Colunistas Daqui Heloísa Reis

Uma lembrança e homenagem ao MDGV

Escrito por Heloísa Reis

“…todos que atravancam o meu caminho,
Eles passarão … eu passarinho.”
Mário Quintana

Você sabe o que foi o Movimento em Defesa da Granja Viana – o MDGV ?

Em 2009 um grande grupo de moradores manifestou-se contra a derrubada de uma extensa área de mata para dar lugar a mais um empreendimento imobiliário no local. Dessa manifestação surgiu um grupo que se organizou e se manteve unido durante dez anos com o objetivo de trabalhar e colocar energia na qualidade de vida que a região, ainda preservada com alguns espaços naturais, merecia – e ainda merece!

A ideia central era a de unir pessoas em torno dos objetivos do bem viver, mantendo as matas e seus animais, colaborando para a integração e o respeito à ocupação do lugar, observando a humanização do crescimento de toda a região.

E, assim desenvolveram-se diversos projetos durante todos os anos em que o MDGV atuou. Sim, o Movimento atentou para a diversidade social de nossa população e para os problemas que afligiam a todos, decorrentes da corrida da especulação imobiliária que ocorre até hoje A busca sempre foi a de uma integração comunitária difícil, dada a diversidade social e a natureza dos problemas. Mas apesar das dificuldades, foram atendidas as mais diversas solicitações, desde a checagem da regularidade de algumas construções em ruas estritamente residenciais, até a iniciativa de levar cinema a comunidades sem qualquer acesso local à cultura.

Além de promover reuniões semanais para reflexões sobre assuntos relevantes para a comunidade, de acompanhar as reuniões do Conselho do Meio Ambiente de Cotia e Carapicuíba, e de fazer parte da Associação Amigos do Parque Cemucam, o MDGV sempre apresentou seu pensamento e propostas, recebendo apoio de inúmeros representantes de segmentos sociais em muitas oportunidades. As gestões trabalharam intensamente com o objetivo de defender o meio ambiente e de fomentar ações para estimular não só a vida cultural da Granja Viana mas também para estender essa ideia às cidades vizinhas. Fazendo parte do antigo Grande Oeste Verde (GOVerde), um coletivo de diversas associações locais pertencentes à região metropolitana oeste paulistana, procurava potencializar a estrutura técnica e espacial das ONGs informais, firmando parcerias com coletivos de produção independente em diferentes linguagens culturais e educativas.

Não havia vinculações político-partidárias, nem com entidades de classe ou representativas de qualquer segmento profissional ou agremiações filantrópicas, procurando a entidade manter-se apenas com a doação de tempo, de trabalho e de envolvimento pessoal com os ideais de se manter fiel à filosofia de que a união entre as pessoas e sua diversidade poderia dar um rumo mais humano ao desenvolvimento da Granja e seu entorno.

Comemorou muitos sucessos mas amargou também diversos fracassos, devido às dificuldades com as burocracias e empecilhos da política instalada. Passou, em certo momento, a dedicar-se mais à atuação de promover encontros na área cultural. Resolveu criar a Semana Cultural acreditando no alimento educativo como o mais urgente para que as pessoas se unissem e tomassem posse da sua própria cultura e para que chegassem às soluções dos problemas comuns. Passou a convidar para palestras diversos profissionais que muito contribuíram para o esclarecimento dos mais diversos assuntos.

O MDGV divulgou com esse trabalho a crença de que para superar a sensação de impotência frente ao pensamento fundamentalista, polarizado e hermético, seria necessário incentivar o surgimento de uma fé inabalável nas atitudes participativas. Assim, os saraus seguidos de palestras mensais, trouxeram sempre o pensamento sadio, livre de compromissos escusos, voltado genuinamente para o todo, procurando provocar uma guinada de rumos na direção da integração de pensamentos e atitudes voltadas para o bem viver sem distinções. Trabalhou para a valorização da nossa gente, para a importância da nossa história, para a valorização de nossa geografia e investiu esforços para trocas de conhecimento levando arte e cultura para toda a região, aderindo e colaborando cada vez mais com outros movimentos organizados como Transition Granja Viana, Âncora, Oca, Acorde, São Joaquim e outras.

Mas chegou o tempo em que, para dar continuidade precisava de adesões. Precisava aumentar sua energia com um envolvimento crescente da população da região que estava em visível e acelerado movimento de “desenvolvimento”. Surgiam prédios, muitos condomínios, grandes empreendimentos comerciais muito mal acompanhados pelas mínimas condições de ruas e demais estruturas necessárias à qualidade de vida e de circulação.

Até que um dia, constatou-se que a energia das pessoas envolvidas era insuficiente. Exatamente dez anos após sua fundação, em 2019, apesar das tentativas de continuidade, o Movimento em Defesa da Granja Viana foi extinto. A vida de cada participante, em suas incógnitas integridades, segue desde então com a consciência tranquila de terem trabalhado ativamente – e por um bom tempo – para o incentivo à participação. A todos os envolvidos nesses trabalhos direta ou indiretamente, as pessoas que têm o conhecimento da causa sentem a mais profunda gratidão.

Ficaram gravados na energia etérea de toda a região os desejos de união no trabalho ativo, cultural e educativo para que a sociedade crescesse na solidariedade, na ajuda mútua, na aceitação das diferenças – afastando-se das tendências fundamentalistas que vemos reforçadas nestes tempos e que, certamente, passarão. Resta-nos hoje a possibilidade de que novas gerações de cidadãos abracem as mesmas causas à sua maneira e ficamos com o consolo do verso famoso de Quintana na certeza de que a nós…os passarinhos!

Foto em destaque, do site MDGV: Parque Cemucam

 

 

Sobre o autor

Heloísa Reis

Artista visual e arte-educadora, pesquisa a linguagem da arte contemporânea e sua importância enquanto instrumento de transformação. “Pinta e borda”, constrói objetos e gosta de ler e escrever. Atua em grupos como MDGV, Transition da Granja e Grupo ArteJunto procurando aprender com eles a arte de refletir a cidadania.
www.encontrosheloisareis.blogspot.com

Deixe um comentário