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Três motivos porque o distanciamento social nos perturba – entendimento e cuidados

Escrito por Iana Ferreira

A quarentena vai avançando e os dias mergulham ainda mais na mesmice? O tédio bate à porta? A sensação de marasmo incomoda um tanto mais a cada semana que passa? Aqui muitas vezes sim. Mas é possível cuidar. Vamos juntas/juntos fazer isso!?

Segundo estimativa da OMS, 30% a 50% da população vai precisar de algum tipo de ajuda durante este período de distanciamento social. Mas esta ajuda não necessariamente precisa ser ofertada por um especialista ou profissional. Atenção psicossocial e saúde mental são cuidados proporcionados por todos nós, coletivamente. Então, vamos entender melhor o momento e os motivos por que nos sentimos entediados, tristes, ansiosos e muitas vezes deprimidos com a situação extraordinária que estamos vivendo?

Escolhi três deles que, se bem compreendidos, podem nos dar condições de fazer um melhor enfrentamento deste período de isolamento.
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1. Fixação numa condição única
Nenhuma atividade, por mais prazerosa que seja, consegue ser sustentada por tempo demasiadamente longo. Neste sentido, ficar em casa, interrompendo a variação natural das atividades e onde o próprio ambiente físico não se altera, produz desconforto, saturação e cansaço. Nessa condição, também se perdem ou se dissolvem os ciclos do dia, os períodos em que se alternam recolhimento e expansão, convívio social e intimidade, trabalho e diversão etc.

O QUE FAZER
Crie alternâncias ao longo do dia. Variar esforço e relaxamento, por exemplo, pode ajudar muito na recuperação de um cotidiano mais saudável e próximo do habitual, mesmo estando em casa. O trabalho agora em home office, aquelas ordenações ou consertos há tempos adiados nos armários, cômodos, telhado, dispensa…, um curso que estava engavetado são momentos de ação, que devem ser alternados com relaxamento e descanso. Descanso mesmo! Lembre-se de que estar permanentemente em casa é uma condição muito exigente. Descansar é preciso, da mesma maneira que não se entregar à inércia é essencial.

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2. Solidão e perda do convívio social
Somos seres gregários e as trocas com outras pessoas nutrem a vida. Essas trocas ampliam nossa visão sobre as situações e enriquecem nossas experiências. Além disso, é no outro que reconhecemos a nós mesmas/nós mesmos, sendo o sentido de pertencimento essencial para a vida humana.

O QUE FAZER
Diante das circunstâncias atuais, uma solução para o problema sem dúvida é manter contato com pessoas próximas da forma que for possível, incluindo as ferramentas online. No entanto, pode ser que você não esteja se sentindo disposto ou disposta a isso. É compreensível. De fato, a vida virtual, agora com inúmeros novos canais possíveis, é cansativa. Além disso, ela não satisfaz toda a nossa necessidade de conexão, uma vez que muitos elementos dos encontros habituais não estão presentes ali.

Ainda assim, vale insistir. As trocas seguem sendo muito importantes. Costuma valer a pena fazer um esforço inicial.

Mas existe ainda uma outra conexão possível para a qual é bastante útil atentarmos: aquela que acontece consigo mesmo/mesma. Sim, isso tem se mostrado muito verdadeiro: pessoas que têm uma rica vida interna, o que significa interesses, criatividade, prazer, autonomia etc. sentem menos o isolamento. E o motivo é que elas estão conectadas com um vívido mundo pessoal, que segue seu fluxo e movimento próprios.

Sendo assim, é hora de olhar para esta vida interior e eventualmente voltar a cultivá-la. Quantas vezes no passado nós não a abandonamos em nome de meras obrigações? Pode ser que hoje ela esteja batendo à porta novamente. Hora de recebê-la de volta. Não perca a conexão consigo e com seus interesses. Volte-se para eles de novo. A vida psíquica agradece.

3. Suspensão das metas
O impacto de ter nossos projetos e metas suspensos é grande. De repente, não sabemos ou não podemos fazer o que fazíamos, perdemos a direção, muitos dos sentidos que nos colocavam de pé pela manhã foram cancelados por tempo indefinido.

Pode ser que isso tenha alterado os nossos ganhos e então o problema é também financeiro. Mas nem é preciso tanto para que essa interrupção traga incômodos.

O QUE FAZER
Se insistirmos em buscar, em nos apegar àquilo que não pode acontecer agora, certamente ficaremos tristes, frustrados, com raiva etc. Então, é preciso nos reorganizar em função da situação presente. É muito importante nos oferecer novas direções. Isso se opera de forma consciente e ativa. Se não assumirmos essa responsabilidade, nossa mente ficará apenas nos enviando mensagens de que algo está faltando. E sofreremos.

Portanto, nos voltemos para o momento presente e façamos os ajustes necessários. É possível criar e nos dedicar a novas metas ou mesmo atender aquilo que já existia e pode ser olhado de outras maneiras agora. Talvez tenhamos neste exato instante uma ótima oportunidade de tocar nossos projetos. Nem tudo é apenas o fazer externo do cotidiano antigo.

Em suma, o enfrentamento de toda crise exige de nós um esforço extra e muita criatividade e adaptabilidade, simplesmente porque nos exige mudanças. Até temos a opção de não fazer isso e apenas reclamar e/ou esperar. Aceitando o desafio, no entanto, também nós sairemos mudados dessa situação. E fortalecidos. Vale a pena tentar.

Busque ajuda quando necessário. Não precisamos estar fortes o tempo todo.

Desejamos que todos se cuidem bem e possam estar em segurança.

Sobre o autor

Iana Ferreira

Iana Ferreira é formada em Musicoterapia e graduada e mestre em Psicologia do Desenvolvimento e da Personalidade pela Universidade de São Paulo (USP). Em conjunto com o consultório, realiza diversos trabalhos com a escrita e aprecia escrever, em especial com enfoque no autoconhecimento e no desenvolvimento humanos.

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