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Os Rituais Familiares

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Escrito por Regina Pundek

Durante anos incontáveis, dois dias antes da véspera de Natal, depois que as crianças iam dormir, meu pai forrava a mesa de jantar e tratava de fazer o PONCHE, que era a sua função e o deleite de toda a família e das visitas. Depois que cresci um pouquinho, fui autorizada a ficar acordada para assistir a cerimônia. Ele era detalhista e caprichoso. Partia ao meio cada uva e lhes tirava as sementes. As maçãs, tanto as verdes como as rubras, eram lindamente descascadas formando um longo colar com a casca que, a quem se aproximasse, ele oferecia em galanteio. Depois as picava milimetricamente em pedacinhos pequeninos. Assim, passo a passo, num elegante fazer, ele era o alquimista que transformava todos aqueles ingredientes na tão desejada e comentada bebida do Éden. Meu pai garantia a fidelidade de uma receita que não lia, a tinha na memória porque vira seu pai fazendo, muitas vezes, noutros tempos. E, mais importante que o fazer, ou que o próprio ponche, ele mantinha vivo o ritual que nos identificava como membros de uma mesma família, por isso mesmo, nos dando um forte sentimento de unidade.

Há muito tempo, a antropologia e a sociologia se debruçam sobre os rituais numa perspectiva sociocultural. Existem inúmeros relatórios de descrições fantásticas sobre rituais de povos longínquos. Estes relatos de rituais de passagem, cerimônias e tradições, onde membros de tribos pintavam e enfeitavam os seus corpos, dançando e cantando à volta de fogueiras, parecem-nos tão estranhos e exóticos que esquecemos, também possuímos na cultura ocidental formas ritualizadas, que divergem apenas nos seus conteúdos, mas que nos enriquecem como sociedade.

Os rituais constituem recursos extremamente importantes para o fortalecimento das famílias, permitem o estabelecimento das ligações interpessoais, a elaboração do significado da vida e segurança no contexto familiar e comunitário. Eles concedem-nos tempo e espaço protegido para parar e refletir sobre os eventos de transformação e envolvem-nos com a sua curiosa mistura de componentes familiares ricos em emoções distintas. Eles constituem as lentes pelas quais podemos ver e vivenciar estas ligações emocionais com os nossos familiares, amigos, colegas e com a comunidade em geral. Os rituais dão-nos o espaço necessário para explorar o significado das nossas vidas e para reconstruir as nossas relações intra e extra-familiares.

Os rituais diários também devem ser valorizados dentro das famílias. Eles possibilitam às crianças uma maior compreensão de papéis e de funções. Oferecem equilíbrio emocional por garantirem limites rotineiros. O “Bom apetite!” dito pelo pai ou pela mãe rotineiramente antes de iniciar uma refeição é um bom exemplo de um ritual. Daí, podemos ampliar para o Almoço de Domingo, o Relato de Histórias ou as Orações antes de Adormecer, as Festas de Aniversários, a Ida a Igrejas e Templos, o Coelho da Páscoa, o Ano Novo, etc… Cabe a cada família determinar e praticar os rituais que lhe fazem mais sentido.

O Natal está chegando. Podemos sim fazer desta uma festa memorável. Há símbolos que definem o evento, assim como canções, orações, alimentos. Porém a harmonia do momento é determinada pela energia com que nos permitirmos envolver. Vamos cuidar para que a correria e a importância dos presentes não marquem mais do que o ritual em si. Vamos surpreender sem romper as tradições, usando criatividade e amor podemos planejar um momento mais singelo e verdadeiro, que se afaste das questões consumistas e valorize os relacionamentos.

Sejamos artesãos de nossa própria história e seremos modelos para que nossos filhos continuem desejando fazer o PONCHE FAMILIAR a cada ano.

BOAS FESTAS!

Sobre o autor

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Regina Pundek

Escritora, Professora da Educação Infantil, Diretora Pedagógica,Psicopedagoga, Engenheira Civil, Educadora apaixonada pelo respeito ao Ser Humano.

Esposa, mãe, avó. Nascida em Santa Catarina e moradora da Granja Viana há 15 anos.

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