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Perdas…

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Escrito por Geni Alburquerque

Sim, é ela mesma!
Você está vendo a primeira árvore que plantei em meu jardim e com ela venho aprendendo muito sobre perdas.

Enquanto aguardo a queda do último galho, chegam palavras de pura emoção de uma leitora do Jornal d’aqui, este que sempre foi o nosso principal meio de comunicação:

“Alguns anos atrás plantei uma árvore Flamboyant na frente da minha casa. Ela cresceu e dá lindas flores vermelhas. Alguns meses atrás meu vizinho disse que as raízes estavam quebrando os canos. Entrei em contato com a prefeitura para pedir a retirada da mesma. Eles falaram que não tinham caminhão então decidi pedir autorização para retirar a árvore. Mas estou com o coração apertado por ter que retirar uma árvore que dá sombra e belas flores. Pensei até em podar as raizes. Li muito sobre isso, mas não sei se é viável”.

*Imagino como deve estar se sentindo, por que há dois anos acompanho a primeira árvore (Paineira) que plantei no jardim, derrubar seus galhos depois de ser atingida por uma descarga elétrica proveniente de raios durante as tempestades de Verão.

O Flamboyant, tal como um Ficus, precisa de muito espaço, tanto aéreo quanto terrestre, para se desenvolver majestosamente.

Podas, sejam de galhos como de raízes, apenas mutilam e fragilizam esta bela árvore, ampliando o aperto em seu coração.

Apesar de ser uma decisão muito difícil, autorize a retirada do Flamboyant.
No lugar dele, plante outras árvores nativas, porém de porte menor e com copa compacta.
Você também pode encontrar uma praça, ou um local pelo qual você transite com frequência e plantar outra muda de Flamboyant que possa se desenvolver grandiosamente.
Será a sua compensação ambiental pela perda da árvore que será derrubada e ao mesmo tempo, uma oportunidade de ter mais árvores a sua volta*.

“Obrigada por dividir comigo essa perda. Autorizei o corte da árvore. Hoje ela não abriga os passarinhos com seus cantos da manhã. Ninguém mais poderá descansar na sua sombra nos dias quentes de verão. Nenhum gatinho poderá subir para se defender de um cachorro de rua e nenhum cachorro de rua poderá beber água fresca e repousar do sol escaldante. Nenhum ser humano que corta tantas árvores sem piedade, poderá repousar debaixo dela antes de caminhar debaixo do sol quente à procura de outra árvore. O vizinho não vai mais reclamar pela “sujeira” que uma Flamboyant faz com suas lindas flores. Mas o mesmo vizinho não poderá proteger seu carro do sol e encontrá-lo fresquinho para levar seu filho para escola às 13h em dia que o termômetro marca 42 graus.

Eu aprendi muito com essa árvore que foi uma mudinha que ganhei alguns anos atrás de uma amiga que não está mais entre nós.

Espero que o ser humano aprenda amar as árvores e a natureza em modo geral. Aprendam o quanto elas são importantes para o planeta que está sofrendo o aquecimento global. Hoje estamos sofrendo com vírus. Se o ser humano não se conscientizar, outros males virão. Desculpa o desabafo.

Não joguei os troncos fora. Vou fazer um pé de mesa e alguns brinquedos para os meus gatinhos resgatados. Eles vão amar e eu vou poder ficar com um pedacinho dela. Vou seguir teu conselho, vou plantar uma Flamboyant em um lugar onde ela possa crescer vigorosamente”.

A humanidade nunca perdeu tanto quanto nesta pandemia.
A lista é muito longa, entretanto perder as pessoas que amamos tem sido a pior de todas as perdas.
Por aqui, somos também, vítimas da perda de qualidade de vida e de nossas árvores.
Por outro lado, ganhamos a percepção clara de como é viver na Granja Viana e região.
Com o isolamento social passamos a entender que ganhamos muitos vizinhos e com eles descobrimos o poder que tem a poluição, especialmente a sonora de causar atritos entre as pessoas.

Poluição sonora e qualidade de vida

Com cada vez mais frequência, as redes sociais são inundadas de relatos da falta de respeito, pelo próximo, pelo meio ambiente e de noções de cidadania.
No passado atolávamos nossos carros na lama avermelhada, hoje, estamos atolados de carros em cima do asfalto.
Seguindo um modelo ultrapassado de urbanização, as árvores que os pioneiros plantaram, perderam espaço.

Diariamente, centenas de árvores são suprimidas por diversos motivos e nenhuma é plantada para compensar a falta no presente e que irá fazer no futuro.

No momento em que tentamos restabelecer rotinas e contatos, além de administrarmos o impacto de nossas perdas, encontramos a melhor ocasião para “Virar a chave”, resgatando e reconstruindo a nossa qualidade de vida.
Plante árvores ao seu redor e pelos caminhos que você atravessa.
Observe o seu gramado e se conscientize de que não utiliza sua área integralmente, pare de cortar a grama em um pedaço e em breve verá germinar as sementes que a biodiversidade tem deixado ao passar por sua casa.

Pesquise sobre as mudinhas de árvores que querem crescer florescendo e frutificando ao seu lado e se você não tiver espaço suficiente, plante em uma praça, parque, ou qualquer local em que você possa acompanhar o seu desenvolvimento mesmo que a distância.
Você também pode transformar uma mudinha de árvore em um presente muito especial, para uma pessoa muito querida.
Se retiramos o concreto das calçadas, elas se transformam em jardineiras e as ruas passam a ser dos pedestres e ciclistas também.

Em volta da minha Paineira venho plantando diferentes espécies de árvores nativas da Mata Atlântica e cada uma delas tem recebido o nome da pessoa querida que a pandemia levou, daquelas em que estou com muita saudade de abraçar, daquele (a) amiga distante que eu tenho a certeza de que vou reencontrar.
Quero surpreender cada uma das pessoas que admiro na forma de flores, cores, magnitude, respeito por seus galhos e raízes, por sua sombra, seu frescor.

Raízes!

O meu jardim tem se transformado em uma bolha de cores, formas, aromas, qualidade de vida, assim como de novas vidas, porque foi homenageando as pessoas que hoje sinto muita falta, as tenho ainda mais próximas de mim.

Plante o futuro hoje você também!

Geni Albuquerque
www.qualidadedevidaejardim.blogspot.com
#gealb15

Sobre o autor

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Geni Alburquerque

Autodidata multidisciplinar. Sócia-proprietária da Taúna e consultora em paisagismo ambiental e jardinagem.

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