Arte Colunistas Heloísa Reis

Vamos falar sobre Arte e Política?

Escrito por Heloísa Reis

A História nos mostra que a Arte nasceu da nossa necessidade humana de expressão desde quando, em remotas eras, traços espontâneos ficaram registrados nas paredes das cavernas revelando às gerações seguintes as angústias, as alegrias, as surpresas daqueles homens e mulheres primitivos. Animais, cenas de caça, desejos e conquistas ficaram gravados como testemunhas do pensamento e do sentimento humano da época.

Passados alguns séculos, a Arte e a habilidade de registrar o mundo real acrescido de adornos e valorizações ficaram a serviço de reis e sacerdotes como veículos de comunicação instantânea, diretas aos sentidos, e capazes de manter o fascínio e a admiração pelas obras grandiosas e eloquentes. Cenas bíblicas, cenas de batalhas, retratos de eminentes personagens eram valorizadas através da arte, que foi até usada como instrumento de dominação.

Muito grande foi a transformação ocorrida com o advento da indústria, quando a máquina passou a fazer os serviços que anteriormente eram manuais, deixando para a manifestação artística apenas a expressão pessoal e espontânea dos artistas. A arte passou a interessar-se pela luz, pelo movimento, pelas essências, pelas pessoas do povo, paisagens e ambientes do cotidiano e a expressão pessoal passou a ter um valor inédito . Rapidamente foram se alternando e/ou convivendo em lugares diferentes do mundo diversos movimentos que, sendo de natureza oposta, apresentaram ideias e ideais de expressão diferentes, buscando originalidade e autenticidade para inserção num mercado burguês que tinha aprendido com os reis o poder da arte como afirmação de expressão e status.

Com o r á p i d o evoluir dos tempos entramos numa época em que a arte interessou-se muito menos pelas apologias da beleza e da grandiosidade passando a dedicar-se às discussões e contestações – até sobre si própria – enveredando pelas desconstruções conceituais e pelas metalinguagens.

Ganharam espaço as estéticas deliberadamente esvaziadas de conteúdo, focadas na contestação e no ativismo. A Arte passou a ter seu foco nas minorias, nas discussões de etnias, de desníveis sociais, de gênero e etc., mesmo que através de símbolos e repertórios de ação muitas vezes em busca do choque e do desconforto.

A Arte passou a ser ferramenta de ação e um esboço para uma atitude política contemporânea.

E assim como arte é vida, vida é política .

Não raro vemos artistas envolvendo-se em movimentos sociais abraçando uma causa, expondo sua posição política e muitas vezes sendo massacrados e esquecidos pela grande mídia que parece não suportar posições reflexivas e definidas expostas a público. E posições são assumidas até mesmo com a negação daquilo com o que não se deseja compactuar.

Na realidade vivemos em busca de poder, sempre, no dia a dia, individualmente traçando rumos, fazendo planos ou realizando ações. Contudo, o dia a dia também é perpassado por muitas emoções, indignações, protestos, revoltas íntimas frente a conflitos e opressões coletivas que hoje podem ser expressas através de compartilhamentos no contexto social.

E esta é uma das formas de se fazer política.

Se o objetivo é mudar o sistema que cheira a podre, comprometido com práticas contrárias à Ética, estando a serviço de um acúmulo de benesses particularizadas, a atitude artístico/política pode voltar-se à reconstrução dos valores orgânicos em favor dos grupos e indivíduos que deles fazem parte buscando a reestruturação do todo – organicamente.

A arte pode fazer isso. Poderosa fonte de significados e significantes, ela pode propor questionamentos aos indivíduos, e pode torná-los sujeitos capazes de saírem da mera indignação para a ação, potencializadora dos laços comunitários.

A tarefa é escapar do poder da grande mídia, dos saberes só normativos, das estéticas fabricadas, das supervalorizações do superficial, presente no entretenimento de massa. Buscar as alternativas expressivas e de conteúdo, sem esquecer a sensibilidade e a compaixão.

Reflexão, faz arte. E política.

Em destaque: “O Nada de Cordélia” Encáustica. Heloisa Reis Série O Jantar do Poder. 2015.

Sobre o autor

Heloísa Reis

Artista visual e arte-educadora, pesquisa a linguagem da arte contemporânea e sua importância enquanto instrumento de transformação. “Pinta e borda”, constrói objetos e gosta de ler e escrever. Atua em grupos como MDGV, Transition da Granja e Grupo ArteJunto procurando aprender com eles a arte de refletir a cidadania.
www.encontrosheloisareis.blogspot.com

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