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Caminho dos Faróis: as aventuras de uma caminhante

Escrito por Sílvia Rocha

De 31/1 a 9/2/2020

Partimos de Capilha. Início do Caminho dos Faróis

Para mim, o Caminho dos Faróis foi um grande desafio. Nunca tinha feito uma caminhada de tantos dias e de tantos quilômetros (8 dias de caminhada e 190 km a serem percorridos).

Sempre fui apaixonada por caminhar e sempre gostei muito de caminhar na praia.

E caminho várias vezes por semana, perto da minha casa, com uma grande amiga. Nada além disto.

Eu senti muita conexão quando soube desta Caminhada; depois li o roteiro, entrei no site, vi fotos maravilhosas e convidativas.

Tudo me chamava para o Caminho pelos faróis do Rio Grande do Sul, e a caminhada de 190 km de Capilha até Barra do Chuí. Uma jornada de 10 dias.

Agradeço a Deus por ter me dado coragem para participar desta aventura, desta experiência inesquecível.

Duas Silvias. Ao fundo, Farol do Albardão

No topo do Farol do Albardão

Nosso grupo foi uma experiência à parte. Havia caminhantes experientes e muito “rodados”. Para se ter uma ideia, a mais experiente caminhou, só no ano passado, 2.500 km. Outra, tinha um ritmo bastante acelerado, que fazia parte do seu caminhar. O importante é que estávamos lá, juntos, para viver uma experiência e ter aprendizagens grupais e individuais, e éramos muito mais unidos pela cooperação do que pela comparação ou competição. Isto foi surpreendente. Cada qual do seu jeito, com seu próprio caminhar, com o seu ritmo. As duplas, trios, quartetos, os caminhantes sozinhos, tudo isto ia variando de percurso a percurso. Nossos dois guias também se revezavam e, importante, sempre um deles estava a zelar daquele ou daqueles que estavam por último, em determinado trecho.

E assim fomos, alguns e alguns dias, com dores, outros com bolhas nos pés, outros mais cansados, outros energizados. Alguns caminhavam apenas meio período, dia ou outro, para se refazerem. E assim fomos nos conhecendo, explorando nossos limites, dificuldades e expertises. Eu descobri uma força de vontade que desconhecia ou que não me lembrava mais de sua existência. E ela estava apenas adormecida. Talvez, desativada!

No acampamento

Banho de canequinha, fazer necessidades básicas nas dunas, por exemplo, ou na “barraca- banheiro”, coisas que deveriam ser as mais naturais para mim, foram objeto de, digamos, reaprendizagem. Árdua, por sinal.

Dormir em barracas já foi menos penoso, no meu caso, por estar tão cansada no final de cada dia de caminhada. Nossas barracas eram quase sempre montadas sobre a areia. Pedra sobre areia: era assim que a Sílvia Rocha dormia! Caía como uma pedra no meu saco de dormir.

Fomos abençoados por presenciar o sol nascer e se pôr praticamente todos os dias. Espetáculos estupendos e inesquecíveis. A lua, o céu estrelado, andorinhas voando por sobre o acampamento…

Ah! O pôr-do-sol!

As músicas e os áudios inspiradores logo pela manhã e nossa cantoria após o jantar… o acampamento nos fazia mais e mais unidos. As brincadeiras e piadas surgiam, tinha dias de eu chorar de tanto rir.

Chimarrão, nosso companheiro de caminhada

E o chimarrão, para mim, foi a surpresa do caminho, juntamente com os butiás, frutinhas amarelas típicas da região. Não conhecia ambos!

Para relembrar os bons momentos, e em homenagem ao grupo, comprei um “kit-chimarrão”: a cuia, a bomba e a erva-mate: um brinde quente aos caminhantes!

Nossa caminhada foi praticamente toda à beira-mar. Apenas nós… os caminhantes, seus passos, o vento, o barulho do mar, a beleza do mar, das ondas a quebrar, a areia, as dunas… gaivotas e outros pássaros em migração a nos acompanhar. 

Caminhamos por algumas áreas remotas e inabitadas… nós e a natureza… a natureza em nós…

A figueira centenária na Reserva do Taim

Certo dia, fizemos uma limpeza num trecho da praia. Em cerca de meia hora, enchemos um saco de 100 litros: garrafas plásticas, de vidro, pedaços grandes de plástico, borracha, embalagens longa vida, cordas, galões de plástico resistente; caixas de papelão… acredito termos coberto apenas uma área de 1000 m2. Ficamos atônitos com a quantidade de lixo por metro quadrado! Um “mantra” que criei, e cantava, enquanto fazia a limpeza: Limpo fora, limpo dentro, limpo tudo agora!

