Geni Albuquerque Jardinagem

Entre cobras e lagartos

Escrito por Geni Alburquerque

Muitas coisas interessantes, curiosas e assustadoras acontecem quando decidimos sair do meio urbano e se instalar na Granja Viana e região.

Uma delas, é que, como invadimos e destruímos o ecossistema para construirmos a nossa casa, alguns de seus integrantes aparecem acuados em locais escuros, pouco utilizados no dia-a-dia e em lugares de pouca movimentação.

Enquanto admiramos a beleza contida em insetos e pássaros coloridos e pouco conhecidos, ao mesmo tempo, visitas aparentemente aterrorizantes deixam a impressão de que desejam tomar de volta o espaço que lhes foi tirado.

O medo só existe quando o desconhecido imprime sua marca através dos boatos, mitos, mentiras, ditos-por-não-ditos, fake news que atravessam gerações se impondo como verdade absoluta.

Ao conhecer um ecossistema ou se conscientizar de que ele existe, você transforma na prática, o primeiro passo significativo para a convivência tranquila com um mundo totalmente diferente daquele a que você já está mais do que habituado, em realidade instantânea.

Réptil?

Muita gente fica arrepiada só de imaginar alguém rastejando por perto, afinal é uma maneira de se locomover muito diferente do que vemos na cidade.

Lagartixas e Lagartos:

Podemos treinar o nível de tolerância que temos pelo que é muito diferente de nós, como humanos, com uma divertida e transparente Lagartixa ou Hemidactylus mabouia.


.
Alguma vez, você percebeu a maneira como ela se movimenta, dá o bote naquele inseto e depois o engole, deixando ou não, as asas de fora?

Não precisa tocar nela para saber que de fato ela existe, particularmente, gosto dos olhos que ficam bem quietinhos, mas que enxergam tanto o alimento, quanto tudo que está ao seu redor a uma distância notável.

Com um apetite voraz por pequenos insetos, aranhas, gafanhotos, baratas, cupins e tantos outros, dificilmente você vai se lembrar de que inseticidas, repelentes, dengue e febre amarela existem quando elas estiverem por perto.

Por outro lado, é muito interessante e útil conhecer um representante do mundo réptil, e como contribuem silenciosa e positivamente para que você tenha uma noite tranquila.

Se camuflagem para você sempre foi uma estampa que de vez em quando aparece em desfiles de moda como tendência para a próxima estação, vai rapidamente perceber que não é tão simples topar com um réptil.

E quando você está admirando as flores que plantou no jardim e descobre que tem um Lagarto enorme te observando há muito tempo?

E para puro deleite, tomando sol com um filtro solar natural poderoso no seu lugar?

O Tupinambis merianae possui um cardápio mais amplo, tipo, roedores, cobras, ovos que não se transformaram em pássaros, jabutis e outros…

Cobras?

Infelizmente, tive a oportunidade de conhecer apenas, três espécies e olha que estou sempre procurando por elas no jardim.

Raramente, tenho a sorte de perceber sua presença em locais inusitados como a piscina.

Esta pequena Sibynomorphus mikanii, popularmente conhecida como Jararaca-dormideira e invariavelmente confundida com um filhote da temida Jararaca, já foi abundante por aqui.

Ela não é peçonhenta e perigosa, está longe de ser agressiva e nos ensina a ter resiliência, gostando de visitar hortas, apenas porque é lá que se encontra seu alimento preferido, Lesmas.

O que provoca a confusão é a semelhança do padrão gráfico de sua pele, preferindo como alimento, lesmas, caracóis e mesmo quando atacada pela Cuíca-de-três-listras ou Monodelphis iheringi, um de seus predadores naturais, dificilmente reage.

Sua contribuição por preservá-la é manter as hortaliças inteiras para que a sua futura salada seja saborosa e saudável.

Cobras são vulneráveis a céu aberto e entram em pânico procurando se abrigar em qualquer lugar em que se sintam protegidas, como esta Philodryas olfersii ou Cobra-verde.

Encontrá-la é quase como ganhar um presente inusitado.

