

Deborah Brum

Artista Plástica com pós graduação em Arte Integrativa.
Atuou na área de Arte Educação Bienal. Hoje dedica-se às suas grandes paixões: filhos e a literatura. Ministra oficinas infantis e juvenis e é mediadora do Clube do Livro da Granja Viana.

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