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Mobilidade

Escrito por Geni Alburquerque

Muitos caminhos podem ser percorridos, sem sabermos exatamente como são e para onde vão.

Nas cidades, um mesmo caminho pode ser explorado de diferentes maneiras gerando a mobilidade da sociedade, de produtos e de serviços.

Quando vim para a Granja, havia um só caminho, uma rodovia margeada com belas, floridas e grandiosas árvores.

Naquela época, a Raposo parava em função dos graves acidentes proporcionados por motoristas imprudentes que queriam acessar o outro lado de qualquer maneira e o socorro não chegava rapidamente, provocando o sofrimento e ao mesmo tempo, a solidariedade das pessoas.

Muitas árvores deram seu lugar para a construção de viadutos que trouxeram mais veículos.

A rodovia também passou a parar em função das mortes por atropelamento que gerava a revolta de motoristas e pedestres, novamente as árvores foram suprimidas para que passarelas fossem instaladas.

Atravessar os lados da Raposo Tavares de duas maneiras elevou a circulação de veículos e como resultado, mais pessoas passaram a viver e trabalhar por aqui.

Mais veículos forçaram a supressão de centenas de árvores, o aterramento de dezenas de riachos e inúmeras nascentes para que a rodovia fosse duplicada.

Com suas margens ocupadas, a Raposo atraiu ainda mais gente, forçando o deslocamento ainda maior de veículos.

As estradas que chegam na rodovia foram “alargadas” em seu limite máximo, alternativas viárias foram aplicadas para que se ligassem entre os municípios vizinhos e milhares de árvores foram derrubadas no processo, ecossistemas completos foram aniquilados, aumentando a impermeabilização do solo, o escoamento das águas pluviais nos riachos que se transformaram em córregos, impregnando o ar, os olhos e os ouvidos com uma poluição crescente afetando diretamente a saúde e o bem estar da população que passou a inchar de forma desordenada, elevando ainda mais o número de veículos circulantes.

As árvores que “sobraram” de todos estes processos devastadores para o meio ambiente e a qualidade de vida da população, passaram a servir de propaganda para trazer ainda mais gente para viver, trabalhar e se divertir em meio à “Natureza” da Granja e de sua belíssima região, em consequência, milhares de árvores e nascentes desapareceram com o ciclo se repetindo, ao mostrar uma Raposo Tavares que trava com veículos de grande porte com problemas mecânicos, por engavetamentos e com o número crescente de condutores de motocicletas, vítimas de acidentes, muitas vezes, fatais.

O que permaneceu o mesmo, desde que cheguei por aqui, foi o transporte público de péssima qualidade e altamente poluente.

Atualmente, na cidade de São Paulo, você escolhe qual a maneira de sair de um ponto e chegar ao outro.

Democraticamente, você decide se vai de veículo particular, táxi, transporte coletivo, patins, bike, patinetes ou ainda, com os seus próprios pés.

Você escolhe se vai direto ao destino ou se prefere parar pelo caminho, encontrar amigos e pessoas, ou coisas e lugares com personalidade marcante.

A tecnologia tem modificado a maneira como nos deslocamos, trabalhamos, consumimos e percebemos os espaços urbanos, tirando o protagonismo das prefeituras e governo do Estado de São Paulo em nossas decisões sobre qual a melhor maneira de atravessar diferentes caminhos.

Por outro lado, Cotia e seus vizinhos de limites geográficos insistem no transporte particular e é muito fácil constatar esta preferência olhando para os lados quando se está na Raposo, percebendo de um lado veículos transportando apenas o motorista e de outro, um motorista transportando muitas pessoas dentro de um transporte público desconfortável e mais do que ultrapassado.

Para quem está confortavelmente sentado em poltronas com ar condicionado, ouvindo o que quer, sonhando novas faixas e acessos viários, revolta quem está em pé, espremido entre pessoas que nunca viu, ouvindo o que menos deseja e o que mais espera é que aquele em quem depositou o seu voto de confiança em mudanças positivas, cumpra suas promessas.

Exibidas e submetidas para avaliações de poucas pessoas, em local de difícil acesso e desapropriações aprovadas na véspera do feriado do Dia do Trabalho, a prefeitura de Cotia e representantes do governo do Estado de São Paulo apresentaram diversos projetos de adequação viária entre o Km 21 e 30, nos dois sentidos da Rodovia Raposo Tavares, como soluções para a imobilidade das pessoas, produtos e serviços, elegendo de maneira nada democrática, de novo, o transporte individual em detrimento do transporte público e alternativo.

