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Saúde psíquica em meio à pandemia, também é preciso cuidar

Escrito por Iana Ferreira

Um momento repleto de urgências, em que a pandemia em curso inclui a disseminação de desorientação, inseguranças e medo, mostra que é essencial cuidar também da saúde da mente.

Ainda por cima, não à toa, precisaremos de boa imunidade para combater a Covid-19 e todos os seus efeitos em nossa vida. E falar de sistema imunológico é falar de onde mente e corpo mais intimamente se mostram indissociáveis. Portanto, precisamos de um olhar para ambos.

Para começar a cuidar da mente, é importante entender que sempre que temos um problema é porque não dispomos de ferramentas adequadas para uma situação. Então, simplesmente precisamos desenvolvê-las. Ponto.

Ora, não temos quase nenhuma ferramenta para uma situação como a do coronavírus. Estamos descobrindo aos poucos como lidar com isso. Portanto, natural que estejamos em alerta e mais tensos que o normal. Mas simplesmente precisaremos seguir, porque não temos como evitar a situação.

Lamentações e desespero de nada servem aqui e só acrescentam mais problemas ao problema central.

Outro caminho ruim é o da negação. Fazer de conta que algo calamitoso não existe é preguiça de tomar as medidas necessárias, de sair do conhecido e do que é confortável. É preguiça, sim, dos sacrifícios que se impõem. Uma atitude irresponsável.

Evitar esses extremos é cuidar e manter a saúde da mente.

Pensemos mais sobre ela.

Equivalente a higienizar o corpo, precisamos cuidar da higiene da mente. Como? Algumas indicações que podem ajudar:

  • Não negue a gravidade da situação, não feche os olhos. Em vez disso, encare o problema e descubra seus recursos internos para enfrentar a crise;
  • Por outro lado, não crie pânico para si nem para os outros. Não se torne monotemático, buscando e repetindo exaustivamente notícias e falando apenas da pandemia e suas desgraças, inclusive econômicas. Isso não é buscar soluções, atitude que dá mais trabalho do que ficar no disco arranhado;
  • Tenha um olhar para o futuro e para o que ainda pode vir, mas não perca de vista o presente e a vida a ser vivida agora. Ela continua, e viver o momento ajuda a aliviar a tensão de algo de uma dimensão maior. Alterne e se equilibre;
  • Não fique chorando prejuízos. Eles certamente virão e podem ser bem amargos. Nada a fazer a respeito disso. E em uma situação de emergência tudo precisa estar inteligentemente direcionado para a resolução de problemas. A pergunta será sempre: isso (lamentar, no caso) ajuda? Não, não traz nenhum benefício. Então, proteja-se. Depois será preciso bastante energia para consertar os estragos;
  • Preserve suas noites. Durma. Nestes momentos você nada pode fazer pela situação, a não ser repor energias e deixar o sono restabelecer funções corporais e psíquicas. O mesmo vale para os finais de semana. Descanse.

 

Sim, tudo isso pode ser feito. Dê os comandos, aprenda como. Ouvi esta última orientação quando atravessei um momento tenebroso nas finanças familiares – quem nunca? – e posso dizer por experiência pessoal: é possível! Pare de resistir a atitudes mais maduras. No momento não é possível, ainda bem.

 

Precisamos também cuidar do coletivo. Manter a saúde neste âmbito é fundamental. Estamos e estaremos conectados como nunca – ou apenas mais conscientes disso. Então, saúde do todo é também saúde individual. Portanto:

  • Não seja egoísta esvaziando prateleiras de supermercado e farmácias só porque você tem dinheiro para isso e uma dispensa gigante em casa; essa atitude prejudica quem não pode gastar muito de uma só vez, cria escassez e coloca os preços de tudo nas alturas. Controle-se;
  • Ao invés disso, evite aglomerações, entenda que home office não é dia livre para se divertir, e corte o supérfluo antes mesmo que o papai governo ou a mamãe necessidade obrigue você a fazer isso. Tenha perspectiva: daqui a algumas semanas poderemos voltar a alguma normalidade. O prazo disso não é infinito, e será menor se tivermos consciência e todos contribuirmos agora;
  • Seja solidário com os que lhe prestam serviços. Na medida do possível, não desmarque com quem trabalha na sua casa só para não pagar essas pessoas. Não cancele as aulas particulares, a ginástica, a yoga, o inglês, as aulas de música ou de dança e outras atividades, em especial se elas são realizadas por pequenos empreendedores. Tudo isso pode ser reposto depois. E se não der, tudo bem. O importante é tentar criar e manter esta rede solidária de sustentação. Todos precisaremos dela. Localize a força e a capacidade que você tem para contribuir com isso e não se deixe afundar;
  • Seja solidário também com idosos, vizinhos, amigos e familiares. Veja se está a seu alcance fazer algo por eles e também procure apoio quando precisar. Boa hora para restabelecer essa rede de sustentação.

