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VIVA A PRIMAVERA!

Escrito por Sílvia Rocha

A estação entre o inverno e o verão é a mais colorida de todas.
É com muita alegria que nos despedimos do inverno para ingressarmos, no dia 23 de setembro, nela: a primavera!

Na primavera, os dias são longos, comparados com os do inverno e há muito vento durante o dia. O inverno, que é uma estação mais silenciosa, precede a primavera que, quando chega, traz consigo os sons da natureza: os encantadores sons das águas nos campos e nos vales, das cotovias no céu azul e dos pássaros nos bosques.

Mesmo tendo as estações mais mescladas e menos definidas no Hemisfério Sul, podemos perceber a primavera chegar na Granja Viana, colorindo nossa região com ipês frondosos por toda parte; camélias; azaléas; marias-sem-vergonha; flores de São Miguel, todos os jardins e vasos de flores desabrochando ao mesmo tempo: ruas, praças e casas em festa!

Alguns poemas e letras de músicas chamam a minha atenção por mencionarem ou reverenciarem a primavera.

Obras de arte usando a palavra em sua vigência máxima, segundo o grande poeta Paulo Leminski (1944-1989).
Vamos a eles!

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inverno
primavera
poeta é
quem se considera

Paulo Leminski

Quatro versos, duas estações do ano e o grande poeta.

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Primavera

Quando o inverno chegar
Eu quero estar junto a ti
Pode o outono voltar
Eu quero estar junto a ti

Porque (é primavera)
Te amo (é primavera)
Te amo, meu amor

Trago esta rosa (para te dar)
Trago esta rosa (para te dar)
Trago esta rosa (para te dar)

Meu amor
Hoje o céu está tão lindo (vai chuva)
Hoje o céu está tão lindo (vai chuva)

Hoje o céu está tão lindo (vai chuva)
Hoje o céu está tão lindo (vai chuva)

Tim Maia

Para abrir a primavera, nada como evocar a canção de Tim Maia e deixar ela chegar também com música!

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em breve
verão
a primavera

Júlia Rocha

Aqui um haikai¹ que dialoga com duas estações do ano em três versos enxutos.

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Desenho

Fui morena e magrinha como qualquer polinésia,
e comia mamão, e mirava a flor da goiaba.
E as lagartixas me espiavam, entre os tijolos e as trepadeiras,
e as teias de aranha nas minhas árvores se entrelaçavam.
Isso era num lugar de sol e nuvens brancas,
onde as rolas, à tarde, soluçavam mui saudosas…
O eco, burlão, de pedra em pedra ia saltando,
entre vastas mangueiras que choviam ruivas horas.
Os pavões caminhavam tão naturais por meu caminho,
e os pombos tão felizes se alimentavam pelas escadas,
que era desnecessário crescer, pensar, escrever poemas,
pois a vida completa e bela e terna ali já estava.
Como a chuva caía das grossas nuvens, perfumosa!
E o papagaio como ficava sonolento!
O relógio era festa de ouro; e os gatos enigmáticos
fechavam os olhos, quando queriam caçar o tempo.
Vinham morcegos, à noite, picar os sapotis maduros,
e os grandes cães ladravam como nas noites do Império.
Mariposas, jasmins, tinhorões, vaga-lumes
moravam nos jardins sussurrantes e eternos.
E minha avó cantava e cosia. Cantava
canções de mar e de arvoredo, em língua antiga.
E eu sempre acreditei que havia música em seus dedos
e palavras de amor em minha roupa escritas.
Minha vida começa num vergel colorido,
por onde as noites eram só de luar e estrelas.
Levai-me aonde quiserdes! – aprendi com as primaveras
a deixar-me cortar e a voltar sempre inteira.

Cecília Meireles, in ‘Mar absoluto e outros poemas’ Poesia Completa, Vol. 1, pag. 230.

Este poema me emociona sobremaneira. Toda a descrição que Cecília Meireles faz da sua infância vai se desenrolando, até que chega no final surpreendente. Acho bonita a leitura dos sentidos em relação às primaveras – estação – e às primaveras – flor. Que linda a imagem da força do renascimento que a primavera nos traz. A possibilidade de renascermos, de nos reinventarmos!

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As nuvens douradas
Flutuam no Pantanal:
– florada de ipê

Masuda Goga

Relata o autor o contexto do seu poema: “No início de setembro de 1975, fiz uma viagem pela região do Pantanal Matogrossense. E tive a grande sorte de avistar a paisagem fantástica do ipê em flor. A floração do ipê estendia-se por quilômetros quadrados.”

Imagine só que privilégio ver o anúncio da primavera em quilômetros quadrados de ipê em flor!

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primavera
mergulho na ilha
bela

Sílvia Rocha

Este poema faz parte da série As quatro estações do ano, que foi premiada no Concurso de Poesia Falada da Revista Escrita e do Café das Flores, em 1987..

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Quando Vier a Primavera

Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma

Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.

(Poemas Inconjuntos, heterônimo de Fernando Pessoa – Alberto Caeiro)

Só de colocar a primavera em letra maiúscula…
Ah! Fernando Pessoa!
Que tratado sobre a impermanência!

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[¹] Micropoema de origem japonesa, de três versos, inspirado na natureza.

Foto em destaque: pinterest

Sobre o autor

Sílvia Rocha

Sílvia Rocha mora na Granja Viana desde 1994.
É graduada e mestre em Comunicação Social – Jornalismo – pela Escola de Comunicações e Artes da USP.

Pratica o haikai – micropoemas de origem japonesa, inspirados na natureza – desde 1984. Publicou a segunda edição de Estação Haikai e Gestação Haikai, pela editora É selo de língua, 2015. Ganhou o Concurso de Poesia Falada do Café das Flores e da Revista Escrita com As Quatro Estações do Ano, em 1987.

Escreve matérias, artigos e crônicas para veículos impressos e virtuais e conduz a oficina Haikai: universo em três versos em grupos, individualmente, presencialmente e à distância.

Site: www.silviarocha.com.br

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