A similaridade dos projetos com o passado aparece propondo a supressão das últimas árvores de grande porte da Raposo, como as Paineiras (Ceiba speciosa), para que vias de acesso acomodem ainda mais veículos, transformando a Granja Viana em corredor viário sem identidade própria, e provavelmente como resultado aprovará a temida verticalização muito além do permitido atualmente, atraindo ainda mais pessoas para uma região sem infraestrutura adequada e saturada de imóveis desocupados.

Precisamos de soluções para o tempo perdido – que todos nós que já estamos por aqui passamos parados na rodovia – soluções estas que seriam possíveis aplicando algumas alternativas aprovadas por todos nas avenidas e marginais da cidade de São Paulo.

Cito apenas uma, como o rodízio de veículos, que na Rodovia Raposo Tavares, poderia acontecer de forma inédita e flexível, apenas em horários de maior fluxo de pessoas:

  • Caminhões e Carretas restritos de circularem na rodovia em apenas alguns horários para que Ônibus articulados, confortáveis, modernos, seguros e não poluentes possam trafegar em seus lugares, como alternativas viáveis para o transporte público de pessoas de Vargem Grande Paulista até o Butantã.
  • Como consequência da adesão da população ao transporte público pontual e exemplar, somada à redução gradativa do transporte em veículos particulares, uma faixa que eu poderia chamar de “Comunitária” poderia ser adequada para o transporte alternativo de motos, bikes, skates, patins e patinetes, nos mesmos horários, em que a população poderia contar com o transporte público.
  • Em dias chuvosos, dentro dos horários do rodízio, os veículos particulares e de transporte público poderiam ocupar a faixa “Comunitária”.
  • O investimento inicial seria o de orientar as pessoas quanto ao rodízio, o uso de capacetes e lanternas na faixa Comunitária, pintar as faixas na rodovia sinalizando no próprio asfalto o uso e opções de acessos para fora da Raposo e de outros meios de transporte.
  • Os locais com grande concentração de habitantes poderiam contar com vans, igualmente confortáveis, pontuais e ecologicamente corretas que poderiam embarcar e desembarcar seus passageiros em pontos seguros readequados para receber com muito respeito seus usuários, com transporte público integrado.

Convidando mais pessoas a abdicarem de seus veículos particulares, melhorando o fluxo de serviços e produtos na região, o que impactaria diretamente nos preços dos mesmos, a população poderia usufruir de caminhar com os seus próprios pés, uma vez que proporcionalmente, haveria a redução de todos os tipos de poluição, reduzindo o custo saúde da sociedade.

Imagine tirar todos os caminhões, carretas, todas estas vans e ônibus obsoletos em apenas alguns horários da Raposo para que a população tivesse a liberdade de decidir de que maneira circulará pela rodovia?

Pela primeira vez teríamos uma inversão urbanística exemplar, moderna, sustentável, ecológica porque as árvores existentes seriam preservadas e mais árvores poderiam ser plantadas para compensarem ambientalmente as que foram suprimidas no passado.

Não tenho dúvidas, de que a população aprovaria, estações acessíveis, confortáveis para embarque e desembarque de passageiros em transportes públicos adequados para o percurso no lugar de mais pistas na rodovia.

E não imagino qualquer impedimento legal, logístico, ambiental e financeiro em transporte público confortável para a população, ao invés de construírem mais viadutos e vias de acesso em áreas de mananciais.

Definitivamente, acredito que placas de orientação e estímulo ao uso do transporte público, seriam muito mais eficientes do que as que tem apelo de marketing e sido esquecidas por aí.

Se em Sampa dispensamos o carro particular, porque aqui não pode ser assim?

Será que os políticos envolvidos nestes projetos poderiam ouvir a população que os elegeu e avaliar as alternativas descritas acima?

Aprovar projetos é uma decisão muito simples quando é a população que sofrerá todos os transtornos durante a execução das obras propostas pelos políticos, que apenas supervisarão do alto e de dentro de um helicóptero.

Se é para ser saturada em breve com mais gente e veículos chegando, a Rodovia Raposo Tavares merece pelo menos uma chance de mostrar que o nosso direito de ir e vir poderia ser bem mais saudável, inteligente, agradável, exemplar e econômico!

Sobre o autor

Geni Alburquerque

Autodidata multidisciplinar. Sócia-proprietária da Taúna e consultora em paisagismo ambiental e jardinagem.

Blog: qualidadedevidaejardim.blogspot.com.br

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