Colunistas Mila Poci Ponto de Vista

O Rei Leão

Escrito por Mila Poci

A história é conhecida, e as referências estão todas lá. Hamlet, ou melhor, Simba tem que lidar com seu amadurecimento e a responsabilidade precoce de um reino que alcança tudo que é tocado pelo sol; e mais com seu tio traidor e traiçoeiro…Várias versões já foram produzidas, em todas as mídias conhecidas; então, é preciso reduzir comparações à própria franquia da Disney.

Tomei conhecimento do Rei Leão pela primeira vez – como a maioria de nós –  pelo desenho dos anos 90. O encanto foi imediato, afinal quem resiste aos felinos fofinhos cantando músicas compostas por Elton John!?

Quando o espetáculo veio ao Brasil, precisei conferir a tradução/adaptação de Gilberto Gil e me maravilhei novamente com a montagem: a cenografia e figurinos fantásticos criavam a ilusão perfeita de estarmos dentro do desenho; o impacto de uma manada de girafas invadindo o teatro, até hoje me traz boas lembranças. Atores preparadíssimos e de talento, recomendados inclusive pelos próprios “gringos” superexigentes da franquia; cantavam e interpretavam todos os bichinhos simpáticos do desenho… e sem máscaras!

Então chegamos em 2019; quando o desenho se torna… Filme! Curioso como bichos falantes (e com conflitos existenciais muito humanos) não causam estranhamento na fantasia de animação. No entanto, quando enxergamos animais “reais” (até que ponto é real um leão se deixar tocar na fuça por um macaco?) mexendo os lábios, e falando nossa língua, a situação muda bastante…

Há este desconforto da dublagem. Os papéis principais não são ocupados por dubladores experientes, e nem são os mesmos da animação. Deve ser realmente difícil dar voz e expressão a pássaros e hienas, ainda mais em um clássico. O texto, por vezes se torna enfadonho e até supérfluo, nas vozes escolhidas muito mais no critério de ”famosidade” do que propriamente adequação ao personagem, e o foco se perde em sotaques e entonações mal colocadas. Não é de se espantar portanto que, em matéria de línguas, ainda preferi o dialeto desconhecido do macaco mandril Rafiki, o curandeiro da região, que não deve ter mais que meia dúzia de falas.

A sincronia torna a missão de dar humanidade às falas nada crível. Talvez os produtores fossem mais felizes assumindo a sensação de estarmos assistindo a um documentário da National Geographic e encontrando outra solução narrativa para a historia e suas músicas, do que realmente procurar colocar frases na boca de feras

Não existem franzidas de sobrancelhas, sorrisos e lágrimas na vida selvagem. Qualquer “emoção” provocada durante a projeção vem muito mais do que nos lembramos da história, do que propriamente do que se vê na tela. Fica evidente que o filme é aproveitamento marqueteiro de nossa memória emotiva, mais um produto lucrativo da franquia.

Claro que a produção não desaponta e a escolha de locações (virtuais) é cuidadosa: as paisagens são lindas e a computação gráfica de primeira, assim como a tecnologia 3D devem sim ser levadas em consideração. Uma pena que apuro técnico não seja combustível suficiente para ativar a mágica que a fantasia pede.

Sobre o autor

Mila Poci

Mila, granjeira de raiz, escreve desde pequena. Batizou este jornal aos 11 anos, no tempo em que era impresso em P&B. Depois, aos 16, escreveu um livro de contos, e seguiu na carreira de assessora de imprensa para a loja Casinha Pequenina. Trabalhou como roteirista do desenho Osmar e ama cinema, teatro e tudo que a faça pensa. Uma de suas características mais marcantes é o senso de humor, tema da palestra que ministra aonde precisar.

6 Comentários

  • Concordo plenamente, não vi o filme ainda mas a critica aqui na Russia tambem pegou pesado nesses criterios insistindo no fato de nao haver nada de novo na historia como aconteceu em Aladin. Quanto as mesmas vozes dos dubladores, é necessario dar um desconto, pelo que sei alguns dos que dublaram a primeira versão não estão nem mesmo vivos…

  • Conheço a Mila desde q nasci… somos primas! O toque apimentado dos seus comentários é uma característica marcante tanto nos seus textos quanto em seu dia a dia. Simplesmente ADOROOO!!!!!

  • Marc;não sei como ficou dublado em russo; mas aqui no Brasil,descaracterizou muitoos personagens. Sim,alguns dubladores do elenco original(do desenho) faleceram; mas poderiam ter sido usados ou mesmos brasileiros. De qualquer maneira, o que mais me incomodou mesmo foi a sensação de estar forçando uma realidade impossivel. Bichos de verdade não agem como os virtuais.
    Fábio; é isso!Não deu pra acreditar,né?!
    Vivian; obrigada, querida! Semana que vem continuo apimentando aqui. bj

Deixe um comentário