Colunistas Daqui Geni Alburquerque

Família

Escrito por Geni Alburquerque

Se existem os cariocas da gema, sou a autêntica paulistana da clara.

O meu coração sempre pulsou forte pela dinâmica da megalópole, carinhosamente, apelidada de Sampa.

Ninguém nunca me perguntou o que eu vim fazer na Granja, eu mesma tratei de questionar como eu seria capaz de abrir mão de tantas facilidades para me enfurnar no meio do mato.

E foi por aqui, há 35 anos, que descobri o que significa na prática, felicidade, amigos, família, ar puro, silêncio, beleza natural, biodiversidade, solidariedade entre as pessoas e tantos outros aspectos reunidos no termo qualidade de vida.

Se antes eu percorria uma distância gigantesca para estar no meio da Natureza, na Granja, eu convivo com ela no dia-a-dia.

Se todos buscam a felicidade plena, tipo realização como mulher, cidadã, mãe e profissional, eu a encontrei por aqui.

Meus filhos cresceram brincando ao ar livre e quando foram para a pré-escola, era muito comum, nós, pais-corujas, chegarmos mais cedo para papear no portão, o que rendeu amizades valorosas que persistem através do tempo.

Quando uma mãe ou pai não conseguia chegar no horário determinado pela escola, acolhíamos as crianças em nossas casas e a saudade dos pequenos por seus pais se transformavam em festas embaixo das árvores que preservamos, plantamos e permitimos que a biodiversidade também plantasse ao nosso redor, construindo a nossa própria paisagem.

Se atravessei cenas surreais, tipo sem energia por vários dias e por consequência, sem água porque dependíamos de um poço caseiro, tendo que tomar banho em Sampa e carregar a roupa suja para uma lavanderia, uma vez que, não existia previsão de normalidade, aprendemos a importância e limitação dos recursos naturais.

O lixo precisava ser carregado no carro para ser transportado até um ponto de coleta para não ser jogado pela janela como acontece atualmente nas ocupações irregulares, o que me ensinou a ser responsável pelo que descartamos.

Tive que aprender humildemente sobre tarefas domésticas porque mão-de-obra qualificada preferia migrar para a cidade grande a caminhar quilômetros, sem calçadas, para trabalhar em minha casa e no jardim.

Se o telefone fixo foi um artigo de luxo, “Orelhão” não vandalizado e funcionando era como se ganhássemos na loteria.

Emergência?

Agradeço até hoje a solidariedade e prontidão de minha primeira vizinha que mesmo depois de nos socorrer, por ironia do destino, teve o seu carro roubado.

Os incêndios nas matas, em que pessoas desconhecidas que sequer moravam por estes lados, diziam que tentar apagar era inútil, mas que ajudaram inúmeras vezes, quando eu contava sobre os ninhos e filhotes.

Sou grata pelos braços fortes que algumas vezes tiraram o meu carro lotado de crianças pequenas do atoleiro.

Segurança??

Há muito tempo desenvolvemos técnicas que não foram suficientes para impedir que um caminhão nos levasse tudo, geladeira, fogão, eletrodomésticos portáteis, aparelho de som, nossa coleção de discos de vinil, nos deixando apenas com a roupa do corpo, ou quase isso.

Mais um aprendizado em nossa vivência por aqui: Ter e consumir apenas o necessário.

Trânsito???

Imagino que até hoje as escolas sejam lenientes em função dos atrasos provocados pela Raposo.

O amanhecer na rodovia sempre despertou em nós, sentimentos contraditórios do tipo, que espetáculo natural maravilhoso, mas por que estou parada dentro do carro a esta hora?!

Perceber que o carro sempre foi e ainda é um item básico e indispensável para qualquer atividade continua sendo revoltante e mais ainda, o quanto a imprudência dos motoristas faz vítimas inocentes.

Um privilégio de valor incalculável?

As estrelas no céu!

Poder mostrar as diversas constelações, a rara passagem de um cometa, diferentes tipos de eclipses e as alterações decorrentes das fases da Lua para as crianças, parentes e os amigos, sempre nos ofereceu momentos para diálogos interessantes e memoráveis.

Regalias que o dinheiro é incapaz de comprar?

Aprender sobre a biodiversidade do Bioma Mata Atlântica com a própria Natureza.

Conhecer o silêncio muito distante de uma caverna.

