Arte Colunistas Solange Viana

Biennale Arte 2019 – 58ª Bienal de Veneza La Biennale di Venezia

Escrito por Solange Viana
Que você viva momentos interessantes, é o tema que permeia a Bienal de Veneza deste ano. Com curadoria de Ralph Rugoff, se você tem a oportunidade de estar nesta encantadora cidade da Itália vai se divertir muito.
Caso você não tenha possibilidade de entrar na Bienal, ou achar caro demais, existem diversas exposições que ocorrem por toda a cidade e são gratuitas. Veneza respira arte por todos os cantos e ruelas. Palacetes, igrejas e galpões “abandonados”. Uma delícia.
Como viver e pensar em tempos interessantes?

Você tem até 24 de novembro para visitar uma das exposições mais importante do planeta: a Bienal de Veneza. Para quem estuda, trabalha ou simplesmente aprecia arte, é um prato cheio. Para ser degustado com paciência, fôlego e muita liberdade, além de andar quilômetros por essa cidade encantadora. Prepare-se!

Que você viva momentos interessantes/May You Live In Interesting Times, é título escolhido pelo curador novaiorquino, Ralph Rugoff, que pela minha humilde percepção, conseguiu escolher artistas que representassem bem este nosso tempo. Que mostrassem novas abordagens sobre este nosso tão rico e conturbado momento. Onde o tema dos refugiados não passa desapercebido em diversas obras.

Arsenale

La Biennale di Venezia, se divide basicamente em dois lugares principais e distintos: Giardini e Arsenale. No entanto a cidade toda fervilha arte por todos os lados. Mesmo que você não visite estes pavilhões por algum motivo, você poderá ver arte por toda a cidade, e o que é melhor, gratuitamente. Parques e jardins recebem esculturas e instalações espalhadas por diversos cantos, vale muito passear sem rumo, deixando-se encantar pelos sons das cigarras, muitas cigarras, som este que permeia por todas as instalações realizadas fora dos pavilhões, nos jardins (você vai ouvir este som em muitos momentos distintos). Reserve pelo menos 2 dias para visitar a bienal, neste caso existe a possibilidade de combo (ingresso mais barato). Se não tiver este tempo, sugiro começar bem cedo. Abre às 10h e fecha às 18h. (verifique horários alternativos aos finais de semana/feriados).

Arsenale

Sugiro começar pelo Arsenale, pois é o maior e com mais quilômetros de arte.

Se você estiver hospedado próximo a Praça San Marco, ao invés de pegar um vaporeto (barcos que são meio de transporte público utilizado em Veneza) saia caminhando pelo canal grande (Gran Canale) até o Giardini, uns 20min bem devagar, ou vá direto para o Arsenale (a entrada está em uma rua à esquerda do canal grande, um pouco antes de chegar ao Giardini), só esta caminhada já vale muito a pena, pois você encontrará diversos palacetes, parques e espaços dedicados a arte contemporânea. Uma cidade viva.

ARSENALE

Com 79 artistas este pavilhão é imenso. Quando você acha que acabou, não chegou nem na metade. São trabalhos fortes, que mostram muito a profusão de cores, onde a imagem do negro é muito utilizada, explorada. Parece estranho, mas é lindo. Você vai viver momentos interessantes então? Sim, vai. Apesar de bem sombrio, em alguns momentos, em filmes (que são muitos nos mais diversos formatos) é fascinante ver artistas tão diferentes, de realidades tão distantes, mostrarem seus devaneios, suas dores e amores. O som ambiente que você ouve ao entrar é característico de qualquer bienal, inclusive da nossa, a Bienal de São Paulo, a segunda no ranque mundial.

Arsenale
Escultura de Lorenzo Quinn

Neste imenso galpão onde se concentra o Arsenale, logo na entrada você encontra um espaço para guardar seus pertences, armários com chaves (para mim foi ótimo, pois deixei mochila que já estava superpesada) e pude caminhar sossegadamente entre os diversos artistas escolhidos por Rugoff.

Neste pavilhão gigante, você vai pular de espaço em espaço, descobrindo nichos, se enveredando pelos limites das obras expostas. Com muitas instalações, vídeos e filmes. Fotos, esculturas e mais instalações. Se deixe levar pelo labirinto de ideias. Depois que passar por um canto de descanso com um pequeno restaurante, e uma fonte ao meio (que também é arte, diga-se!), nem pense em desistir. Você chegou na metade. Acho. Saia.

Pela ruas de Veneza

Respire. Volte. Use os carrinhos de golf, que ficam à disposição do visitante, basta ter paciência, e esperar, pois os caminhos são longos. Os italianos que trabalham na mostra são super receptivos (ao menos foram comigo!). Neste momento você já estará na instalação do artista suíço-islandês, Christoph Buchel, que trouxe um grande navio, que foi recuperado com o proposito de conscientizar sobre a imigração clandestina. Este navio, que levava mais de 1 mil refugiados, naufragou, restando somente 22 sobreviventes. Continue andando passando pelos sons de Tomás Saraceno, e não deixe de atravessar o canal para ver a mega escultura de Lorenzo Quinn. Vale a pena o esforço.

