Colunistas Põe Poesia e Põe Prosa Sílvia Rocha

Frases feitas e clichês que curto x frases feitas e clichês que não curto e não sei bem por que

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Escrito por Sílvia Rocha
Hoje é o primeiro dia do resto da minha vida

É curioso perceber que algumas frases, alguns ditos populares ou mesmo clichês fazem sentido para mim, me inspiram e me alertam.

Já outras “frases feitas”, digamos, ou nada me dizem ou até mesmo me aborrecem, ou seja, fazem efeito contrário.

Vou apresentar hoje uma de que gosto.

Quando eu tinha 15 anos, meu primeiro namorado, certa vez, saiu-se com esta:

Hoje é o primeiro dia do resto da minha vida.

Nossa, a frase causou-me grande impacto. E não deixou de fazer efeito ao longo dos meus 48 anos vividos desde então. No entanto, um belo dia, ao pensar na frase, acrescentei:

Hoje é o primeiro dia do resto da minha vida. E pode ser o último.

Foi um “estalo de Vieira*!” Um clique! Uma súbita compreensão! E, naquela época, eu sequer era simpatizante do Budismo.

Provavelmente, se eu pesquisar em algum aplicativo de busca, “minha” frase deve aparecer lá. Mas, quando a cunhei, não existia Internet, aplicativos e “tals**”. Prefiro ficar na ilusão de que é minha. Na verdade, é minha. Pois mora comigo! (risos)

Hoje, estou em um chalé no Vale do Matutu, relevo ao sul de Minas Gerais, no município de Aiuruoca, agora imortalizado por ser cidade natal da atriz global Ísis Valverde.

Estou sozinha, momentaneamente, em pleno feriado de Nossa Senhora da Conceição Aparecida. Cai uma chuvinha que parece uma névoa, de tão fina. E a primavera se manifesta no clima mais instável, no frio ameno, no calor suave, nas flores que colorem as minhas retinas descansadas por noites bem dormidas de sono profundo, em um silêncio tão imenso quanto o horizonte que tenho pela frente.

E, hoje de manhã, quando pensei neste texto que ora escrevo, estava ouvindo Iris, música-tema do filme Cidade dos Anjos e olhando a vista da minha janela. Árvores, arbustos e, ao fundo, uma fileira de araucárias. Verdes sobre verdes.

Aí, a velha frase me veio:

Hoje é o primeiro dia do resto da minha vida. E pode ser o último.

 Nossa! Pode ser hoje, pensei.

Nada mal, refleti. Estou aqui, agora, sozinha, num dos lugares de que mais gosto no mundo. Ouvindo uma música linda, pensando no texto a escrever. Já criei meus filhos, ou seja, transmiti a eles o que sabia e podia, amei-os como pude… já são adultas e adulto, minhas duas filhas e meu filho. Vivi um casamento de quase três décadas e acredito que deixaria algumas boas lembranças para o meu marido. A família, as amigas e os amigos, as colegas e os colegas de trabalho… cerquei-me, cada vez mais, de pessoas amorosas, bondosas, sensíveis, cheias de ideais… E, também, nos últimos tempos, fui aproveitando melhor meus tempos.

Portanto, se fosse agora, se eu fosse embora agora, desta vida, eu iria feliz.

Mas, por outro lado, se hoje não for o meu último dia, nem tampouco a minha última noite, que bênção seria!

Com todos os desafios, com todas as adversidades, com o meu luto pelos 600 mil conterrâneos que se foram “por morte matada”, na agonia da pandemia, com todas as mazelas do meu País e deste mundo que habito… viver mais um dia, ou uma semana, ou trinta dias, ou cem ou mil dias… seria sempre uma oportunidade de viver-aprender. De viver-plantar. De viver-colher.

Há inúmeras músicas e um sem-número de poemas que ilustrariam o final deste texto. Escolho um trecho de um poema e uma letra de música que me acompanham ao longo desta vida… “que podia ser melhor”, mas é a minha vida. Tanto o poema, como a música usam o mesmo verbo no passado: valeu.

O final do poema Mar Português, de Fernando Pessoa, lido, relido, declamado e exaltado, por exemplo:

 

Valeu a pena?

Tudo vale a pena

Se a alma não é pequena

 

Quem quer passar além do Bojador

Tem que passar além da dor

 

Deus ao mar o perigo e o abismo deu

Mas nele é que espelhou o céu

 

E finalizo com a canção Valeu, de Paulo Leminski***.

Toda vez que a ouço fico jururu, meus olhos marejam, e vem aquela sensação de fim de mundo, de fim de tudo, de adeus…

 

Dois namorados olhando o céu
Chegam à mesma conclusão
Mesmo que a Terra não passe da próxima guerra
Mesmo assim valeu
Valeu encharcar esse planeta de suor
Valeu esquecer as coisas que eu sei de cor
Valeu encarar essa vida que podia ser melhor

Valeu, valeu
Valeu, valeu
Valeu, valeu
Valeu, valeu

Dois namorados olhando o céu
Chegam à mesma conclusão
Mesmo que a Terra não passe da próxima guerra
Mesmo assim valeu
Valeu encharcar esse planeta de suor
Valeu esquecer as coisas que eu sei de cor
Valeu encarar essa vida que podia ser melhor
Valeu, valeu…

 

Gosto muito da versão de minha filha Júlia e seu companheiro Gustavo Galo, ambos artistas, cantores e compositores. Mas há outras, também incríveis.

 Valeu: https://youtu.be/Hjc0wzPxqOg, com Júlia Rocha e Gustavo Galo.

 

Valeu!

——

*estalo do Vieira: A expressão foi de uso popular durante séculos, sobretudo no nordeste brasileiro, para designar uma súbita e miraculosa compreensão de algo que, até aquele momento, fora nebuloso para alguém. (in www.recantodasletras.com.br) Substitui o insight.

**Tals: neologismo e/ou gíria utilizada ultimamente, sinônimo de etcétera. Acho um charme!

***Paulo Leminski: Paulo Leminski (1944-1989) foi um escritor, poeta, crítico literário, tradutor e professor brasileiro.Tinha uma poesia marcante, pois inventou um jeito próprio de escrever, com trocadilhos, brincadeiras com ditados populares e influência do haicai, além de abusar de gírias e palavrões, tudo de forma bastante instigante. (in Wiikipedia)

 

Foto em destaque (por Silvia Rocha): “Da janela lateral, do quarto de dormir | Pousada Matutu | Vale do Matutu | Aiuruoca | MG”

 

Sobre o autor

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Sílvia Rocha

Sílvia Rocha nasceu na cidade de São Paulo, em 1958. Mora na Granja Viana, em Cotia, há 28 anos. É pedagoga, jornalista e mestre em Jornalismo pela ECA-USP.

Desde 1990, conduz oficinas de haikais – micropoemas de origem japonesa – e aulas de escrita criativa. Publicou Estação Haikai (1988) e Gestação Haikai (1990), ambos pela Editora Scortecci; reunidos e reeditados, em 2015, pela editora É selo de língua.

Lançou “Matutu Do”, livro de haikais, editado pela É selo de língua e premiado pelo ProAC 18/2019.

Há 12 anos, participa do movimento ambientalista Transition Granja Viana, do qual é cofundadora.

Atua na Tique Toque Revisões, juntamente com a parceira Heloisa Reis. Revisam, em dupla, todo tipo de texto. www.tiquetoquerevisoes.blogspot.com

Escreve para sua coluna – “Põe Poesia e Põe Prosa” – “aqui”, no Jornal d’aqui, desde 2018.

www.silviarocha.com.br www.matutudo.com

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