Colunistas Iana Ferreira Psique e Vida

Por um não cancelamento do dia de todos os pais

Escrito por Iana Ferreira
Como entender a polêmica em torno da campanha da Natura

Com várias figuras públicas convidadas a participar da propaganda deste ano do dia dos pais, a Natura sem dúvida atingiu a grande meta de promover visibilidade ao colocar Thammy Miranda, ator que foi pai no início do ano, no time escolhido. Em contrapartida, a meta de vendas talvez não seja alcançada, afinal um grande movimento dos setores conservadores se formou para “cancelar a Natura” – embora as ações da empresa tenham subido nestes dias; então, ainda não se sabe qual será o resultado comercial de fato.

Em imagens delicadas de pais com seus filhos na rotina desafiadora da quarentena, o foco da campanha é a paternidade ativa, numa homenagem a pais que se fazem presentes. Quais os outros elementos que compõem esta novela? Thammy Miranda, o filho da Gretchen, é um homem transgênero. Apenas isto!

A pergunta que surge é por que uma onda reativa tão forte surge a partir da presença de um homem transgênero numa propaganda? E também por que isso se torna o foco maior em meio a uma proposta muito mais abrangente?
O motivo alegado por muitas pessoas para a reação contrária é que o ator não as representa. Silas Malafaia, encabeçando o movimento de cancelamento da Natura, afirmou que a campanha “é uma afronta aos valores cristãos”. Nada disso explica uma reação negativa tão forte, cheia de agressividade, num movimento que atinge com violência… pessoas e suas vidas.

Quando estamos diante da intolerância estamos olhando atitudes que têm muito pouco a ver com a busca do bem, defendida em geral pelos próprios intolerantes. Isto seria incompatível com o sentimento de ódio presente nas manifestações de intolerância. Ódio é aversão profunda. E vale a pena se perguntar por que alguém sente aversão numa intensidade tão grande diante de opções feitas por outras pessoas, sendo que estas pessoas e suas opções não afetam o cotidiano e as opções do intolerante.

Ou será que afetam?

A resposta só pode ser que sim, afetam e muito.

Vamos entender?

Não tolerar de forma tão exaltada indica que aquilo que causa aversão está muito mais próximo do intolerante do que ele presume. E o ameaça. Para a psicologia, aquilo que não se tolera é sempre algo que não está bem resolvido em si mesmo/em si mesma. As várias formas de fanatismo que embasam as atitudes de intolerância são um modo de evitar incertezas pessoais e profundas, por exemplo, a respeito da própria sexualidade, estrutura de vida, valores adotados.

Sendo difícil fazer uma elaboração mais consciente dessas questões, parte-se para a truculência e preceitos morais inquestionáveis, numa forma de tentar garantir uma ordem estabelecida, ordem esta que, no fundo, possui alicerces frágeis. Estas atitudes apenas mantêm suprimida a capacidade de se relacionar com o tema que incomoda. O que causa temor e repulsa não é exatamente o que se enxerga no outro, mas o reflexo daquilo em si, o fato de ver ameaçada sua própria forma de ser.

Esta não é a primeira vez na história que algo diferente irrompe no meio social causando turbulências, muitas vezes extremadas. E lidar com o que é diferente dá muito mais trabalho. O que é estranho ou novo sempre exige muito mais elaboração mental. Então, que um desarranjo aconteça diante de novas concepções não é exatamente de surpreender. O problema surge na exaltação disso nos níveis que vemos atualmente nos casos de xenofobia, homofobia, transfobia, naquilo que leva ao feminicídio etc. Então, estamos diante de um crime, felizmente as leis brasileiras ao menos já reconhecem isso.

Provavelmente este artigo não seja lido por quem está incomodado/incomodada com a campanha da Natura. No entanto, se coletivamente formos lançando luz sobre o tema, ainda que não consigamos cancelar nossas sombras sociais – pois elas não são “canceláveis” – ao menos podemos diminuí-las. É o que desejamos.
Feliz dia dos pais a todos e todas!

Sobre o autor

Iana Ferreira

Iana Ferreira é formada em Musicoterapia e graduada e mestre em Psicologia do Desenvolvimento e da Personalidade pela Universidade de São Paulo (USP). Em conjunto com o consultório, realiza diversos trabalhos com a escrita e aprecia escrever, em especial com enfoque no autoconhecimento e no desenvolvimento humanos.

Deixe um comentário