GIARDINI

Giardini

Sim. Este espaço é um imenso jardim. Com árvores centenárias, só de passear por ele você já se sente encantado. É aqui que fica o prédio principal. A Biennale di Venezia, inaugurada em 1896, faz desta a maior e mais importante e influente do mundo. No pavilhão dito como o primeiro, você dá de cara com a instalação da artista italiana, Lara Favaretto, “Thinking Head”, onde o que acontece é uma fumaça que sai do telhado do prédio, uma alusão ao impermanente.

Pintura de Jill Mulleady

 

Fiquei encantada com a pintura forte de Jill Mulleady. Essa jovem artista me fez parar um bom tempo para admirar o seu trabalho forte, contundente, quase obsceno, retratando cenas urbanas animalescas, às vezes normais, noutras bizarras. Ela usa e abusa do azul e do verde, reforçando a dramaticidade das obras. Você fica procurando detalhes, e um que descobri, era ela na tela (a que tira a lente do olho, ou estaria ela colocando?) Com dupla nacionalidade (Suíça/Uruguaia) vale prestar atenção nesta artista.

Giardini

Giardini

 

Neste jardim das artes você encontra 29 pavilhões de diversos países, incluindo o Brasil, que não faz feio nesta edição, mas deixa vários brasileiros que visitam de queixo caído. Explico. O que o Brasil mostra nesta edição da Bienal, foi curado por Gabriel Pérez-Barreiro, da 33ª Bienal de São Paulo, que escolheu a dupla Barbara Wagner e Benjamin de Burca (só o nome da dupla já dá um bom caldo!) para montar uma individual no pavilhão brasileiro da Bienal de Veneza. É um filme, mostrado em loop (sem parar), swinguerra, conta a estória de três grupos distintos de dança da periferia do Recife: “extremo”, “La Máfia” e “Do passinho”. Nichos, desapercebidos, quase invisíveis da sociedade, estes jovens se desdobram em cenas muito bem coreografadas, orgânicas. O elenco escolhido, dançarinos, meninos e meninas de 15 a 25 anos, enfim, jovens que vem acontecendo na periferia, à margem da sociedade, mas que contêm um enorme talento. Foram descobertos por estes diretores mostrando um trabalho quase que documental, mesmo sendo ficcional. Todos arrasam, mas o brilho especial vem da artista principal, que com seu carisma, corpo, swingue e tudo mais, domina a cena e você não consegue tirar o olho dela. Devo dizer que fiquei emocionada. Incomodada no início, mas ao final de ver tudo, achei a escolha da curadoria brasileira bem ousada. De tirar o folego e sair da mesmice. Do café com leite. Tipo, aceita que dói menos.

Instalação em outros espaços

Você terá diversos pavilhões, como já lhe disse, para refletir, mas chega uma hora que você não aguenta mais dar um passo, pois uma bienal dessa magnitude, não é para fracos. Saia para relaxar, se tiver sorte como eu tive, não estará chovendo. Os jardins são agradáveis para se deitar, observar as pessoas, curtir o clima de arte, ou seja, respirar arte literalmente. Aproveite. Pode até tomar um sorvete.

O pavilhão da Bélgica é uma grande surpresa (veja os vídeos), com sua cidade de bonecos com típicos personagens intitulada “Mundo Cane”, bem divertido e meio assustador. O Japão super tecnológico, e a Dinamarca, na pegada do ecológico e seu design marcante.

Giardini – Pavilhão da Rússia

Para completar, o que eu mais gostei, um dos que mais me impactaram foi o Pavilhão da Rússia, com suas esculturas barrocas feitas de barro, e vídeos com fogos, remetendo a um mundo hostil. Passado e futuro juntos no presente. Foi um dos espaços que mais me fascinaram, onde fiquei um bom tempo vendo os detalhes, que em muitas partes está na escuridão. Uma união do antigo com o novo. Uma experiência gratificante.

Enfim, se você tiver a sorte e o amor como eu pela arte, vale a pena investir um tempo e dinheiro para conhecer esta, que não deixa nada a desejar, Bienal de Veneza. Corre. Acaba em 24 de novembro. (comecei e terminei com a mesma informação, percebeu?).

Solange Viana
Jornalista, galerista e colunista de Arte para Jornal d’aqui

Foto em destaque: Escultura de Lorenzo Quinn

Veja alguns vídeos da Bienal de Veneza 2019:

Pavilhão do Brasil:

SWINGUERRA:

Lorenzo Quinn | Escultura monumento:

Jill Mulleady

Pavilhão da Rússia

Mondo Cane | Pavilhão da Bélgica

Algumas impressões

 

Sobre o autor

Solange Viana

Solange Viana é jornalista e galerista. Mora na Granja Viana há 12 anos. Possui uma microempresa de Assessoria de Imprensa & Comunição, especializada em cultura com destaque nas áreas de artes plásticas, cinema, arquitetura e design. Há 5 anos inaugurou um espaço dedicado a cultura na Granja, a Galeria de Arte e Fotografia Solange Viana, que tem como um dos objetivos principais, mostrar a arte dos moradores daqui.

http://galeriadearteefotografiasolangeviana.blogspot.com

2 Comentários

  • Muito rica a reportagem de Solange Viana! Obrigada, Sol! Eu que estive na 57a. sei bem o que são os quilômetros a percorrer e as profundas impressões motivadas pela diversidade dos olhares deste mundão de hoje. Assim, podemos continuar a acreditar na inventividade e capacidade de regeneração do ser humano… e a arte, salva!
    Salve a Arte!

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