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Não chega de saudade

Escrito por Sílvia Rocha
Em cada canção de João também bate um coração

 

Que tolo fui eu que em vão tentei raciocinar
Nas coisas do amor que ninguém pode explicar…

Tristeza não tem fim
Felicidade, sim
Tristeza não tem fim
Felicidade, sim

O que você não sabe, nem sequer pressente
É que os desafinados também têm um coração…

Vai, minha tristeza, e diz a ela…

Porque eu não posso mais sofrer…

Eu mesmo mentindo devo argumentar
Que isto é Bossa Nova, que isto é muito natural…

Quando um coração que está cansado de sofrer…

Podem espalhar
Que estou cansado de viver…

 

Não. Não chega de saudade.
Não darei conta de tanta saudade.
Eu, que nasci no ano que em ele inaugurou a Bossa Nova.
Que ouvi bossa nova e todas as suas canções desde o berço.
Que tive um pai que ouvia e ouvia e ouvia suas músicas seguidamente…

Ele cantou o amor.
Ele cantou a dor.
De um jeito que só ele sabia tocar e cantar.
E com o seu canto suave, ele reinventou o Brasil.
Um Brasil com “S”, como na música que Rita Lee escreveu para ele.
Ele inaugurou uma nova cadência, uma nova batida que revolucionou a música brasileira e mundial.
Ele, que nasceu em Juazeiro, que veio da Bahia com “H”.
Inovou no jeito doce de cantar.
E assim seguiu pela vida afora, tocando, cantando, ensaiando, ensaiando, criando, recriando, exigindo o melhor de si, do violão, da acústica, do som.
Inspirou e formou gerações de músicos e demais artistas.
Descolonizou o sofrido País.
Temos para com ele gratidão eterna.
Porém, também, uma dívida eterna.
Um patrimônio vivo e humano que entrou em reclusão e em decadência econômico-financeira poderia ter tido uma intervenção do país ou ter gerado uma mobilização nacional, tanto dos artistas, como de seus admiradores.
Morreu em casa, numa moradia emprestada, despejado que foi do apartamento em que morou por décadas, no Rio de Janeiro.
Do legado inestimável, até mesmo grande parte de suas músicas foi vendida para um banco para pagar dívidas.
Uma lástima que o País tenha tratado assim um Artista com “A”, um artista maior, o seu artista maior.
Uma lástima que ele se foi do jeito que ele se foi.
Será que tanto sofrimento e tanta dor que cantou tenham dado o tom final de sua vida?
Mas que sei eu de sua vida? De seu final de vida?
Talvez o alívio o inundou.
Talvez todo o amor que ele cantou durante a vida o amparou e o velou.
Ele nos deixou.
Mas quem disse que sua música nos deixou?
Em cada música, em cada canção de João, também bate um coração.

 

João Gilberto do Prado Pereira de Oliveira

Nascido a 10 de junho de 1931
Falecido a 6 de julho de 2019

Sobre o autor

Sílvia Rocha

Sílvia Rocha mora na Granja Viana desde 1994.
É graduada e mestre em Comunicação Social – Jornalismo – pela Escola de Comunicações e Artes da USP.

Pratica o haikai – micropoemas de origem japonesa, inspirados na natureza – desde 1984. Publicou a segunda edição de Estação Haikai e Gestação Haikai, pela editora É selo de língua, 2015. Ganhou o Concurso de Poesia Falada do Café das Flores e da Revista Escrita com As Quatro Estações do Ano, em 1987.

Escreve matérias, artigos e crônicas para veículos impressos e virtuais e conduz a oficina Haikai: universo em três versos em grupos, individualmente, presencialmente e à distância.

Site: www.silviarocha.com.br

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