Colunistas Põe Poesia Sílvia Rocha

Aos Poetas que também amam… Futebol!

Escrito por Sílvia Rocha

Não pude resistir em compartilhar este texto que relata um episódio vivido por esta poeta que ora vos escreve, nos idos de 1982. Mais precisamente, na Copa do Mundo de 1982, na Espanha.

Peço licença poética às minhas leitoras e aos meus leitores.
E que a bola role também no campo da literatura e da poesia!

Pepeiziquito, Mamãe e Iara,

Chegamos muito bem.
Aqui tudo é lindo.
Chegamos a ver o jogo, porém, a nossa torcida não foi suficiente.
Todos os espanhóis estavam do nosso lado e ficaram muito tristes também.
Tenho muitas saudades.
Beijos a todos,
Sílvia
(7/7/1982)
ESPAÑA 1982 – BARCELONA

“Samba, brasiliana!”

Foi uma viagem sonhada, planejada, programada, esperada.

E seu grande dia finalmente chegou! Quatro de julho!

Foram quatro anos de economia, pesquisas, roteiros, providências como passe de trem, carteira internacional de estudante, carteira de albergue da juventude… E, a cereja do bolo do roteiro era começar a viagem pela Espanha, mais precisamente por Barcelona, mais precisamente, ainda, no dia do grande jogo da Copa do Mundo de 1982: Brasil x Itália.

Fui com uma amiga que havia conhecido uns meses antes da viagem, numa seleção para monitores de jovens que pretendiam fazer excursões internacionais. Foi na entrevista que me dei conta que o meu inglês, sólido, que incluía até Shakespeare e tradução simultânea, não foi suficiente para eu passar no teste. E, muito frustrada, resolvi que em minha viagem para a Europa, incluiria um mês de curso intensivo de inglês.

Era um roteiro e tanto, para uma marinheira de primeira viagem! Começar a viagem em Barcelona, logo no “dia do jogo”, ver o Brasil jogar, e, claro, ganhar. Depois, seguir para Madri, depois Itália, Suíça, Alemanha, França e, finalmente, chegar ao meu destino: Inglaterra, onde faria um curso intensivo na cidade de Cambridge.

Lembro-me de chegarmos esbaforidas, deixarmos as mochilas no guarda-bagagem da rodoviária de Barcelona, tomarmos um taxi, chegarmos no Estádio Sarriá, comprarmos os ingressos no câmbio negro (até hoje me pergunto quanto foi e como é que eu consegui comprar, já que viajei com o dinheiro contado). Deu tempo, até, de vestirmos as camisetas do Brasil por cima da roupa, como havíamos planejado.

Naquela altura do campeonato – literalmente – o Brasil precisava tão somente de um empate para se classificar para as semifinais.

Eu sempre fui aquela pessoa que se você pergunta para ela se gosta de futebol, ela responde: “só na Copa!” Sim, nas Copas eu sempre adorei futebol! Era uma farra lá em casa, a família se reunia para assistir aos jogos, minha mãe fazia uns aperitivos deliciosos, meu pai servia cerveja e a gente ficava lá, torcendo, vibrando, juntos.

Meio sem ver direito, do campo, meio sem entender muito de futebol, mas muito esperançosa naquela equipe que tinha Zico, Sócrates, Toninho Cerezo e Falcão, vi a Itália abrir o placar com 1 x 0, com gol de Paolo Rossi, logo nos 5 minutos iniciais do jogo. Sócrates conseguiu empatar aos 12 minutos do primeiro tempo. 11 minutos depois, Paolo Rossi emplacou novamente e fez 2×1 para a Itália.

Aperto no coração!

O estádio estava cheio de espanhóis e os italianos, também aos montes, não perdiam a oportunidade de provocar aquelas duas mocinhas de verde-amarelo.

Final do intervalo e nós continuávamos esperançosas de que o Brasil conseguiria o empate, naquela difícil partida. E foi aos 23 minutos do segundo tempo que Falcão conseguiu o que tanto esperávamos e de que tanto precisávamos: o empate.

Porém, mas, porém, contudo, todavia, ainda faltavam 22 minutos de tempo regulamentar.

Intermináveis, diga-se de passagem.

Aquele dia o Paolo Rossi estava, mesmo, impossível. O que será que havia dado naquele homem?

Pois ele emplacou o terceiro – e fatídico – gol 6 minutos depois, exatamente aos 29 minutos do segundo tempo.

Nossa, se pensar um pouquinho nas experiências de Copa do Mundo da família… será que poderíamos ser considerados pés frios? Meu pai esteve no Maracanã, naquela final que perdemos para o Uruguai, em 1950, por 1×0, gol no finalzinho do jogo.

Depois, eu, em 1982, testemunha de uma derrota não anunciada.

Minha enteada presenciou, em Belo Horizonte, outra derrota histórica, quando jogávamos contra a Alemanha: 7 x1, em 2014.

Voltemos a Barcelona. Nossa, realmente, foi muito triste, muito muito triste.

E o pior de tudo?

Ainda vestidas com a camiseta do Brasil, tentamos sair de cabeça erguida… mas o que não dava para aguentar mesmo foram os italianos provocando a gente e gozando das nossas caras. E, até hoje, não consigo esquecer a fala deles para a gente: “Samba, brasiliana!”

Sobre o autor

Sílvia Rocha

Sílvia Rocha mora na Granja Viana desde 1994.
É graduada e mestre em Comunicação Social – Jornalismo – pela Escola de Comunicações e Artes da USP.

Pratica o haikai – micropoemas de origem japonesa, inspirados na natureza – desde 1984. Publicou a segunda edição de Estação Haikai e Gestação Haikai, pela editora É selo de língua, 2015. Ganhou o Concurso de Poesia Falada do Café das Flores e da Revista Escrita com As Quatro Estações do Ano, em 1987.

Escreve matérias, artigos e crônicas para veículos impressos e virtuais e conduz a oficina Haikai: universo em três versos em grupos, individualmente, presencialmente e à distância.

Site: www.silviarocha.com.br

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