Outra serpente temida pela confusão, é a Cobra-coral, lindíssima, elegante e extremamente reservada.

Se um dia você vier a ser premiado com a visita de uma cobra, deixe o xilique de lado, pegue uma vassoura e apenas a direcione para a saída mais próxima, porque pode ter certeza, de que ela não está satisfeita por ter perdido o caminho de casa e na sua, ela jamais encontrará alimento natural.

No caso delas, podemos dizer que possuem um apetite gourmet extremamente diferente do seu.

Matar acreditando que está protegendo a sua família?

Melhor nem vir para cá, porque elas chegaram primeiro e enquanto existirem circularão livremente por direito.

Capturar e levar para o Butantã?

Risível imaginar uma pessoa que tem pavor de cobras, em horas na Raposo dentro de um carro.

Pensando bem, deve servir como terapia, afinal temos que encarar nossas fobias e manias, certo?

Talvez, a família dos Jabutis e tartarugas, aparentemente assuste menos, mesmo sendo tão pré-históricos quanto os que citei nesta matéria.

Eles não são muito exigentes em relação ao que comem e possuem um comportamento interessante.

Quando uma tempestade está para acontecer, eles procuram um canto escuro para dormir, no dia seguinte, saem felizes para tomar sol e comer as minhocas que saíram da terra e grudaram no piso da varanda.

Assim como as cobras e lagartos, outros répteis, primatas, anfíbios, pássaros, aracnídeos e insetos, desconhecem fronteiras e é possível conviver com todos eles harmoniosamente por aqui.

Um dos maiores erros que as pessoas cometem é tentar domesticar, tocar e/ou aprisionar animais silvestres para ter um controle sobre tudo e todos.

Lembre-se que da mesma maneira que você procurou a liberdade por aqui, a fauna silvestre merece se manter livre.

Fotos e vídeos: Geni Albuquerque  

Sobre o autor

Geni Alburquerque

Autodidata multidisciplinar. Sócia-proprietária da Taúna e consultora em paisagismo ambiental e jardinagem.

Blog: qualidadedevidaejardim.blogspot.com.br

Facebook:
• https://www.facebook.com/qualidadedevidaejardim
• https://www.facebook.com/Paisagismo-e-jardinagem-por-Geni-Albuquerque-393059724187938

2 Comentários

  • Olá Geni, tudo bem ? Moro na Granja e estou tendo problemas com cobras no meu quintal! O pânico é pq tenho um filho de 2 anos…o que posso fazer ?

  • Olá Sara, tudo bem?
    Entendo a sua preocupação, uma vez que, a primeira cobra que encontrei no quintal, foi o meu primeiro filho que mostrou, também com a idade do seu.
    Algumas perguntas precisam de respostas, por exemplo:
    Existe algum terreno próximo que sofreu roçada ou limpeza recentemente?
    Se a resposta for positiva, provavelmente a cobra fugiu do terreno e estava de passagem pelo seu quintal quando foi avistada.
    Você tem algum depósito em que guarda o que não está sendo usado?
    Se a resposta for positiva, este local pode estar abrigando ratos e a cobra está procurando algum para se alimentar.
    Seria muito interessante se você pudesse fotografar ou registrar em vídeo esta cobra para saber sua identificação e se é peçonhenta.
    Cobras são solitárias e raramente se expõem a céu aberto.
    Quanto ao seu filho, é um bom momento para explicar o que é uma cobra e orientar no sentido de que não deve ir atrás dela, apenas observar a direção que seguiu e chamar um adulto.
    Os meus filhos cresceram na Granja observando as diferentes espécies de qualquer animal que aparece por aqui e nunca tivemos acidentes em função do respeito que as crianças adquiriram para com os animais.
    Este é um diferencial na Granja Viana, a possibilidade de mostrar aos nossos filhos que nossas casas não abrigam apenas as pessoas.
    Espero tê-la tranquilizado e se conseguir uma foto da cobra, terei o maior prazer em ajudar com a identificação.
    Muito obrigada pelo seu contato.

Deixe um comentário