Redação Território

Entrevista com Fritz Berg

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Escrito por Redação
Fritz Berg, que faleceu no dia 10 de janeiro, deu sua última entrevista ao Jornal d’aqui em junho de 2014.  Figura proeminente da Granja Viana, deixará muita saudade…

 

Fritz Berg é um importante empresário. Alemão de nascimento, da cidade de Solingen, descendente de uma família com história e tradição de forjadores e espadeiros.

Mora na região há 42 anos.

O forjamento marca o início do trabalho do aço pelo homem. E Solingen, na Alemanha é conhecida como a “Cidade das lâminas”. Por centenas de anos foram os artesãos de lá os grandes produtores de lâminas de espadas e de vários outros tipos de utensílios para o resto da Europa. Os irmãos Weyersberg foram uns dos artesãos mais importantes na cidade e sua produção foi essencial para reforçar a grandeza da cutelaria alemã. Fundaram a empresa em 1787. A árvore genealógica dessa família se confunde com a história da cutelaria de Solingen e da tecnologia metalúrgica empregada no mundo.

No início do século passado, a família Berg ampliou a empresa para a América do Sul, África e resto da Europa, culminando na fundação de inúmeras filiais nesses continentes. O avô de Fritz foi o responsável em trazer a empresa para o Brasil, e seu filho o sucedeu, depois seu neto (o próprio Fritz) e agora seu bisneto (o filho de Fritz) é quem dedica-se à empresa.

Fritz e amigos

Fritz e amigos em 1979

Com seu inconfundível chapéu, Fritz sempre esteve envolvido com o trabalho na empresa e ao mesmo tempo nunca parou de criar. É um artista. Desde cedo, desenhava muito, “Era uma necessidade, como agora, trabalhar com cerâmica também é”. No dia 18 desse mês fará uma exposição na Galeria de Arte Solange Viana. Antes de prepará-la, nos recebeu para uma boa conversa, contando um pouco sobre sua vida e sua arte. Um grande prazer, afinal, falar de Granja é falar de seus moradores. E Fritz, sem dúvida é um dos maiores e mais carismáticos.

Jd’: Há quantos anos você mora na Granja?
Moro em Cotia desde 62 e me mudei para essa casa na Granja em 71.

Jd’: Você veio para Cotia por quê?
Vim por causa da fábrica. Meu avô veio para cá em 32, todas nossas raízes estão na Alemanha. Mas nessa época, em que aliás, Getúlio “namorava” as extremas direitas da Europa, a Alemanha recebia incentivo para trazer indústrias para cá. Foi assim que meu avô veio para o Brasil e instalou a empresa aqui.

Jd’: A família toda veio para cá?
Veio. Meu pai conheceu minha mãe na Alemanha e casaram-se lá. Eu nasci e viemos para cá em 48.

Jd’: Você nasceu em plena guerra?
Nasci em 42, em plena guerra. Depois, meu pai foi prisioneiro na Sibéria por seis anos, no mesmo ano em que voltou, no fim de 48 já estávamos aqui no Brasil. De 43 a 48, meu avô não teve notícias do meu pai. Meu avô era social democrata, gostava do socialismo, por isso que veio para cá. Meu pai já não era político. Ele adorava a praia, mas estava na Alemanha, na idade certa para servir e foi recrutado. Passei bastante fome na Alemanha, lembro bem.

Jd’: E você chegou no Brasil com seis anos de idade. Lembra quando chegou?
Sim. Viemos de avião. Lembro quando aterrissamos no Rio de Janeiro e no caminho para o hotel, passamos por uma feira. Aquele monte de fruta, a fartura de comida e a gente passando fome… Minha mãe começou a chorar! No dia seguinte viemos para São Paulo. Meus pais maravilhados, depois de tantos tempos difíceis, chegar aqui com tanta fartura, foi inesquecível!

Jd’: E em São Paulo você se adaptou bem?
Fomos estudar no Porto Seguro, e morávamos numa rua tranquila no Sumaré. Lá tinha uma turma boa, muita gente interessante. A Maria Duschenes, que dava aula de dança, muita gente de arte. Depois mudamos para a Afonso Bovero, em frente à Tv Tupi. Assistíamos aos programas ao vivo, aos concertos de piano. Foi um tempo muito feliz. Foi nessa época também que comecei a fazer aulas com a Yolanda Mohalyi (pintora húngara). Eu desenhava bustos, sempre tive jeito para desenho.Grupo de Desenho Fritz

Jd’: Quantos anos você tinha nessa época?
Uns dez, onze anos. Eu tinha também aula de cerâmica com a Elisabeth Nobiling.

