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Poesia da Natureza

Escrito por Sílvia Rocha
Ao casal de granjeiros que resolveu morar no meio do mato, com outras pessoas, de forma integrada e orgânica. A protagonista das moradias e das poesias? A natureza.

 

Tudo começou na EcoFeira
Ah! EcoFeira Granja Viana: todo domingo – todo mundo ama!
Encontrei-me no primeiro domingo de abril com o casal granjeiro Ísis e Cláudio Leozzi. Cláudio foi integrante do Transition Granja Viana¹ bem no seu início, há 10 anos. Naquela época, estava envolvido em uma certificação italiana chamada Casa Clima, ligada à eficiência energética em edificações residenciais e institucionais.

Águas de início de abril
A conversa girou em torno da chuva do dia anterior, a árvore que caiu na frente da casa deles e a questão de se morar no mato e o quanto a natureza se impõe e, também, dita suas próprias regras. No sábado do temporal, Ísis e Cláudio demoraram muitas horas para chegar em casa. Mas não reclamaram: – Isto faz parte da nossa escolha de morar no meio do mato.
E então foram contando como era o terreno e como as construções iam se adaptando ao habitat onde moravam.

Arquitetando a matéria
Na mesma hora esta matéria começou. Fiquei imaginando o lugar onde eles moravam, como era o terreno e como eram as casas que eles foram construindo. Que hoje é um local de moradia compartilhada de forma orgânica. E, na hora, duas letras de música que são pura poesia sobre a natureza me vieram à mente: Águas de março e A terceira margem do rio. A matéria estava em andamento!

Marcamos de eu ir à casa do casal de engenheiros no final de semana seguinte. Neste meio tempo, ocorreu-me convidar minha filha caçula Lila e seu namorado, Tito, a irem também. Ela estuda arquitetura e imaginei que seria uma oportunidade para os dois jovens conhecerem a proposta da moradia ao vivo.

Antigamente, os projetos e traços arquitetônicos nasciam nas pranchetas. Depois, migraram em grande parte para o computador. No entanto, o bom projeto arquitetônico nasce e se desenvolve a partir da observação atenta e presente do local e do seu entorno.
O mesmo acontece com o jornalismo que é praticado no campo, onde a vida acontece.

O local e o seu entorno

Cláudio Leozzi mostrando o início do terreno e sua largura: 25 metros

 

A vista do escritório de Cláudio: mostrando o terreno para Lila e Tito

 

 

 

 

 

 

O telhado inclinado para não ferir a vista do verde; o escritório que pode virar palco

 

 

 

A casa de Ísis e Cláudio: ficou grande para o casal? Dividiram-na e alugaram uma parte!

No dia do temporal, no início de abril, a árvore caiu bem aqui, impedindo a entrada do casal de moradores: viver no meio do mato tem dessas coisas

 

Alugada para uma família pequena

 

Um tipo de estúdio para uma ou duas pessoas

Cadê o verde que estava aqui? Cadê o verde da Granja Viana?

Há muitos anos, entrevistei a arquiteta granjeira Leiko Motomura, para uma matéria para a minha coluna Granja Sustentável, no Site da Granja. Nunca vou me esquecer de suas palavras: “acho curioso que as pessoas se mudam para a Granja Viana em busca do verde. Quando compram seu terreno, a primeira coisa que fazem é pôr abaixo todas as suas árvores e plantas. Depois, constroem a casa e chamam um paisagista para fazer o projeto do jardim”.

Foi isso o que mais chamou minha atenção ao conversar com o Cláudio e com a Ísis. Quando os ouvi falar do projeto de arquitetura orgânica e dinâmica e quando observei as construções que edificaram, adaptando o terreno e sua vegetação nativa às moradias que construíram, achei que era uma história inspiradora para esta coluna. E, ainda melhor, acompanhada por duas letras de música que são natureza viva. Natureza musicada. Poesia da natureza!