Poder ficar livre e alegremente descalça sentindo a temperatura natural da terra: Meio Ambiente e felicidade

Descobrir que por aqui, luxo é espaço, ar puro, silêncio e não grife, carrão e salto alto.

Testemunhar como as árvores são flexíveis quando uma ventania anuncia a chegada de uma tempestade e ouvir de forma inebriante, a aproximação da chuva.

Antecipar com alegria a chegada de uma nova estação através dos brotos das folhas, flores e frutos, que sempre proporcionou genuínas cores, formas, aromas e sabores.

O valor inestimável do sorriso genuíno, caloroso e sincero daqueles que realmente apreciam a sua companhia.

O sentido mais do que completo do que a palavra: “Família” tem de significado real e palpável.

A sinfonia original e criativa promovida pelo canto de diversas espécies de pássaros, insetos e outros.

Chegar em casa, na moradia que meu marido e eu construímos aos poucos com muita dedicação e respeito pelo meio ambiente, ainda tem sido suficiente para fazer valer a pena nossa jornada, por outro lado, quando finalmente chegamos, perdemos a vontade de passear e consumir na região.

Durante a adolescência, nossos filhos se rebelaram com a distância imposta pela rodovia, estradas municipais, ruas, infraestrutura precária em lazer e cultura, falta de segurança e experimentaram tanto a carência de oportunidades, omissão dos órgãos gestores por aqui, quanto sentir na pele, o que é estar diariamente em um transporte coletivo lotado, ultrapassado, obsoleto, poluidor e assim como os demais veículos, estagnados na Raposo.

Desde que a Granja Viana e região se transformaram em “bola-da-vez” do mercado imobiliário-especulativo, constato que estão pontualmente destruindo tudo ao meu redor.

Árvores exóticas e nativas, algumas muito mais do que protegidas por lei, estão sendo suprimidas, elevando a velocidade do vento, a intensidade das descargas elétricas produzidas por raios, aumentando a luminosidade e a poluição sonora e do ar, fazendo pipocar à minha volta, ilhas de calor à base de concreto e vidro, totalmente impermeáveis.

Chegam às minhas mãos, folhetos de lançamentos de empreendimentos que contrariam nosso estilo de vida, muito longe de estarem alinhadas com nossas expectativas, visualizando a facilidade com que entopem bueiros, facilitando enchentes e com sarcasmo lembro que o canudo plástico se transformou em anjo caído da vez.

Empreendimentos que prometem um mundo maravilhoso, tipo “Alice no País das Maravilhas”, mas que ignoram a nossa realidade, propondo como paisagem, o terraço do seu futuro vizinho da frente ou dos fundos visando um lucrativo retorno imediato através de financiamentos que escravizam o orçamento doméstico.

Se primeiramente, a região teve como apelo o considerado alto padrão trazendo consigo a arrogância de emergentes que arrotam a falta de educação, atualmente, é proposto com muita hipocrisia, a fantasia de futura valorização dos imóveis.

Quem viveu os planos de economia mirabolantes do passado aprendeu que quanto maior a oferta, menor o preço e o que mais temos por aqui, é justamente o espaço a ser ocupado, porém sem qualquer infraestrutura adequada.

Temos casas, estabelecimentos comerciais, prestadores de serviços, galpões, veículos e pessoas demais para que apresentem lançamentos destinados a se transformarem em micos imobiliários.

Estou muito impressionada com o aumento da desigualdade social, deixando de um lado cercado por muros, os que se julgam empoderados e de outro, a ocupação empoleirada dos morros.

Observo grandes áreas que foram habitadas por famílias com muitas histórias para serem alegremente contadas, com poucas palavras e algumas assinaturas, são desmatadas e suas casas são implacavelmente demolidas para que muitas pessoas sejam confinadas com o apelo medíocre de sustentabilidade: Biodiversidade X Desenvolvimento

Meus filhos, atualmente adultos e independentes, sequer cogitam a possibilidade de morar por aqui e questionam porque ainda permanecemos nesta região que tão rapidamente está sendo descaracterizada em sua essência.

Eles sabem e muito bem, a dificuldade de circular por aqui e como este fato, alimenta a alta rotatividade dos negócios que passaram a ter vida curta gerando prejuízos.

Na primeira vez em que ouvi a pergunta: Por que vocês ainda estão aqui?
Fui categórica em afirmar que daqui eu não saio e daqui ninguém me tira.

Deixei a minha maravilhosa zona de conforto para me expor neste significativo meio de comunicação.