Jd’: Então você cresceu num universo muito artístico?
Meus pais não eram de muita cultura. Meu pai trabalhava o tempo todo, até nas férias. A empresa estava prosperando. Ele levava canivete para a gente montar em casa. A vida dele era a empresa. E meu pai tinha também muita neurose da guerra, sofreu muito.

Jd’: E nesse momento você já pensava em trabalhar com seu pai?
Eu já estava todo programado para trabalhar na fábrica. E gostava! Com 19 anos eu fui para a Alemanha para fazer um curso técnico e pensava que seria uma maravilha. Meus pais sempre falavam de lá, maravilhados! Mas cheguei lá e…

Jd’: Se sentiu um peixa fora d’água…
Puxa vida… Demorou muito para eu fazer amizade…

Jd’: Pelo jeitão deles?
Pelo jeitão deles. Numa cidade pequena, você, estrangeiro, fica muito visado. Porque a cidade lá era luterana. Era todo mundo igual, loiro de olho azul. Aí mudei de cidade, saí de Solingen, onde minha família era muito conhecida e fui para outra onde tinha mais jovens. E eu trabalhava como peão. Trabalhava com um grego, um português e um espanhol. Aí tive a chance de conhecer uma pessoa que cuidava do Teatro e era conhecido da Pina Baush. Cheguei em Wuppertal e a conheci, assistia os espetáculos. Eu adorava! Meu amigo fazia a iluminação das peças e muitas vezes me chamava para ajudar. Foi muito boa essa época! Tenho amigos até hoje.

Jd’: E por quanto tempo permaneceu na Alemanha?
Fiquei por quase cinco anos. Aí voltei para o Brasil e vim trabalhar com meu pai aqui em Cotia. Até que brigamos e fui trabalhar em outra empresa, a Constant Eletrotécnica. Conheci a filha do chefe e casamos! Mas depois de três anos voltei para a empresa em Cotia, que crescia muito. Aí viemos morar aqui. Conheci vários amigos artistas que moravam na região. Mas aí, no final dos anos 80 eu estava muito envolvido com a empresa, meu pai ficou doente, acabou falecendo. Foi uma época em que não desenhava nada. Era toda a energia para a empresa.

Jd’: Aí teu filho já tinha nascido…
Sim, viemos para cá ele era bem pequeno. Teve uma infância feliz. Embora aqui na Granja fosse tudo um pasto! Não tinha árvores! Todo mundo fala que a Granja devia ser como era… Mas não tinha árvore! Eu acho que a Granja ficou bem mais verde do que era.

IMG_1533Jd’: Mas em grande parte, as pessoas são saudosistas também de uma maneira de se viver, não é? Vivia-se em comunidade. Era outra mentalidade, não?
Ah sim. Era muito bom! Eu ajudava a Shoko no forno dela, trazia aquelas luvas de forjador …

Jd’: Foi com ela que você começou a fazer cerâmica?
Não, foi depois. Quando tive o primeiro câncer e comecei a tremer, conheci a Sheila. (a ceramista Sheila Nachtigall). Uma amiga, a Bettina Papenburg me sugeriu a cerâmica porque já não conseguia desenhar. Me deu de presente um bloco de cerâmica e comecei as aulas na Sheila. O legal na Sheila é que até hoje tem uma turma bacana, pessoas muito criativas que se reúnem. O Antonio Cortada, a Mara Bravo, a Mali Tassler,… São pessoas com quem você pode discutir, trocar.

Jd’: E a Sheila sempre propiciou muito isso na Granja, não é? Não são apenas aulas e sim encontros entre as pessoas, um espírito de comunidade, de troca.
Exatamente! E mesmo a aula, um instiga o outro! É muito bacana. Mas foi esse câncer que mudou minha vida.

Jd’: O que veio primeiro quando soube do câncer?
Veio um medo enorme de morrer. Eu estava muito fraco. Depois me curei, queria voltar para a firma, vi que estava tudo certo e resolvi ficar fazendo minha cerâmica, vivendo em paz. Aí veio o segundo câncer e me tiraram o rim. E agora veio o terceiro câncer.
O que estou fazendo agora? Cerâmica. Faço as peças na Sheila, venho para o ateliê e monto. Tenho feito muitos aviões. Leio muito também. Estou em paz. E a firma está sendo tocada pela família.