 

Águas de março

Compositor: Antonio Carlos Jobim

É o pau, é a pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um caco de vidro, é a vida, é o sol
É a noite, é a morte, é um laço, é o anzol
É peroba no campo, é o nó da madeira
Caingá candeia, é o matita-pereira
É madeira de vento, tombo da ribanceira
É o mistério profundo, é o queira ou não queira
É o vento vetando, é o fim da ladeira
É a viga, é o vão, festa da cumeeira
É a chuva chovendo, é conversa ribeira
Das águas de março, é o fim da canseira
É o pé, é o chão, é a marcha estradeira
Passarinho na mão, pedra de a tiradeira
É uma ave no céu, é uma ave no chão
É um regato, é uma fonte, é um pedaço de pão
É o fundo do poço, é o fim do caminho
No rosto um desgosto, é um pouco sozinho
É um estepe, é um prego, é uma conta, é um conto
É um pingo pingando, é uma conta, é um ponto
É um peixe, é um gesto, é uma prata brilhando
É a luz da manha, é o tijolo chegando
É a lenha, é o dia, é o fim da picada
É a garrafa de cana, o estilhaço na estrada
É o projeto da casa, é o corpo na cama
É o carro enguiçado, é a lama, é a lama
É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã
É um resto de mato na luz da manhã
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração
É uma cobra, é um pau, é João, é José
É um espinho na mão, é um corte no pé
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração
É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã
É um belo horizonte, é uma febre terçã
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração

 

A terceira margem do rio
Letra: Caetano Veloso  
Música: Milton Nascimento
(Baseada no conto A terceira margem do rio, de Guimarães Rosa)

Oco de pau que diz:
Eu sou madeira, beira
Boa, dá vau, triztriz
Risca certeira
Meio a meio o rio ri
Silencioso, sério
Nosso pai não diz, diz:
Risca terceira

Água da palavra
Água calada, pura
Água da palavra
Água de rosa dura
Proa da palavra
Duro silêncio, nosso pai

Margem da palavra
Entre as escuras duas
Margens da palavra
Clareira, luz madura
Rosa da palavra
Puro silêncio, nosso pai

Meio a meio o rio ri
Por entre as árvores da vida
O rio riu, ri
Por sob a risca da canoa
O rio viu, vi
O que ninguém jamais olvida
Ouvi, ouvi, ouvi
A voz das águas

Asa da palavra
Asa parada agora
Casa da palavra
Onde o silêncio mora
Brasa da palavra
A hora clara, nosso pai

Hora da palavra
Quando não se diz nada
Fora da palavra
Quando mais dentro aflora
Tora da palavra
Rio, pau enorme, nosso pai

Foto em destaque: Ísis, Cláudio e eu, no escritório do Cláudio, na “pequena vila” do casal, na Fazendinha, na Granja Viana


[1] O Transition Granja Viana (TGV) faz parte do movimento internacional Transition Towns, Cidades em Transição, que visa tornar as cidades e seus habitantes mais sustentáveis, unidos, conscientes e resilientes diante de questões iminentes que estamos enfrentando em relação ao aquecimento global, ao uso desenfreado do plástico e seu descarte, ao uso exacerbado de agrotóxico nas plantações, entre outros. Para saber mais e participar do movimento:   https://facebook.com/transitiongv e http://transitiontownsgranjaviana.blogspot.com

 

Sobre o autor

Sílvia Rocha

Sílvia Rocha mora na Granja Viana desde 1994.
É graduada e mestre em Comunicação Social – Jornalismo – pela Escola de Comunicações e Artes da USP.

Pratica o haikai – micropoemas de origem japonesa, inspirados na natureza – desde 1984. Publicou a segunda edição de Estação Haikai e Gestação Haikai, pela editora É selo de língua, 2015. Ganhou o Concurso de Poesia Falada do Café das Flores e da Revista Escrita com As Quatro Estações do Ano, em 1987.

Escreve matérias, artigos e crônicas para veículos impressos e virtuais e conduz a oficina Haikai: universo em três versos em grupos, individualmente, presencialmente e à distância.

Site: www.silviarocha.com.br

1 Comentário

  • Jornal daqui e o jornal de sempre!!!rico,interessante,granjeiro or excelência
    Quando estou com ele…as saudades da granja crescem é preciso entender o que resulta muito difícil de aceitar: buscamos a natureza embora atuamos na voragine

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