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Considerações sobre o “Reserva Raposo”

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Escrito por Redação

Por: Antonio Castelo Branco Teixeira Junior (*)

Desde 1993, percorro frequentemente a Rodovia Raposo Tavares no trecho entre a cidade de São Paulo e a Granja Viana, bairro periférico de Cotia. Apesar de não morar mais na região, boa parte de minha família ainda permanece por lá.

Ao longo dos anos, tenho acompanhado uma rápida transformação desta região e de seu entorno, resultante de um tipo de adensamento territorial geralmente desprovido de infraestruturas adequadas.

Mais recentemente, me deparei com mais um prenúncio de maltrato à região: a construção do megaempreendimento imobiliário Reserva Raposo, na altura do 18,5 km. Este projeto prevê a construção de um bairro planejado com quase 18 mil apartamentos, que abrigarão mais de 60 mil novos habitantes.

Imagine-se só a quantidade de novos veículos proveniente deste bairro, desembocando diretamente na Rodovia Raposo T[r]avares!

Relacionado à escala urbana, o futuro “Reserva Raposo” tem o tamanho de uma cidade: seu impacto na mobilidade e na qualidade de vida da vizinhança já vem gerando numerosas manifestações contrárias por parte de moradores dos três municípios mais próximos, São Paulo, Cotia e Osasco, diretamente afetados pelo empreendimento.

Embora eu reconheça sua relevância do ponto de vista habitacional, receio que este megaempreendimento acarretará danos irreversíveis nas dinâmicas da região. O impacto ambiental, com o desmatamento e a movimentação de terra, já vem cruelmente afetando, desde o início das obras, a fauna e flora local.

Fonte: Dossiê 2ªEd. “A Devastação da Mata Atlântica no Município de São Paulo” Gab. Vereador Gilberto Natalini p.126-127. (27/03/2020)

A repercussão sobre a vizinhança impõe, com extrema urgência, a realização de mais debates sobre os possíveis efeitos e contrapartidas, entre os quais há a necessária readequação das vias próximas ao local do projeto, além da questão do acesso coletivo aos equipamentos previstos no empreendimento e a imprescindível compensação ambiental.

Após três anos de obras e uma intensa batalha judicial, o “Reserva Raposo” realizou neste outubro a entrega das primeiras 600 unidades habitacionais.

Lembro-me que, por um período, o megaempreendimento teve sua licença ambiental anulada após inquérito de ao menos três ações civis, que interpelavam seus impactos ambientais e urbanísticos na região, além de suas repercussões sobre a vida da vizinhança. Uma das ações que punham em questionamento a obra foi a proposta do vereador de São Paulo Gilberto Natalini. Sua argumentação colocava em dúvida a validade do licenciamento da obra: de acordo com o parlamentar, a licença ambiental foi outorgada pela Prefeitura de São Paulo; todavia, como parte do terreno fica na cidade vizinha, Osasco, a autorização do empreendimento deveria ter sido concedida pelo Governo do Estado.

Concordo que a demanda de moradia é uma questão relevante, mas desconsiderar a legislação ambiental vigente e as especificidades socioambientais da região constitui um grave ataque a uma ambiência urbana mais desejável. Sabe-se que o Plano Diretor da Capital busca estimular a ocupação do Centro. A densidade do “Reserva Raposo”, em contraposição, colabora com uma política urbana ultrapassada de espraiamento da cidade, que pouco leva em conta questões como a sustentabilidade e a funcionalidade ecológica.

O que nos resta, agora, é apoiar a vizinhança para que ela seja ouvida. O diálogo com a comunidade local é essencial, numa tentativa de compatibilizar as razões do empreendimento aos diversos interesses e ao bem estar dos demais moradores da região.

Quem sabe, assim, conseguiremos progredir na busca da infraestrutura adequada para propiciar a implementação de um adensamento equilibrado, que respeite os fluxos de trânsito e preserve os poucos resquícios de patrimônio ambiental que ainda sobrevivem no local.

Continuo, portanto, na torcida pelo engajamento comunitário na articulação das aspirações deste novo bairro-cidade. Ainda há grandes desafios a vencer!!!

(*) Antonio Castelo Branco Teixeira Junior
Ex-Granjeiro, Arquiteto e Urbanista,
Assessor de urbanismo do vereador Gilberto Natalini

Em destaque: Fotografia Aérea (18/04/2019)

Sobre o autor

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Redação

O Jornal d'aqui digital é uma prestadora de serviços que atua com comunicação na região da Granja Viana, Cotia (SP). Nasceu originalmente em 1979 como mídia impressa e assim atuou durante 35 anos. O formato atual surgiu a partir de um movimento de amigos/leitores inconformados com o encerramento de suas publicações.

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