Participei de discussões, hoje reconheço, absolutamente inúteis, sobre a revisão do Plano Diretor da cidade de Cotia, perdendo o tempo que eu poderia ter dedicado aos amigos e à família: Bons tempos

Mostrei em vão, a destruição ambiental em nome do crescimento desordenado da cidade e geração de empregos temporários e de baixa qualificação profissional.

Avaliando o cenário, argumento com os meus filhos que estar em casa, mais especialmente no jardim, recebendo os amigos, amigos dos filhos e mais recentemente, filhos dos amigos dos filhos significa estar em uma bolha onde apenas as coisas boas acontecem.

Viver em uma bolha, condomínio, prédio é como viver em uma ilha, tal como, em uma ilusão extremamente passageira.

Atualmente, saio de casa, direto para Sampa, onde trabalho, encontro meus filhos, amigos e usufruo do que a metrópole tem de melhor. consciente de que a Raposo me espera mais uma vez travada.

Os lugares charmosos da Granja estão sendo transformados para receberam muitas pessoas em locais impessoais, áridos, fechados e com atendimento precário.

O que ainda me segura por aqui é a biodiversidade que não fala o nosso idioma, sequer é ouvida, respeitada, conhecida, não tem quem a represente, como reclamar seus direitos, pagar, barganhar, votar, fazer campanhas, negociar, protestar, e como subterfúgio apresenta a sua beleza como único parâmetro de sua existência, seja nas cores, formas, sons e aromas, fugindo, tal como refugiados, para não ser aniquilada.

 

 

Devo todo o meu conhecimento a este verde que você observa quando está ansioso e estressado acreditando que mais uma vez, vai chegar atrasado ao seu compromisso e a única maneira que encontrei para devolver a minha gratidão é compartilhar estas maravilhas da Natureza e alertar sobre a sua destruição em massa.

Em nome da ganância e contando com a ingenuidade daqueles que acreditam que isto aqui ainda é um paraíso, tanto o verde, a biodiversidade, quanto os recursos naturais que são os principais diferenciais da região, estão sendo destruídos de diversas maneiras diariamente.

O tempo todo, sou questionada se hipoteticamente ainda estivesse em Sampa, seria capaz de sair de lá e começar uma nova vida por aqui.

Hoje consigo dizer com todas as letras: NÃO!
Sem qualquer traço de nostalgia, a resposta é categoricamente, NÃO!
Independente de qualquer afetação positiva ou negativa, JAMAIS!
Definitivamente e sem qualquer tipo de arrependimento, NUNCA!

Por que?

Aqui entendi o real sentido da vida.

Constantemente observo uma inversão de fatos que contrastam com a ordem natural das coisas.

O novo e recém chegado vai embora antes de ficar velho.

Não existe moeda que dimensione os momentos com suas emoções fantásticas que eu, minha família e amigos experimentamos por aqui.

Por mais maravilhoso que o mundo tenha sido na Granja Viana e região, contrasta com o futuro que estão estabelecendo ao último refúgio verde da região metropolitana de São Paulo.

Atualmente, nos tratam como número, tipo estou há…anos, moro no km…, perco tantas…para chegar ao meu destino.

Dizer que vale a pena, trocar o seis pela meia-dúzia??

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Padrões ultrapassados são impostos para aqueles que escolheram viver em uma Granja Viana que está se transformando em uma ilusão fantasmagórica.

Os inocentes acreditam que ainda temos qualidade de vida, desta maneira o mercado e os governantes, vão saturando a paisagem com pessoas, veículos e poluição de todos os tipos: Poluição sonora e qualidade de vida

Eu posso até ter perdido a guerra contra a especulação imobiliária e a ocupação desordenada da Granja Viana e região, mas de forma alguma serei vencida em meus argumentos a favor da convivência entre a sociedade e a biodiversidade gerando qualidade de vida para todos!

Frequentemente, me perguntam para onde iria se tivesse que sair daqui e a resposta é mais do que clara:

Sampa!

Por que?
Já conheço a paisagem.
Apesar da gratidão por todos os momentos maravilhosos que vivi por aqui, não recomendo esta região em hipótese alguma!

Fotos: Geni Albuquerque

Sobre o autor

Geni Alburquerque

Autodidata multidisciplinar. Sócia-proprietária da Taúna e consultora em paisagismo ambiental e jardinagem.

Blog: qualidadedevidaejardim.blogspot.com.br

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