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Hora de reabrir. Será?

Escrito por Iana Ferreira

Quase seis meses supostamente em isolamento sem dúvida abalam vários aspectos das nossas vidas, das finanças à saúde mental, voltando às finanças e transitando de novo para o equilíbrio psico-emocional. Mas o tempo em meses e os danos colhidos não podem ser os únicos critérios para a reabertura e retorno às ruas e atividades habituais. Sem dúvida precisamos olhar também para frente e para as consequências do que fizermos hoje e temos que nos perguntar: já está mesmo na hora de reabrir?

Se você lotou as praias no final de semana passado ou deu uma festa com um tanto de gente, este texto não é para você. Provavelmente, sua ansiedade e/ou negação estão em níveis muito altos e ele, o texto, não fará sentido algum. Mas se você está em algum ponto diferente disso e, especialmente, se começa a oscilar quando vê tanta gente se divertindo fora de casa, achando-se um pouco estúpida(o) pelos seus sacrifícios e sentindo vontade de chutar tudo pro alto e se valer, quem sabe, unicamente da sua imunidade ou de outras proteções nem tão garantidas nessa situação, vamos pensar em alternativas? Será mesmo o caso de termos chegado até aqui e entregarmos os pontos um pouco antes da hora, perdendo o trabalho feito em todos esses meses anteriores? Será de fato hora de parar, depois de tanto nadar, e talvez morrer na praia? E ai de nós se isso não for apenas figurativo, mas também literal!

O fato é que a reabertura como está sendo feita é, segundo consenso da área médica, premeditada. Pressionados por inúmeras pessoas que não aguentam mais esse estado de coisa e tentando não queimar os votos para o seu partido nas próximas eleições, lá vão prefeituras e governos estaduais liberando praias – mas só a água, talkei? –, abrindo estabelecimentos diversos e, o que é pior, sem fiscalização adequada dos protocolos elaborados.

No começo da semana choveram imagens de guarda-sóis nas praias, gente em jet-skis, esportes na areia. No Rio sim, mas em São Paulo também. E as festas? Tem as que a gente viu e muitas que nem vimos. E o que apareceu não foi só no noticiário. Vi fotos assim também nas minhas redes sociais, talvez na sua também tenha aparecido, desse jeito sim, bem pertinho, em publicações felizes de conhecidos meus, seus.

É realmente incompreensível que isso aconteça quando ainda morre tanta gente diariamente no país. 866 em 24 horas no último noticiário que eu vi. Pensa numa sala de espetáculos grande, tipo Auditório do Ibirapuera, cheia. Morrem todos. No mínimo, dois ou três familiares mais próximos são devastados pela perda. Então, o número de atingidos é muito maior. E esse fato acontece todos os dias, há quase seis meses. São quase 125 mil mortos. E todas as demais pessoas afetadas diretamente por essas perdas… Vazios, saudades, desamparos materiais e emocionais. Sim, precisamos nos entristecer ou não faremos contato com essa realidade.

Então, a pergunta que fica ecoando é: como é possível que diante desses fatos muitas pessoas sigam confiantes para a areia das praias, para os esportes de contato, para as festas de amigos? É possível entender?

Essas atitudes são incompreensíveis se estamos imaginando que decisões e atitudes são geradas apenas de forma racional e objetiva. Pois elas não são. Racionalmente, não sairíamos ainda. Racionalmente, não há como negar que doença e a morte ainda estão passeando muito à vontade logo ali depois do portão e ficaríamos todos em casa ou saindo com muito cuidado.

No entanto, o ser humano não é só razão. É este o motivo de dados objetivos serem desconsiderados, em qualquer situação. Somos movidos também por muitos impulsos não racionais, tendências, simpatias e antipatias, emoções diversas e muitos outros fatores que não dizem respeito à razão, todos compondo esse jogo de respostas dadas a cada situação de nossas vidas. E nós sabemos, por experiência pessoal, com que frequência essas coisas podem nos roubar o bom-senso. “Quando vi já tinha falado aquilo”, “perdi a cabeça”… Quem nunca?

Sendo assim e considerando que o ser humano é ser social, anseia e se reconhece, se forma e ganha vida nas trocas com outros seres humanos, podemos entender o quanto o momento é delicado e desafiador.

Qual a saída então? Certamente não é aquela que nos leva às cegas para os braços de todos os riscos que ainda passeiam pela rua, em nome de “se for pra viver enclausurado nem quero viver, isso não é vida” ou qualquer pensamento desse tipo. Ainda não é hora de entregar a situação à sorte da roleta russa do vírus. Se persistirmos em olhar com atenção o que está acontecendo, até veremos algumas possibilidades de relaxamento que nos auxiliarão bastante neste momento. Por exemplo, já é possível transitar com alguma segurança em lugares abertos, desde que haja distância suficiente entre as pessoas e todas estejam cuidando de se proteger umas às outras com as máscaras. Por que não nos valer disso? Moderadamente…

Além da ponderação vinda de um pensar claro sobre a situação, temos ao menos duas outras ferramentas importantes ao nosso dispor: criatividade e resiliência. O ser humano é ser criativo e de grande adaptabilidade, não é um animal especialista em determinada habilidade, tem possibilidades muito mais variadas do que qualquer outro ser do reino animal e consegue se (re)criar de formas incríveis diante de cenários muito novos e condições inimagináveis. Que tal contar com isso?

Vimos essas capacidades surgirem até aqui fartamente nessa quarentena. Reinventamos nossa comunicação, inúmeros encontros e conexões se tornaram possíveis, recriamos a presença, as atividades, os serviços prestados, as redes de cuidado e de trocas, muita coisa se tornou disponível de repente, contrariando justamente o estado de restrição da pandemia. Superação. Sem dúvida, conseguimos criá-la.

E ainda precisamos manter este trabalho. A hora ainda é de continuarmos nos empenhando com essas saídas que diferem da antiga normalidade e de suportarmos algum sacrifício. A vida é bastante preciosa e única para que não a protejamos sempre e adequadamente. Quem sabe estejamos tomando fôlego para a reta final dessa corrida. Ao final vai valer a pena. Proteja-se e inspire pessoas a se protegerem. Essa rede é fundamental para não esmorecermos.

Ótimo feriado a todas e todos!

 

Sobre o autor

Iana Ferreira

Iana Ferreira é formada em Musicoterapia e graduada e mestre em Psicologia do Desenvolvimento e da Personalidade pela Universidade de São Paulo (USP). Em conjunto com o consultório, realiza diversos trabalhos com a escrita e aprecia escrever, em especial com enfoque no autoconhecimento e no desenvolvimento humanos.

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