Jd’: Sente falta de desenhar? O desenho para você era terapêutico?
Era uma necessidade. Quando eu ficava muito tempo sem desenhar, já ficava nervoso. Agora eu preciso ficar fazendo cerâmica. Eu sempre faço os aviõezinhos… Outro dia estava lendo Machado de Assis e me identifiquei. Tinha um camarada em mil oitocentos e tanto, um músico que sempre compunha uma modinha para as festas da sociedade. A cidade toda decorava a música e a modinha pegava, todas as bandinhas tocavam. Mas ele era um compositor de música clássica e ficava compondo, se dedicando mas ninguém queria saber! Queriam as modinhas. Assim é com os meus aviõezinhos.

fritz cavaleiros

Na Romaria de 1985

Jd’: E qual é tua “música cássica”?
Ando fazendo um negócio de entropia. O bule, com a energia saindo dele, por exemplo. Entropia é a energia que
você não põe de volta.

Jd’: Você por muitos anos acompanhou a Romaria de Caucaia, não foi?
Eu sou romeiro. Antes de eu ir para a Alemanha, meu mundo era muito europeu. Quando voltei para o Brasil, vim para Cotia. Nessa época, o

Katharina, sempre ao seu lado

Katharina, sempre ao seu lado

gado era descarregado em Itapevi e passava sempre em frente à fábrica, para ir para o Matadouro no Bairro do Portão. Passava aquela comitiva de gado, até que um dia, um boi caiu no barranco e o chefe da comitiva veio pedir ajuda. Fomos lá ajudar, o boi sofrendo pra xuxu, aí o Abelardo, o chefe, meteu o facão no pescoço do bicho. Para ele era a coisa mais normal do mundo, mas eu quase caí pra trás! “Ói, nós vamos voltar daqui a pouco para carnear o bicho pra não perder a carne”. Aí pensei: “Puxa, esse mundo eu não conheço!”. A partir desse dia, toda vez que a comitiva passava, o Abelardo vinha tomar um cafezinho. Ficamos amigos. Depois veio trabalhar na fábrica e foi ele que me convidou para ir à Romaria. A primeira vez foi em 71.

Jd’: Qual é a sua religião?
Sou Luterano de batismo e confirmação, mas me identifico com a igreja Católica. Minha mãe era Católica e me levava muitas vezes para a igreja quando eu era criança. Não tive formação religiosa em casa mas comecei a me interessar por religião, comecei a ler mais. Uma coisa esse Bom Jesus me ensinou: existe uma coisa que liga uma comunidade, uma crença, um comportamento. Eu também acho que as famílias religiosas têm menos briga, elas têm uma paz familiar maior. E minha família teve tanta briga, tantos casais se separaram… A minha família toda se despedaçou. A gente vê belas famílias por aí e em comum, têm a religião.

Jd’: Você disse que quando o câncer veio pela primeira vez, teve muito medo da morte. E agora, como é?
Hoje eu não estou muito preocupado. Eu fujo de problemas. Hoje é o primeiro dia do resto da minha vida. Tem uma música portuguesa que escutei outro dia que usava essa frase: “Hoje é o primeiro dia do resto da minha vida.”

Jd’: O que é a tradição para você?FRITZ BERG
É como uma bebida, para ser consumida com moderação.

Jd’: Vir de uma família com importância histórica, tão forte e tradicional foi determinante para as escolhas que fez na vida? Se sente em paz com essas escolhas?
Já pensei muito na importância histórica da minha família e me pendurava nela imaginando adquirir uma força. Isso nem sempre foi bom. Viver do passado só para procurar segurança não ajuda o futuro. O mundo está cada vez mais para ser vivido e acompanhado na atualidade.

fotos: Adi leite (para entrevista) e arquivo pessoal

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O Jornal d'aqui digital é uma prestadora de serviços que atua com comunicação na região da Granja Viana, Cotia (SP). Nasceu originalmente em 1979 como mídia impressa e assim atuou durante 35 anos. O formato atual surgiu a partir de um movimento de amigos/leitores inconformados com o encerramento de suas publicações.

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