Colunistas Crônica Jany Vargas

Qual é sua dor?

Escrito por Jany Vargas

Antes do isolamento eu não sabia de onde, dentro de mim, saiam minhas ações e decisões, de onde eu partia para fazer – e ser – minhas escolhas, para viver meu cotidiano. Foi uma outra pessoa que me mostrou que havia mais de um centro dentro de mim.

Ele se chama Gabor Maté, é médico no Canadá, e eu o encontrei num TED. Sabe o que é? Palavras que merecem ser espalhadas é o subtítulo de uma série de palestras feitas em cerca de 18 minutos no YouTube, por pessoas que tem o que dizer.

Ele trabalha com viciados e ele mesmo tem seus vícios. No caso, em trabalho e comprar Cds de música clássica. Inofensivo? Que tal gastar 8 mil dólares em Cds enquanto sua paciente o espera para o parto?

Enfim… ele sugere que nós nos perguntemos: o que o vício traz de bom para mim? Seus pacientes costumam responder: alívio de dores, do medo da vida, senso de paz ou controle, esquecimento, trégua, tentativa de sair da própria pele, escapar da própria mente.

No meu caso: uma volta para dentro de mim. Acessar um lugar interno de paz e integridade. Uma desculpa para não fazer ou estar em lugares que não quero estar, fazendo coisas que não quero fazer.

Por que eu simplesmente – em vez de usar meus vícios – não me recolhia para esse lugar? Por que eu não sabia que ele existia.

Vamos à pista número dois a partir do que ele falou: os viciados, como ele, como eu, e como os muitos dos seus pacientes que morrem, não por terem um armário lotado de Cds, e sim por drogas que dependendo da quantidade são letais, como heroína, etc, têm em comum?

Infâncias difíceis, vidas difíceis. Entre seus pacientes muitos são da população nativa do Canadá que sofreu barbaramente com a invasão de seu território, e também pessoas abusadas na infância, etc.

No caso dele, sua mãe ligou para o médico, quando ele nasceu em 1944, e disse que ele não parava de chorar. O médico respondeu: vou vê-lo, mas saiba que todos os bebês judeus estão chorando. Suas mães estavam chorando de medo. Estavam em plena guerra.

Eu? Não tive tantos problemas assim, mas o suficiente para criar mais de um centro dentro de mim. Fiquei reconstruindo meus primeiros meses na Terra. Minha mãe com outros dois filhos pequenos, um casamento complicado e um bebê que ela não sabia maternar muito bem (qual mãe sabe? O tempo todo?). Creio que eu ficava num lugar aflito de necessidades mal compreendidas, exposta a alguma confusão. Também tinha um lugar de paz, onde ficava comigo mesma descobrindo as sombras, as luzes, o movimento… e um terceiro lugar, intimamente ligado ao lugar da carência: o lugar da interação. Acho que foi ali, por tentativa e erro, que descobri que ser fofa era uma estratégia que produzia resultados.

Então, na presença do Outro, é dali que opero. Do lugar da fofa. Por isso que sou querida pela vida afora? Por isso que preciso pegar minhas chupetas e ir para um canto me encontrar comigo mesma no lugar de paz? Nestes tempos de Covid, a partir dessas reflexões que esse médico trouxe, pude compreender essa dinâmica e perceber o quanto eu me forçava a situações por ser fofa. Pude enxergar esse lugar de paz quando as pressões que eu fazia sobre mim amainaram com o isolamento.

Não é demais? Espero que seja útil para você essa reflexão. Que você converse com seus vícios, descubra o que ganha com eles. O que perde. E se aquilo que perde – os danos – alimentam a falta de paz que te faz precisar do vício. Como ele disse: comprar não vicia, mas podemos ficar viciados, drogas não viciam, mas podemos ficar viciados. Tudo pode ser o espaço para nosso vício se manifestar e atirar na parte visível do vício não produz efeitos duradouros.

Acredito mais na consciência. Para eu achar o lugar de paz, para operar a partir de lá agora, eu me digo primeiro de tudo: você não tem que nada! Vou caminhar ou me sentar (ao ar livre!) para conversar comigo mesma. Para ouvir minhas motivações, para perceber se estou operando a partir do lugar de paz ou do lugar da fofa. Ouvir o coração é uma boa metáfora. Venho procurando aprender a ouvir o coração. A acalmar a fofa… ela não vai mais morrer se suas necessidades não forem atendidas, ela já tem condições de ir atrás do que precisa, já é autônoma.

Recomendo muito fortemente essa conversa consigo mesmo. Tenho pegado todos os assuntos: casamento (ex, no caso), filhos, infância, mãe, pai, irmãos, amores, dinheiro… e conversado comigo. Conto pra mim mesma a história dessas relações, desses acontecimentos na vida. Vejo com a perspectiva que tenho agora, checo as versões que fui construindo e nunca revisei. Lavo a casa, abro as janelas, arejo, deixo o sol entrar, tiro o entulho, percebo que posso soltar as narrativas que criei, posso me liberar e liberar os outros dos meus julgamentos. Posso enxergar que o passado não precisa ser uma roupa invisível que visto. Posso perceber que sou um ser em vertiginoso movimento, como todos os outros, vindo de não sei aonde e indo para não sei aonde. Nesse meio tempo posso oferecer minhas ações a partir do lugar de paz. São assim muito mais sábias, pesam menos para os outros.

Enquanto eu viver… aqui, nessa forma.

P.S. – Definição de vício para Maté: qualquer comportamento que dê um alívio temporário e que a longo prazo cause prejuízo e que não é possível abandonar, apesar das consequências. E ele sugere que não se pergunte qual é seu vício e sim qual é sua dor!

Para conhecer mais: facebook Gabor Maté, no Ted Rio no YouTube e seu site drgabormate.com

Imagem: Pintura em parede de Julia Vargas e Llurenss Estivill

Sobre o autor

Jany Vargas

Transita no universo das Danças Circulares e é escritora. Escreve para levar ideias daqui para ali. Para contar histórias, falar do seu tempo, participar do diálogo, contribuir.

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