Daqui Heloísa Reis

Entre o Grotesco e o Sublime – uma reflexão

Escrito por Heloísa Reis

Quando no século XIX Victor Hugo preocupava-se em introduzir o conceito de drama na literatura romântica, não poderia ter imaginado que num país continental americano do sul – e em algumas outras localidades pelo mundo – estivéssemos diariamente frente à frente com inúmeras deformações: de pensamentos, de avaliações, de julgamentos, de propósitos, de atitudes e mesmo de formações de caráter.

Nesta nossa sociedade contemporânea herdeira de dois milênios plenos de transformações sociais, políticas, éticas e científicas ainda nos deparamos com situações e atitudes que nos fazem questionar as deformidades presentes nos rumos tomados pela humanidade.

Fato é que desde a Antiguidade encontramos traços do grotesco e da comédia – características muito afinadas – em figuras mitológicas como tritões, sátiros, ciclopes, sereias, fúrias, parcas, harpias…e outros. Que significavam? Como atuavam no imaginário das pessoas da época? Ameaçavam ou protegiam?

No princípio do século XIX essas figuras disformes reaparecem nas obras românticas de Victor Hugo, com o autor apontando o íntimo desses seres e suas qualidades que iam para além de suas deformidades. Nesses personagens e nas emoções que em nós provocam, reconhecemos um acesso às áreas mais obscuras de nossas almas: o medo, as paixões , os vícios.

Diz o senso comum que monstros são maus, e que se apresentam para serem combatidos. Mas também localizamos em diversas mitologias as figuras monstruosas como guardiões de espaços importantes: Cérbero, guardando os Infernos, Minotauro guardando o Labirinto, a Esfinge guardando os templos, a Serpente guardando o Paraíso. E sempre inspirando medo e respeito pela força.

No pensamento contemporâneo o grotesco tem aparecido de forma surpreendentemente frequente em vários campos: político, econômico, cultural… Mas podemos encontrar consolo em Hugo que em suas obras justificou a importância do disforme e do horrível justamente por sua contraposição ao cômico e ao bufo. Polaridades se atraem.

Será que essas teorias levantadas há tanto tempo podem nos ajudar a entender e superar o clima trágico que respiramos diariamente neste 2019? Estaremos vivendo uma paródia das tragicomédias do teatro antigo?

As mil superstições, os pensamentos pessoais sui-generis, as linhas de comportamentos superficiais, as negações quanto ao papel da ciência, o desprezo à poesia, a agressão à natureza, estariam semeando retrocessos inimagináveis a chifres, a pés de bode, asas de morcego e fogueiras de extermínio?

Ou seria essa visão do grotesco atual uma possibilidade de reconhecimento e transformação frente às deformidades e monstruosidades que se apresentam? Devemos buscar o bufo e continuar a traçar caminhos rumo ao Sublime?

Na galeria inesquecível de personagens repugnantes da História de nossa cultura humana haverá uma procura da Beleza e do Sublime.

Um processo meditativo sobre esse vasto assunto pode e deve ser por nós praticado diariamente, localizando o Grotesco onde quer que se apresente.

E, enquanto sociedade, cabe a nós mesmos reconhecermos a provocação e nos dispormos heroicamente a percorrer um caminho de busca das nuances dadas pelo encontro de nossos monstros internos que, como guardiões, fazem permanecer intactas nossas mais profundas qualidades. Estas devem ser acessadas através da criatividade, da astúcia, da união de forças . Chegar ao tesouro exige uma ação heroica.

Olhemo-nos profundamente. Olhemos ao mesmo tempo para o mundo. Religuemo-nos a nós mesmos. É possível!

Afinal Dante não apenas chegou aos Infernos, ele também fez por merecer a entrada no Paraíso.

Referência de leitura: “Convergências entre o sublime e o grotesco na arte … – Revista Udesc
www.revistas.udesc.br/index.php/palindromo/article/download/…/8515

Sobre o autor

Heloísa Reis

Artista visual e arte-educadora, pesquisa a linguagem da arte contemporânea e sua importância enquanto instrumento de transformação. “Pinta e borda”, constrói objetos e gosta de ler e escrever. Atua em grupos como MDGV, Transition da Granja e Grupo ArteJunto procurando aprender com eles a arte de refletir a cidadania.
www.encontrosheloisareis.blogspot.com

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