Ao longo do Caminho, contei dez tartarugas marinhas adultas, na areia, alguns peixes e dois leões marinhos adultos: todos mortos, na praia. O luto da vida marinha também fez parte da nossa experiência.

Vi um sem número de conchas maravilhosas: a vida colorida e diversa espalhada por sobre as areias da praia. Deixando suas marcas. E lembranças.

No final, Fernando nos lembrou de que precisamos de tão pouco para viajar: 14 pessoas, por dez dias, e tudo coube em 2 “jeeps”, sendo que, um deles, com uma carroceria-cozinha.

Fernando é o idealizador do Caminho dos Faróis, um apaixonado pelo Caminho e por suas raízes gaúchas, e um entusiasta de compartilhar a experiência, sempre única e intransferível. Acompanhado de seu filho Tiago, nos guiaram por todo percurso. A equipe de apoio foi incrível: todos comprometidos e extremamente profissionais, cuidaram dos nossos acampamentos (montagem e desmontagem), transporte de nossas bagagens (opcional), de nos dar apoio ao longo da caminhada, e dos nossos deliciosos café da manhã, lanche de trilha e jantar. Tudo simples, aconchegante e com muito afeto.

Vento nas dunas

Nas dunas, protegidos do vento

Os percursos são incríveis, caminhada por uma das mais extensas praias do Brasil, a praia do Cassino, caminhar por dunas (Oh! Eu não sabia que havia dunas no Rio Grande do Sul!), nadar em arroios (palavra que tive de buscar no dicionário), conhecer uma reserva (A Reserva do Taim), deparar-me com figueiras centenárias, sítios arqueológicos… e os faróis… os lendários faróis que se tornaram realidade diante dos meus olhos: Sarita; o Farolito desativado Verga; Albardão e, finalmente, o Farol do Chuí. O penúltimo, no qual subi mais de duas centenas de degraus, e mais de uma centena, no último, de onde pude avistar a fronteira Brasil-Uruguai, lá de cima. 

Ei-lo! Farol do Chuí

Subindo o farol

Quem caminhou todo o percurso atingiu 200 km. Eu, que usei o apoio  algumas (abençoadas e providenciais) vezes, calculo que caminhei uns 160 km. Quem e o que me ajudou? O grupo, sem dúvida. Fernando, o meu maior incentivador. O vento, a meu favor. Os bastões de caminhada. As dicas de procedimentos e acessórios, especialmente para os pés. Sim! A minha força de vontade e motivação internas me ajudaram a chegar lá.

 

Chegamos, juntos, todos juntos, à  Barra do Chuí.

No Farol do Chuí.

Com uma chuvinha fina e muita união e alegria no coração, chegamos todos, juntos, nos sentindo como irmãos.

Como dizia o poeta português:

 “Valeu a pena?

Tudo vale a pena

Se a alma não é pequena…”

 E a ele, eu responderia:

 Quem quer chegar até o Farol do Chuí

Tem de caminhar, persistir e persistir

 E o autor do poema “Mar Português” provavelmente complementaria:

 “Deus ao mar, o perigo e o abismo deu

Mas nele é que espelhou o céu.”

 E eu, talvez, arriscaria e finalizaria:

 E também nos deu estrelas, luas e sóis

E o incrível Caminho dos Faróis.

Fotos: gentilmente cedidas por todos os participantes do Caminho dos Faróis jan/fev 2020

Foto em destaque: Ao fundo, o Farol Albardão

Sobre o autor

Sílvia Rocha

Sílvia Rocha mora na Granja Viana desde 1994.
É graduada e mestre em Comunicação Social – Jornalismo – pela Escola de Comunicações e Artes da USP.

Pratica o haikai – micropoemas de origem japonesa, inspirados na natureza – desde 1984. Publicou a segunda edição de Estação Haikai e Gestação Haikai, pela editora É selo de língua, 2015. Ganhou o Concurso de Poesia Falada do Café das Flores e da Revista Escrita com As Quatro Estações do Ano, em 1987.

Escreve matérias, artigos e crônicas para veículos impressos e virtuais. Foi selecionada pelo Edital do ProAC 18/2019 - Programa de Ação Cultural da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Estado de São Paulo - voltado à publicação de livros de poesia, com a obra “matutu do - por onde caminho”, um livro de haikais sobre o Vale do Matutu, que fica no sul de Minas Gerais. O livro será lançado este ano. Também trabalha no desenvolvimento de seus quadros poéticos, integrantes de seu projeto Põe Poesia.

Site: www.silviarocha.com.br

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