No mais:

  • aceite as orientações dadas, inclusive a de evitar sair pelas próximas semanas. Ninguém quer sacrificar nada, mas o momento não é de fazer o que se quer, mas o que é preciso. A medida de isolamento – expressão horrível, a gente sabe – foi a melhor encontrado por enquanto. Evita chegarmos muito rápido ao pico da contaminação, causando colapsos mais sérios, e dá chances de a situação estar mais estabilizada em um tempo menor;
  • E lembre-se das orientações bem básicas: lave as mãos muito bem e com frequência; entre uma lavagem e outra não coloque as mãos no rosto; cubra a boca com lenço ou o cotovelo para tossir ou espirrar; não cumprimente com beijos e abraços; guarde distância de um metro. Isso não vale só pra quem está com algum sintoma de gripe. Muitos de nós estaremos com o vírus e sem sintomas. É o suficiente para passá-lo adiante.

Dar exemplo também é uma grande colaboração neste momento. Sinta-se uma peça importante nessa engrenagem, assumindo suas responsabilidades. Isso também é saúde mental.

 

No mais, com tantos desequilíbrios na vida humana da nossa época, como podíamos pensar em seguir imunes a um desastre ocasional? Extraordinário seria ir em frente sem colher resultados dos desequilíbrios criados. Por mais conscientes que sejamos, não estamos sendo convidados a parar um pouco para reavaliar caminhos?

Adoecimentos individuais sempre trazem possibilidades de curas que transcendem a do corpo físico. É aquela hora de rever posturas e comportamentos, pensar na pressa, ansiedade, no porquê de não encarar problemas que são carregados há tempos. O corpo para. A mente ganha o tempo que precisava. Então, há chances. Uma grande oportunidade.

Coletivamente, um planeta quase todo obrigado a desacelerar, quase parar, é o que estamos vivendo: uma chance, uma oportunidade. Nem todos olharão. Nem tudo compreenderemos, mas não tem problema. Ganhos certamente virão.

Há dias estamos mais conscientes do mundo e das outras pessoas. Há dias estamos nos dando conta de que a vida é repleta de incertezas. Há dias estamos percebendo a nossa fragilidade e que se as coisas à nossa volta desabarem, iremos junto.

Esta é a grande oportunidade atual: poder desafiar nossas grandes ilusões, em especial a de que tudo está garantido e é linear e de que somos separados e independentes uns dos outros. O que realmente coroa este vírus é nos despertar para o fato de que só encontraremos saídas se tivermos consciência e se nos unirmos. Só as mudanças individuais aliadas ao movimento coletivo, comunitário e solidário e à reciprocidade podem nos conduzir para fora deste lugar, onde o individualismo e o egoísmo cego nos meteram. Vamos lá. Agora a saída é estender a mão – simbolicamente! Nunca isso foi tão necessário. Se não sabemos fazer, está na hora de aprender. A gente consegue. E quem sabe saímos mais fortalecidos dessa experiência, imunes a outros desastres ou ao menos imunes à aflição de achar que não conseguimos viver a não ser quando a vida flui favoravelmente?

Daqui a algumas semanas a gente avalia. Por ora, arregacemos as mangas e tomemos nas mãos aquilo que nos cabe fazer e aprender ou aprimorar. Cuidemo-nos. A todos!

Sobre o autor

Iana Ferreira

Iana Ferreira é formada em Musicoterapia e graduada e mestre em Psicologia do Desenvolvimento e da Personalidade pela Universidade de São Paulo (USP). Em conjunto com o consultório, realiza diversos trabalhos com a escrita e aprecia escrever, em especial com enfoque no autoconhecimento e no desenvolvimento humanos.

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