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Jardim de infância

Escrito por Geni Alburquerque

Me lembro como se fosse ontem…

Minhas mãos no vidro observando as pedrinhas de gelo que ao caírem do céu, pipocavam no piso.

Eu ali, pequenina e maravilhada na sala da casa da “Tia Dília”que depois se transformou em um complexo educacional conhecido…

Recordo com carinho dos picnics no bosque, onde brinquei e ainda brinco em meu jardim, de esconde-encontra com os pássaros, esquilos, saguis, répteis, insetos, peixes…

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ao fechar os olhos e sentir o aroma das flores, apostava corrida com as abelhas e borboletas para ver quem chegava primeiro até a flor mais perfumada…

Tenho e muito bem guardada na memória, a alegria de ter que dividir, ouvir, participar, construir, assim como de disputar quem gritava mais alto para constatar se produzia eco…

Pular corda por mais tempo, exercitando o ritmo da respiração e coordenação de movimentos…

De ousar descendo a rua num carrinho de rolimã segurando a saia…

Perseverar em não ser queimada pela bola avaliando a sua trajetória…

Ver germinar uma semente e acompanhar seu crescimento até se transformar em uma árvore gigantesca.

 

 

 

 

 

Friedrich Fröebel se ainda estivesse por aqui, com certeza ficaria chocado ao ver crianças brincando em pequenos espaços confinados com brinquedos de plástico e grama sintética.

Em 1837, as crianças eram consideradas como plantinhas de um jardim que precisavam ser cultivadas pelo professor-jardineiro.

O tempo passou e as lembranças foram adaptadas para que os meus filhos pudessem ter no jardim a vivência da infância, muito além dos espaços da Pré-escola.

Cabanas construídas com gravetos e galhos, cuidadosamente arquitetadas e calculadas para que não desabassem, exercitando a independência fora do quarto…

Escolher o tronco de árvore, onde se pode amarrar cordas que oferecem o balanço parecido com o voar dos pássaros…

O escorregador natural no talude gramado com a corda ao lado para escalar na volta…

Se a minha geração tem memórias maravilhosas apesar da rigidez da educação, meus filhos e seus amigos usufruíram de uma infância ímpar, porque aprenderam o quanto estavam imersos no contato com a natureza, agregando o respeito pelas diferentes espécies de vida que um jardim consegue reunir.

Por inúmeras vezes, avistamos um filhote no jardim e um impulso forte de proteger e de ficar perto dele nos coloca em situações conflitantes, porém a consciência do núcleo familiar e independência nos ensinou o significado da resiliência.

Ao sair do ninho, um filhote de Sanhaço-cinzento ou Thraupis sayaca, até conta com a ajuda de seus pais na orientação de qual caminho a seguir. www.qualidadedevidaejardim.blogspot.com.br

O momento em que o filhote de Turdus rufiventris ou Sabiá-laranjeira encontra a sua mãe no jardim.

Um jardim não deve servir apenas para contemplação. Com a destruição dos Biomas brasileiros cada vez mais, se faz necessário que o paisagismo brasileiro inclua famílias como esta em seus projetos.

Atualmente, percebo um movimento interessante de filhos herdando os jardins onde viveram sua infância, querendo resgatar as memórias maravilhosas para que no futuro possam compartilhar com as próximas gerações.

Esta moçada incrível quer contribuir por um planeta mais equilibrado, justo para a sociedade e está disposta a recuperar ambientalmente o local que considera parte de sua existência, invertendo a lógica do destruir para construir.

Este movimento coincide com um questionamento quanto à necessidade de se conhecer a cadeia produtiva de tudo o que consumimos e que depois se transforma em lixo poluente.

Esta juventude aprendeu como avaliar se o ar que respiram e a água que consomem são limpos, além de se conscientizarem sobre o desperdício de energia.

Tal como um filhote que ao sair do ninho precisa decidir qual caminho seguir, e retorna um tempo depois ao jardim com sua nova família, as crianças precisam de um jardim natural para que possam sonhar o futuro ao olhar as nuvens no céu, caminhando o presente em contato com a terra, levando consigo um passado maravilhoso de alegres lembranças e sensações.

 

 

 

 

 

 

Na Granja Viana e região ainda é possível oferecer aos seus filhos um Jardim de infância natural em sua própria residência, quando se deixa um espaço do lote dedicado ao jardim ou quando se adquire uma residência na região com amplo espaço permeável ao redor da casa.

A partir daí, os jardineiros-professores serão os pais alinhados ou independentes da pedagogia da escola.

Sinto um orgulho imenso quando observo mães e pais promoverem o contato dos filhos não apenas com pessoas, mas com a natureza através de um jardim.

Um jardim se transforma em escola para pais, filhos e amigos interagirem com outras espécies de plantas e seres vivos, entendendo o funcionamento e importância de um ecossistema.

Esta interação oferece a oportunidade, por exemplo, de mostrar que quando chove, o solo drena a água, irrigando as raízes das plantas, contrastando com as inundações e deslizamentos de terra, causadas pela impermeabilização do solo.

Por aqui é possível provar os danos causados pelo direcionamento das águas pluviais ou servidas, despejadas em riachos de água limpa que juntas carregam o lixo, o que permite questionar a urbanização tal como conhecemos.

Qualidade de vida, biodiversidade e desenvolvimento.

Na prática, o tipo de desenvolvimento que tem ocorrido no Brasil.

Os idosos guardam com carinho suas memórias para que sejam transmitidas aos jovens que finalmente percebem o quanto o desmatamento na Granja e região ou em qualquer bioma brasileiro resulta em consequências climáticas, indo muito além da oferta de empregos de baixa qualificação.

Sonho ver crescer gerações dispostas a influenciar na reorganização urbana com tecnologia acessível, inclusiva e dotada de inteligência ambiental, mesmo assim, para que este futuro se realize, os Jardins da Infância nos lares das famílias não podem desaparecer pelas mãos daqueles que desconhecem um ecossistema.

Sobre o autor

Geni Alburquerque

Autodidata multidisciplinar. Sócia-proprietária da Taúna e consultora em paisagismo ambiental e jardinagem.

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