Colunistas Põe Poesia e Põe Prosa Sílvia Rocha

Nova Fase da Coluna Põe Poesia

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Escrito por Sílvia Rocha

A Coluna Põe Poesia nasceu em dezembro de 2017.

Até hoje, escrevi trinta matérias para o Jornal daqui com a Poesia como foco central.

Desde o advento da pandemia, oficialmente decretada em março de 2020, houve muitas mudanças e adaptações em minha rotina pessoal e profissional.

Lancei Matutu Do, uma coletânea de haikais – micropoemas de origem japonesa – escritos ao longo de 27 anos de idas ao Vale do Matutu, relevo ao sul de Minas Gerais, no município de Aiuruoca. Livro premiado pelo ProAC (Programa de Ação Cultural da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Governo do Estado de São Paulo, editado pela É selo de língua, editora independente e que trabalha em rede colaborativa.

O movimento ambientalista local –Transition Granja Viana – do qual sou co-fundadora e participo, há doze anos, vem trabalhando e refletindo profundamente sobre as mudanças drásticas que nossa região vem sofrendo quanto ao desmatamento, dentre outras questões igualmente importantes e urgentes.

Também passei a trabalhar com revisões de livros, textos e aulas de ensino a distância, em dupla, com minha amiga e colega ambientalista Heloisa Reis.

Como resultado da nova fase, permeada, todo o tempo, com trágica realidade que vimos enfrentando quanto à pandemia, e o assustador cenário político, econômico, sanitário, social, da saúde, da educação e da cultura, tenho dado vazão a textos mais reflexivos, em prosa.

Propus, então, à editora do Jornal daqui, Toni Somlo, que minha coluna se transformasse em Põe Poesia e Põe Prosa. E ela gostou da ideia!

Então, a partir de agora, a Coluna entra em nova fase, junto com o inverno que se anuncia. E que, com a nova estação, reunamos força, coragem e todos os atributos necessários para transformarmos esta dramática situação.

ESTE PACOTE CONTÉM UMA DOSE DE AUTOESTIMA

 

Uma confecção feminina online, do Sul, trabalha apenas com tamanhos grandes e bem grandes.

Cheguei até ela, no verão passado, procurando roupas para minha irmã.

E gostei muito das peças que comprei.

Recentemente, fiz uma compra de inverno para a mesma irmã e adorei os modelos da coleção: coloridos, estampados, justos, largos, ousados e sérios. Tinha até modelos em jeans e com transparências!

Acabo de receber a encomenda: um pacote de plástico rosa, com a frase “Este pacote contém uma dose de autoestima!”.

Embora imagine que a frase deva fazer parte da estratégia de marketing da empresa, a mensagem suscitou-me várias interpretações e reflexões, como essas:

  1. O que será que vem à cabeça das pessoas quando elas leem, na embalagem que chega às suas mãos: “Este pacote contém uma dose de autoestima!”? E o que será que a confecção quer transmitir com essa mensagem?
  2. Será que você provavelmente é grande, tem sobrepeso, ou os dois? E, mesmo assim, se deu o direito de comprar roupas novas para você?
  3. Ah! Será que você resolveu comprar roupas para o aqui-agora? Para usar assim que chegarem?
  4. Será que esta compra significa que você não esperou para comprar roupas novas “um dia” ou “para um dia”, quando você imagina que será-estará mais magra?
  5. Será que você se arriscou e adquiriu modelos coloridos e alegres da coleção? Você pode estar acima do peso e usar roupas além de preto-marrom-cinza! E quebrar regras que ditam que, para quem tem sobrepeso, só é permitido cores escuras, cortes retos, roupas discretas e nada que chame a atenção.
  6. Será que o fato de uma pessoa ser-estar-estar-ser obesa, obesa mórbida, acima do peso, cheinha, gorda, gordinha, fofa, fofinha e tantos outros adjetivos que rotulam as dimensões do corpo devem impedi-la de ir à praia, de tomar banho de cachoeira, de rio ou de sol, de ir a festas, reuniões e outros compromissos profissionais e de lazer?
  7. Interessante pensar que as pessoas deveriam ser livres para usar cores, cortes e comprimentos diferentes, assim como estampas e novidades. Independente de gênero, faixa etária e forma física, dentre outras questões.
  8. A boa notícia é que, cada vez mais, podemos encontrar, disponíveis, vestimentas, calçados e acessórios que contribuam para o nosso bem-estar, bem-ser e bem-viver.
  9. Embora autoestima não se compre, não se empreste e não se dê é, no dia a dia, nas atitudes, decisões e reflexões que ela pode ser despertada, ativada e cultivada, com doses constantes de aceitação, acolhimento, carinho e amor.
  10. E, ao invés de vincular felicidade a condições futuras, existe sempre a possibilidade de quebrar imposições e padrões externos e internos e aproveitar a vida que temos agora, tão preciosa e de duração misteriosa.

 

Sobre o autor

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Sílvia Rocha

Sílvia Rocha nasceu na cidade de São Paulo, em 1958. Mora na Granja Viana, em Cotia, há 28 anos. É pedagoga, jornalista e mestre em Jornalismo pela ECA-USP.

Desde 1990, conduz oficinas de haikais – micropoemas de origem japonesa – e aulas de escrita criativa. Publicou Estação Haikai (1988) e Gestação Haikai (1990), ambos pela Editora Scortecci; reunidos e reeditados, em 2015, pela editora É selo de língua.

Lançou “Matutu Do”, livro de haikais, editado pela É selo de língua e premiado pelo ProAC 18/2019.

Há 12 anos, participa do movimento ambientalista Transition Granja Viana, do qual é cofundadora.

Atua na Tique Toque Revisões, juntamente com a parceira Heloisa Reis. Revisam, em dupla, todo tipo de texto. www.tiquetoquerevisoes.blogspot.com

Escreve para sua coluna – “Põe Poesia e Põe Prosa” – “aqui”, no Jornal d’aqui, desde 2018.

www.silviarocha.com.br www.matutudo.com

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